Aula 116 - A maledicência e a indulgência

Ciclo 1 - História: O caso da Girafa   - Atividade:  PH - Os doze apóstolos  - 5 . A maledicência.

Ciclo 2 - História: A palavra - Atividade: ESE - Cap. 10 - 4 .O argueiro e a trave no olho.

Ciclo 3 - História: Ensinamento vivo - Atividade: ESE - Cap. 10 - 7. A indulgência ou/e pedir para que cada aluno escreva uma frase sobre a maledicência  para depois colocar no mural.

 

Dinâmicas: Fofoca; Maledicência

Mensagens espíritas: Maledicência; Indulgência.

Sugestão de vídeos:

- História: Fofoca -Turminha da graça 2017 (Dica: pesquise no Youtube)

- Música infantil: Fofoca na floresta (Dica: pesquise no Youtube)

Sugestão de livro infantil:  O girassol que não acompanhava o sol. Etna Lacerda. Editora Boa Nova.

 

Leitura da Bíblia: Mateus - Capítulo 7


7.3 E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?


7.4 Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?


7.5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.


 

Tiago - Capítulo 4


4.11 Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz.


 

Efésios - Capítulo 4


4.29 Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem.


 

2 Timóteo -  Capítulo 2


2.16 Procura esquivar-te das conversas frívolas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade.


 

1 Coríntios - Capítulo 15


15.33 Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes.



 Tópicos a serem abordados:

-  A maledicência  é o ato que consiste em falar mal das pessoas. Maldizer significa destruir. A pessoa maledicente é maldosa. Se o coração do maledicente fosse puro, ele não teria nenhum prazer em discutir, pelo lado pior, os atos do seu irmão.  Ninguém ajuda condenando. Além disso, essa atividade desrespeita o dever primordial da caridade, e ainda demonstra que nosso tempo está sendo pessimamente empregado: afinal, ter tempo para falar mal dos outros significa ter tempo livre em excesso, que poderia ser empregado em atividades que edificassem o Bem (1).

- Espalhar notícias falsas ou verdadeiras sobre a vida alheia, costume popularmente conhecido por fofoca, para muitos é um divertimento sem importância.  No entanto, esta prática que parece inofenciva, quando seguida da maledicência, pode destruir a reputação de alguém em segundos. A palavra nos foi dada para o crescimento, não para a destruição. Devemos  utilizá-la para o bem. Se o que ouvimos, não serve para a melhoria dos outros, ou para instrução de alguém, para que passar adiante? (2) Sócrates dizia que toda e qualquer informação que nos chega deve passar criteriosamente pelos filtros da  VERDADE, BONDADE E UTILIDADE , para que possa posteriormente ser divulgada.

- Falar mal dos outros é atividade altamente prejudicial, que  deve ser combatida imediatamente ao constatarmos que ela faz parte de nosso cotidiano. Não importa se os outros são nossos  conhecidos ou não;   se estão   longe ou perto ; se agiram   correta ou incorretamente:   simplesmente   não devemos alimentar nossas conversações com assuntos que somente dizem respeito à vida alheia. Se não for o caso de prestar algum auxílio, para nada de útil tal conversação servirá   e ainda poderá ser fonte de muitos males (1).

  -Geralmente as condutas alheias que mais nos irritam são aquelas que não admitimos estar em nós mesmos. Se condenamos a hipocrisia alheia, talvez não estejamos sendo leais com nossas próprias vocações e ideais. Se criticamos o relacionamento amoroso dos outros, podemos estar vivendo enormes conflitos afetivos dentro do próprio lar. Tudo o que criticarmos no exterior, encontraremos em nossa intimidade. Isso nos leva a entender que o ambiente em que vivemos é, em verdade, um espelho onde nos vemos como realmente somos. Significa que devemos analisar melhor e estudar ainda mais a área correspondente ao nosso mundo íntimo, pois todos nós temos más tendências a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar.

- Jesus condenava a maledicência, e para nos advertir disse:" Por que vês o  argueiro   no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que tens no teu?  "Para nos ensinar, utilizou a imagem do argueiro e da trave como pontos principais de Sua pregação. O argueiro  é uma pequena partícula, um cisco, coisa sem importância, e, na alegoria , simboliza os defeitos que notamos na vida dos outros. Já a trave é uma grande viga de madeira usada   em   construções , que simboliza  os erros que cometemos e as imperfeições de nossa alma.   Somente quando reconhecermos nossas “traves”  ( isto é, perceber os vícios que limitam nossa marcha evolutiva ), é que poderemos ver com lucidez que, realmente, são elas as verdadeiras fontes de infelicidade, que nos distanciam da paz e da harmonia que tanto buscamos.

- Devemos ser indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; e não julgar com severidade senão as nossas próprias ações . A indulgência não vê os defeitos dos outros, ou , se os vê, evita falar deles, divulgá-los.  Jamais se ocupa com os maus atos dos outros, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos , que na maioria das vezes, são dados de forma oculta, em particular. A indulgência  é uma prática da santa caridade, que bem poucas pessoas observam.  O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver apenas superficialmente os defeitos dos outros e esforçar-se por fazer que prevaleça nele o que há de bom e virtuoso. 

-  Somente devemos revelar o defeito de alguém para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir (rebaixar ou caluniar). Pois, neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda  seja cumprido com todo o cuidado possível. Analisar para auxiliar, para corrigir, para educar, é valiosa contribuição para o progresso moral da humanidade. No entanto, a censura que alguém faça a outra pessoa deve ao mesmo tempo ser digirida a si próprio, procurando saber se não a terá merecido. Em outras palavras, antes de atribuir a alguém uma falta ou apontar algum erro, vejamos se a mesma censura não nos pode ser feita.

Comentário (1) : http://fraterluz.blogspot.com/2015/02/maledicencia-mal-ser-imediatamente.html. Data de consulta: 07-06-18.

Comentário ( 2): http://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=3651. Data de consulta: 07-06-18.

 

Perguntas para fixação:

1. O que é a maledicência?

2. O que é fofoca?

3. Por que o tempo usado para falar mal dos outros está sendo pessimamente empregado?

4. Por que não devemos falar mal da vida alheia?

5. Geralmente quais são as condutas alheias que mais nos irritam ?

6. Porque devemos analisar melhor e estudar ainda mais o nosso mundo íntimo ?

7. Qual é o significado de argueiro, na advertência dada por Jesus?

8. E qual é o significado da trave?

9. Quais são as características daquele que é indulgente?

10. Quando podemos revelar o defeito de outra pessoa?

11. Antes de apontar o defeito do outro o que devemos pensar?

 

Subsídio para o Evangelizador:

            Espinho cruel a ferir indistintamente é a palavra de quem acusa; cáustico e corrosivo é o verbo na boca de quem relaciona defeitos; veneno perigoso é a expressão condenatória a vibrar nos lábios de quem malsina; lama pútrida, trescalando fétido, é a vibração sonora no aparelho vocal de quem censura; borralho escuro ocultando a verdade, é a maledicência destrutiva.

            A maledicência é cultura de inutilidade em solo apodrecido. Maldizer significa destruir. (Lampadário Espírita. Joanna de Ângelis. Psicografado por Divaldo P. Franco )

           Segundo o Espírito Emmanuel, "Os afeiçoados à calúnia e à maledicência distribuem venenosos quinhões de trevas com que se improvisam grandes males e grandes crimes." (Vinha de luz. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier )

            Jesus condena a maledicência, a qual consiste em esmiuçar a vida alheia, apresentando-a aos olhos dos outros eivada de erros ou revelando sempre o mal. Enfim, ser maledicente é comentar as ações do próximo, procurando em todas as ocasiões descobrir e propalar o lado imperfeito dos atos de cada um.

            A maledicência é uma imperfeição da alma. A pessoa maledicente é maldosa. Se o coração do maledicente fosse puro, ele não teria nenhum prazer em discutir, pelo lado pior, os atos de um seu irmão. Dizendo Jesus que cada um será medido com a mesma medida de que tiver usado, é como se ele dissesse: — Uma vez que te comprazes em descobrir o mal cometido por teu irmão e depois discuti-lo e anunciá-lo, é porque em teu coração também existe a maldade. E da maldade que ainda trazes dentro de ti, terás de prestar contas ao Pai.

            As pessoas que falam mal de seus irmãos ou, como se diz vulgarmente, as pessoas que falam da vida alheia, chamam-se murmuradores. Jesus não quer que murmuremos contra a vida de nossos semelhantes, porque devemos notar que, às vezes, a pessoa que erra não compreende a extensão de seu erro. Cada um de nós age de acordo com sua inteligência e com o grau de adiantamento a que chegou e, principalmente, segundo o momento. Portanto, a inteligência, o grau de adiantamento espiritual e as circunstâncias em que se encontra, são os fatores que levam uma pessoa a agir. Mais tarde, ao se impor a análise do ato praticado, verificará que errou; e se tiver boa vontade, humildemente corrigirá o erro. E se formos maldizentes, agravaremos a situação penosa em que se encontra o irmão que errou, dificultando-lhe, por conseguinte, a reparação. (O Evangelho dos Humildes. Cap. 7. Eliseu Rigonatti )

            Segundo Chico Xavier, "Existem pessoas que se aproximam de nós com o  espírito da maledicência ; querem saber da nossa vida, não para nos auxiliar, mas para tornarem públicas as nossas feridas...   Devemos tomar cuidado com esses nossos irmãos que adquiriram uma estranha viciação: querem crescer às custas da indigência alheia... ( O Evangelho de Chico Xavier. Item 172. Carlos A. Bacceli / Chico Xavier)

            A atitude de quem denigre, publicamente, a imagem alheia é, no mínimo, descaridosa e, portanto, contrária ao espírito do Evangelho, que nos recomenda não fazer aos outros o que não queremos que nos seja feito". ( O Evangelho de Chico Xavier. Item 199. Carlos A. Bacceli / Chico Xavier)

            Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes de vermos o mal que está em nós. Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos, tanto morais, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente.

            Caridade orgulhosa é um contra-senso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria? Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 10. Allan Kardec )

            A tendência que certos indivíduos têm de atribuir falhas e erros a outras pessoas ou coisas, não enxergando e não admitindo como sendo suas, denomina-se projeção.

            Às vezes, tentamos fazer nossas emoções desaparecer, porque as tememos. Reconhecer o que realmente sentimos exigiria ação, mudança e decisão de nossa parte, e muitas vezes seríamos colocados face a face com verdades inadmissíveis e inconcebíveis por nós mesmos; e assim, tentamos projetá-las como sendo emoções não nossas, mas dos outros.

            ―Não sinta isso, é feio - essa é uma das muitas velhas mensagens que ecoam em nossa mente desde a mais tenra infância; com o passar do tempo, julgamos não mais senti-las, porque as escondemos da recriminação dos adultos.

            Em razão disso, certos indivíduos condenam com veemência os ―ciscos nos outros, pois vêem em tudo luxúria e perversão, desonestidade ou ambição. É possível que esses mesmos indivíduos estejam reprimindo o reconhecimento de que eles próprios trazem consigo emoções sexuais e perversidades mal resolvidas, ou, em outros casos, emoções desmedidas de fama e de dinheiro projetadas sobre todos os que são por eles denominados ambiciosos e desonestos.

            Na indagação ―ou como dizeis ao vosso irmão: deixai-me tirar um argueiro do vosso olho, vós que tendes uma trave no vosso?, Jesus reconhecia a universalidade desse processo psicológico, ―a projeção, e, como sempre, asseverava a necessidade da busca de si mesmo, para não transferirmos nossos traços de personalidade desconhecidos às coisas, às situações e aos outros.

            O Mestre nos inspirava ao mergulho em nossa própria intimidade, a fim de que pudéssemos enxergar o ―lado obscuro de nossa personalidade. Ao tomarmos esse contato imprescindível com nossas ―sombras, a consciência se torna mais lúcida, crítica e responsável, descortinando amplos e novos horizontes para o seu desenvolvimento e plenitude espiritual.

            (... ) Atentemos para a análise: ―as condutas alheias que mais nos irritam são aquelas que não admitimos estar em nós mesmos ―os outros nos servem de espelho, para que realmente possamos nos reconhecer. (Renovando atitudes. Cap. 32. O cisco e a trave. Espírito Hammed. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto )

            Tudo o que criticarmos, veementemente, no exterior encontraremos em nossa intimidade.

            Isso nos leva a entender que o ambiente em que vivemos é, em verdade, um espelho onde nos vemos exata e realmente como somos.

            Se, na exterioridade, algo de inoportuno estiver ocorrendo conosco ou chamando muito a nossa atenção, é justamente porque ainda não estamos em total harmonia na interioridade. Significa que devemos analisar melhor e estudar ainda mais a área correspondente ao nosso mundo íntimo.

            (...) Todas as maldades e eventos desagradáveis que visualizamos fora são somente mensageiros ou intermediários que tomam consciente a nossa parte inconsciente. Tudo o que, realmente, estamos vivenciando no presente é tudo aquilo que estamos precisando neste momento.

            Lemos a respeito de um assunto e logo atraímos criaturas que também se interessam pelo mesmo tema. Impressionamo-nos com um artigo de revista e, logo em seguida, sem nunca comentar esse fato com ninguém, aparecem pessoas nos presenteando com livros que abrangem essa matéria.

            Esse encadeamento de fatos ou “elos do acaso” tem sua razão de ser, pois se baseia na lei das atrações ou das afinidades. Portanto, todo conhecimento, informação, acontecimento ou aproximação de que verdadeiramente precisamos, por certo, vivenciaremos.

            “... Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo...”

            Nossas afirmações diante da vida retomarão sempre de maneira inequívoca. Carmas são estruturados não somente sobre nossos feitos e atitudes, mas também sobre nossas sentenças e juízos, críticas e opiniões.

            Os efeitos sonoros do eco são reflexões de ondas que incidem sobre um obstáculo e retomam ao ponto de origem. Analogamente, poderemos entender o mecanismo espiritual de funcionamento da lei de ação e reação em nossas existências. Atos ou palavras, repetidas sucessivamente, voltarão ecoando sobre nós mesmos; são “veredictos” resultantes de nossas apreciações e estimativas vivenciais.

            Todas as nossas suspeitas sistemáticas têm raízes na falta de confiança em nós mesmos, e não nos outros. Por isso:

            — se criticamos o comportamento sexual alheio, podemos estar vivendo enormes conflitos afetivos dentro do próprio lar.

            — se tememos a desconsideração, é possível termos desconsiderado alguma coisa muito significativa dentro de nossa intimidade;

            — se desconfiamos de que as pessoas querem nos controlar, provavelmente não estamos na posse do comando de nossa  vida interior;

            — se condenamos a hipocrisia dos outros, talvez não estejamos sendo leais com nossas próprias vocações e ideais;

            Projetar nossas mazelas e infortúnios sobre alguma coisa ou pessoa não resolve a nossa problemática existencial. Somente quando reconhecermos nossas “traves” — dispositivos interiores que limitam nossa marcha evolutiva — é que poderemos ver com lucidez que, realmente, são elas as verdadeiras fontes de infelicidade, que nos distanciam da paz e da harmonia que tanto buscamos. (As dores da alma. Crítica. Espírito Hammed. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto)

            Segundo o Espírito de Joanna de Ângelis, "Toda vez que o indivíduo, descredenciado legalmente, procede a um julgamento caracterizado pela impiedade e pela precipitação, realiza de forma inconsciente a projeção da sombra que nele jaz, desforçando-se do conflito e da imperfeição que lhe são inerentes, submetido como se encontra à sua crueza escravizadora em tentativa de libertar-se.

            A delicada questão do julgamento é dos mais complexos desafios que enfrenta a Psicologia Profunda, em razão dos inúmeros fatos que se encontram subjacentes no ato, quase sempre perverso, de medir a conduta de outrem com recursos nem sempre próprios de ética, justiça e dignidade.

            Analisá-lo, é devassar o inconsciente daquele que se atribui o direito de penetrar na problemática de outrem, embora ignore várias causas difíceis de ser identificadas, porque específicas, mantendo um comportamento, por sua vez, mais danoso, mais credor de correção e censura, do que aquele que no seu próximo pretende punir.

            Mediante mecanismo automático de liberação das cargas de culpa e medo retidas no inconsciente, o julgador escusa-se de desvelar as imperfeições morais que possui, facilmente identificando o mínimo reprochável noutrem, por encontrar-se atribulado por gravames iguais uns e outros muito mais perturbadores.

            Estudiosos modernos das propostas neotestamentárias, examinando o texto em epígrafe sob a óptica de uma teologia mais compatível com os avanços da Psicologia Profunda, situam-no entre aqueles que são denominados como os discursos da ira proferidos por Jesus, dentre os quais estão as lamentações a respeito de todos os que desconsideravam a Boa-nova, e foram chamados de ais... (Ai de vós, escribas e fariseus, etc.)

            Esses severos alertas traduzem as reações do Homem-Jesus tomado pela ira santa, aquela que reflete a Sua natureza humana, sem qualquer laivo, no entanto, de ressentimento ou ódio, de menosprezo ou desconsideração pelos indivíduos incursos nas Suas austeras palavras. Ressaltam, isto sim, a grandeza da Sua masculinidade enérgica, que não se detinha diante dos comprometimentos pusilânimes e sofistas, irônicos e perversos, a fim de despertar-lhes as consciências adormecidas, cindindo a sombra neles predominante por intermédio da austeridade e do chamamento ao dever, ao conhecimento de si mesmos e a reflexões em torno dos seus limites, de forma que se transformassem em terapia saudável, auxiliando-os em futuros comportamentos.

            Era também a maneira vigorosa para dissipar a sombra coletiva que pairava sobre todo o povo vitimado pela predominância do desconhecimento da sua realidade essencial.

            Não poucas vezes Jesus foi convidado a enfrentar esses tecelões da injúria e da desdita alheia, caracterizados pela sordidez da hipocrisia sem disfarce, na qual ocultavam os seus sentimentos reais, sempre prontos para acusar, desferindo golpes impiedosos contra todos aqueles que lhes estivessem sob a injunção da observação perversa.

            Hábeis na arte de dissimular as desditas interiores, especializavam-se em desvelar nos outros as torpezas morais que os infelicitavam e não tinham coragem de enfrentar.

            É sempre esse o mecanismo oculto que tipifica o acusador contumaz, o justiçador dos outros, o vigia dos deslizes das demais pessoas.

            Sentindo-se falidos interiormente por não poderem superar as atrações morbosas da personalidade enferma, revestem-se de puritanismo e de falsa sabedoria, facultando-se direitos que se atribuem, e tornando-se impiedosos perseguidores das criaturas sobre as quais projetam aquilo que detestam em si próprios.

            Os fariseus celebrizaram-se por essa capacidade sórdida, buscando equipar-se de conhecimentos na Torá e nos demais livros sagrados, como se todas as obras de libertação humana igualmente não merecessem o direito de ser também sagradas, para melhor se imiscuírem na observação dos atos que diziam respeito ao próximo, formalistas e ríspidos, não obstante interiormente como um sepulcro, todo podridão conforme acentuou Jesus em ocasião própria.

            Ainda permanece essa conduta soez em todos os segmentos da sociedade, particularmente nos grupamentos religiosos, nos quais aqueles que se sentem incapazes de crescer, por acomodação mental ou incapacidade moral, tornam-se agudos vigias dos irmãos que os ultrapassam e não merecem perdão, por estarem libertando-se da sombra que eles ainda nem sequer identificaram...

            Detalhistas e hábeis na faculdade de confundir, esmeram-se na apresentação externa a que dão excessivo valor, porque se sentem inferiores e pecaminosos, julgando com aspereza e rancor todos quantos os superam em quaisquer valores éticos, morais, espirituais, culturais, de abnegação e beleza.

            Jesus jamais os temeu por conhecer-lhes os abismos interiores, a insânia, a jactância.

            Justa, portanto, a Sua ira, que se apresentava com um caráter de corajosa decisão para não permitir a ingerência de tão perniciosos fiscais que se atribuíam o direito e o dever de perturbar Lhe o Ministério que inaugurara.

            Essa coragem, que não silenciava em nome da falsa humildade, a que esconde covardia ou omissão, provocava-lhes, como ainda hoje ocorre mais acendrado ódio, levando-os a acionarem armadilhas cada vez mais sutis ou afrontosas, concomitantemente arrebanhando sequazes que permaneciam a soldo da sua infâmia.

            Não se repetem, ainda hoje, as mesmas condutas ardilosas e infamantes?!

            O julgamento legal tem raízes nas conquistas da ética e do direito, do desenvolvimento cultural dos povos e dos homens, concedendo ao réu a oportunidade de defesa enquanto são tomadas providências hábeis para que sejam preservados os seus valores humanos, as suas conquistas de cidadão.

            Essa a diferença entre a conduta da civilização em relação à barbárie, do homem vencedor da sombra em confronto com o mergulhado nela.

            Examina-se a conduta infeliz de alguém que cometeu um delito, sem dúvida, mas não perdeu a qualidade de ser humano, requerendo dignidade e misericórdia, por mais hediondo haja sido o seu crime, a fim de não se lhe equipararem em rudeza e primitivismo os seus julgadores.

            O julgamento, porém, que, insensato, arbitrário e contumaz, decorre da inferioridade do opositor, que apenas vê a própria imagem projetada e odeia-a, sedento de destruição para libertar-se do pesado fardo, ferindo a outrem, é covarde e cruel.

            A análise do erro é sempre uma necessidade impostergável, quando não se faz realizada com perversas intenções de dominação do ego, totalmente divorciada da lei de amor e de caridade. Analisar para auxiliar, para corrigir, para educar, é valiosa contribuição para a construção do ser moral, psicológico e espiritual.

            Dessa forma, é inevitável que, toda vez quando se é defrontado pelas ocorrências do cotidiano, o próprio senso crítico e de discernimento proceda a julgamento, examine a atitude, a conduta alheia, não assumindo, porém, a postura de censor, de responsável pela sociedade que pensaria estar defendendo.             A sutileza se encontra na capacidade de não converter a apreciação e o exame de situação em condenação que exige castigo, mas solidariedade ou auto precaução para que não incida no mesmo equívoco.

            Graças a esse comportamento, manifesta-se a maturidade do ser humano, que ora sabe entender o correto em relação ao errado, a ação dignificante em confronto com a reprochável, a comparação entre o saudável e o patológico.

            Jesus, que sabia examinar sem julgar, muito menos punir, como consequência viveu sempre muito feliz.

            A Sua Doutrina é todo um poema de alegria, de libertação dos conflitos, de autoiluminação e de engrandecimento a Deus manifesto em todas as coisas, desde as simples sementes e grãos pequeninos, às aves dos Céus, às redes de pescar, aos lírios do campo, ao azeite, à lâmpada, à Mãe-natureza e ao Excelso Pai, a Quem ninguém nunca viu...

            Aquele Homem, especial pela própria grandeza e autoridade de que se fazia revestido, as quais Lhe foram concedidas pelo Pai, em todo momento exteriorizava bom humor e alegria, sem vulgaridade; severidade quando necessário, nunca, porém, hostilidade; fazia-se generoso incessantemente, jamais covarde; amigo incomum de todos, não conivente com as suas defecções.

            Sabia como desmascarar a hipocrisia e não trepidava em repreender os portadores da dissimulação mesquinha; possuidor, no entanto, do sentimento socorrista para com todos, tornava-se Psicoterapeuta incomparável.

            O farisaísmo permanece nos relacionamentos humanos, com as suas várias máscaras, ferindo ou tentando dificultar a marcha dos homens idealistas, daqueles que estão construindo a nova sociedade para o mundo melhor do futuro.

            A sombra em projeção torna-se julgamento que a sã conduta e a harmonia psicológica diluem na perfeita identificação dos valores do Self triunfando sobre os caprichos do ego.

            Diante dos julgamentos direcionados pelos sentimentos servis e dos julgadores sistemáticos, considere-se, pois, com cuidado a severa advertência do Homem de Nazaré:

            — Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão." (Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda. Cap. 12. Julgamentos. Espírito Joanna de Ângelis. Psicografado por Divaldo P. Franco)

            De acordo com Eliseu Rigonatti, "Cada um só pode prestar auxílio eficaz a um semelhante, na medida das forças que possui, as quais são sempre proporcionais ao grau de progresso que realizou em benefício de sua alma. Não podemos dar o que não temos; e muito menos exigir que os outros observem e pratiquem os ensinamentos que nós nos esquecemos de observar e de exemplificar. Para dar, precisamos possuir; para amparar, precisamos ser fortes; para corrigir precisamos ser perfeitos, pelo menos naquilo que desejamos corrigir nos outros. Por conseguinte, para darmos a luz espiritual a nossos irmãos, é mister que possuamos essa luz; para ampararmos espiritualmente irmãos enfraquecidos, devemos ser fortes espiritualmente; e para corrigirmos imperfeições nos outros, não podemos apresentar imperfeições em nossa alma. Eis que se quisermos auxiliar eficientemente nosso próximo, impõe-se que fortaleçamos nossa alma, adquirindo as qualidades espirituais que ainda não possuímos e limpando nossos corações de todas as impurezas. Então, sim, veremos claramente.

            O argueiro são os defeitos que notamos na vida dos outros, esquecidos de que temos uma trave a nos embaraçar o caminho da espiritualidade. Essa trave são os erros que cometemos e as imperfeições de nossa alma. Tirar a trave de nossos olhos é, portanto, corrigir nossos erros e extirpar nossas imperfeições. Depois de removida essa trave, poderemos ajudar nosso próximo a livrar-se do argueiro, isto é, de suas imperfeições e ensiná-lo a corrigir seus erros. Aliás, esse é o primeiro dever de todos os espíritos, quer encarnados, em qualquer plano do Universo em que se encontrem e, aqui na terra, quaisquer que sejam suas obrigações terrenas. "(O Evangelho dos Humildes. Cap. 7. Eliseu Rigonatti )

            Sede indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para com os outros.

            Sustentai os fortes: animai-os à perseverança. Fortalecei os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em conta o menor arrependimento; mostrai a todos o anjo da penitência estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos humanos e velando-as assim aos olhares daquele que não pode tolerar o que é impuro. Compreendei todos a misericórdia infinita de vosso Pai e não esqueçais nunca de lhe dizer, pelos pensamentos, mas, sobretudo, pelos atos: "Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido." Compreendei bem o valor destas sublimes palavras, nas quais não somente a letra é admirável, mas principalmente o ensino que ela veste.

            Que é o que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será unicamente o olvido das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada, porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos, do mal que se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao arrependimento a reparação.

            Quando perdoardes aos vossos irmãos, não vos contenteis com o estender o véu do esquecimento sobre suas faltas, porquanto, as mais das vezes, muito transparente é esse véu para os olhares vossos. Levai-lhes simultaneamente, com o perdão, o amor; fazei por eles o que pediríeis fizesse o vosso Pai celestial por vós. Substitui a cólera que conspurca, pelo amor que purifica. Pregai, exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus vos ensinou; pregai-a, como ele o fez durante todo o tempo em que esteve na Terra, visível aos olhos corporais e como ainda a prega incessantemente, desde que se tornou visível tão-somente aos olhos do Espírito. Segui esse modelo divino; caminhai em suas pegadas; elas vos conduzirão ao refúgio onde encontrareis o repouso após a luta. Como ele, carregai todos vós as vossas cruzes e subi penosamente, mas com coragem, o vosso calvário, em cujo cimo está a glorificação.(O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 17. João, bispo de Bordéus/ Allan Kardec )

            A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los.

            Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria, não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidenciam com pérfida intenção.

            A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que conseqüência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis mais do que o culpado. O homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos? Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros.             Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! tereis, quiçá, cometido faltas mais graves.

            Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita.  ( O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 16. José, Espírito protetor/ Allan Kardec )

            Caros amigos, sede severos convosco, indulgentes para as fraquezas dos outros. E esta uma prática da santa caridade, que bem poucas pessoas observam. Todos vós tendes maus pendores a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a alijar, para poderdes galgar o cume da montanha do progresso. Por que, então, haveis de mostrar-vos tão clarividentes com relação ao próximo e tão cegos com relação a vós mesmos? Quando deixareis de perceber, nos olhos de vossos irmãos, o pequenino argueiro que os incomoda, sem atentardes na trave que, nos vossos olhos, vos cega, fazendo-vos ir de queda em queda? Crede nos vossos irmãos, os Espíritos. Todo homem, bastante orgulhoso para se julgar superior, em virtude e mérito, aos seus irmãos encarnados, é insensato e culpado: Deus o castigará no dia da sua justiça. O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um apenas superficialmente os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso, porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual.

            Espiritismo! doutrina consoladora e bendita! felizes dos que te conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para esses, iluminado está o caminho, ao longo do qual podem ler estas palavras que lhes indicam o meio de chegarem ao termo da jornada: caridade prática, caridade do coração, caridade para com o próximo, como para si mesmo; numa palavra: caridade para com todos e amor a Deus acima de todas as coisas, porque o amor a Deus resume todos os deveres e porque impossível é amar realmente a Deus, sem praticar a caridade, da qual fez ele uma lei para todas as criaturas. -Dufêtre, bispo de Nevers.  ( O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 18. Bordéus /Allan Kardec )

            Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?

            Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confia da. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.  ( O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 19. S. Luís /Allan Kardec )

            Incorre em culpa o homem, por estudar os defeitos alheios?

            “Incorrerá em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque será faltar com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. Importa, porém, não esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante. Esse o meio de vos tornardes superiores a ele. Se lhe censurais a ser avaro, sede generosos; se o ser orgulhoso, sede humildes e modestos; se o ser áspero, sede brandos; se o proceder com pequenez, sede grandes em todas as vossas ações. Numa palavra, fazei por maneira que se não vos possam aplicar estas palavras de Jesus: Vê o argueiro no olho do seu vizinho e não vê a trave no seu próprio.” (O Livro dos Espíritos. Questão 903. Allan Kardec )

             Será repreensível notarem-se as imperfeições dos outros, quando daí nenhum proveito possa resultar para eles, uma vez que não sejam divulgadas?

            Tudo depende da intenção. Decerto, a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe. Fora mesmo inconveniente ver em toda a parte só o bem. Semelhante ilusão prejudicaria o progresso. O erro está no fazer-se que a observação redunde em detrimento do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível seria fazê-lo alguém apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, estendendo sobre o mal um véu, para que o público não o veja, aquele que note os defeitos do próximo o faça em seu proveito pessoal, isto é, para se exercitar em evitar o que reprova nos outros. Essa observação, em suma, não é proveitosa ao moralista? Como pintaria ele os defeitos humanos, se não estudasse os modelos?  ( O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 20. São Luís /Allan Kardec )

             Incorrerá em culpa aquele que sonda as chagas da sociedade e as expõe em público?

            “Depende do sentimento que o mova. Se o escritor apenas visa produzir escândalo, não faz mais do que proporcionar a si mesmo um gozo pessoal, apresentando quadros que constituem antes mau do que bom exemplo. O Espírito aprecia isso, mas pode vir a ser punido por essa espécie de prazer que encontra em revelar o mal.” (O Livro dos Espíritos. Questão 904. Allan Kardec )

            Sócrates, um filósofo grego, explicitou em um diálogo, com um amigo, como podemos lidar de maneira inteligente com a maledicência. Neste discurso ele explica que toda e qualquer informação que nos chega deve passar criteriosamente pelos filtros da  VERDADE, BONDADE E UTILIDADE , para que desta forma possa ser propagada. ( http://www.psiconlinews.com/2015/06/maledicencia-e-o-triplo-filtro-de-socrates.html)

            A história relata que "na Grécia antiga, o filósofo Sócrates gozava de uma alta reputação e admiração pelos seus conhecimentos. Um dia um conhecido encontrou o grande Mestre na rua, e disse-lhe: 
            Sócrates, sabe o que eu ouvi acerca de um amigo seu?
            Um momento, replicou Sócrates. Antes que me diga algo, quero ver se você supera uma pequena prova. Chamam-na a prova do Triplo Filtro.
            Triplo filtro?
            Isso mesmo, continuou Sócrates. Antes que me fale do meu amigo, é uma boa ideia parar um momento e filtrar o que me vai dizer.
            O primeiro filtro é a verdade. Você está absolutamente seguro de que o que me vai dizer é verdade?Não, disse o homem, realmente só o ouvi ...
            Muito bem, replicou Sócrates.  Então você não sabe realmente se é verdade ou não. Vejamos o segundo filtro, o filtro de Bondade.
            O que me vai dizer do meu amigo é algo bom?
            Não, pelo contrário...
            Então – prosseguiu Sócrates – vai dizer algo mal dele, mas não está seguro de que seja verdade. Ainda falta um filtro: o de utilidade. O que me vai dizer do meu amigo é útil para mim?
            Não, realmente não.
            Bem, concluiu Sócrates, se o que me vai dizer não é nem verdade, nem bom, nem se quer útil, quer dizer-me para quê?"   (http://nova-acropole.pt/a_triplo_filtro_socrates.html - Vide: Aulas da Vida. Irmão X .Os três crivos. Psicografado por Chico Xavier)

            Infelizmente, não aprendemos ainda a virtude do silêncio e, o que é pior, experimentamos um prazer imenso em falar desnecessáriamente e em demasia, descambando, muitas e muitas vezes, para a maledicência, sem sequer nos apercebermos disso.

            Basta que duas ou mais pessoas nos reunamos em conversação livre, para que, instantes depois, já estejamos a dizer mal dos outros.

            Administração, política, negócios, religião, festas sociais, parentela, etc, tudo serve para conduzir-nos aos falatórios inconsiderados em torno de nossos semelhantes, que, uma vez iniciados, podem prolongar-se por horas a fio, eis que nunca faltam “Judas” para serem malhados.

            Curioso: nenhum de nós se dá pressa em divulgar notícias sérias, sobre assuntos de relevante interesse para a Humanidade; mas com que sofreguidão disputamos a primazia de passar adiante fatos e boatos desagradáveis, deprimentos ou que possam provocar escândalo!

            Não raro, aquilo que nos chega aos ouvidos são meras conjeturas e suposições maldosas, às quais não deveríamos dar o menor crédito.                             Levianamente, porém, não só as transmitimos a outrem, emprestando-lhes foros de veracidade, como até as exageramos, acrescentando-lhes detalhes fantasiosos, para melhor convencer os que nos escutam.

            Quanto desamor ao próximo ressalta dessas atitudes!

            Ainda que nós mesmos tenhamos tido oportunidade de presenciar certas cenas ou episódios que nos pareçam comprometedores, manda a prudência nos abstenhamos de comentá-los, porque cada um de nós é levado a julgar as coisas que vê segundo as inclinações de seu próprio coração, e isso altera fundamentalmente o verdadeiro juízo delas.

            A maledicência provém do mau vezo que temos de intrometer-nos na vida alheia.

            Sem dúvida, ocasiões haverá em que, percebendo que uma pessoa esteja a proceder erroneamente, nos caiba o dever de, muito em particular e com delicadeza, procurar fazê-la convencer-se de tal; nunca, entretanto, alardear com terceiros fraquezas e deslizes que também estamos sujeitos a cometer. (Páginas de Espiritismo Cristão. Cap. 33. Rodolfo Calligaris)

            Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem?

            É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. ( O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Item 21. São Luís /Allan Kardec )

            Outro ponto importante que devemos considerar é o seguinte: os nossos verdadeiros amigos são aqueles que, sinceramente, nos apontam os nossos próprios erros e nos induzem a corrigi-los. Quando a misericórdia do Pai colocar em nossos caminhos um desses amigos verdadeiros, não consintamos que o amor próprio nos torne surdos às ponderações dele; mas oremos ardentemente para que a humildade nos abra os olvidos à voz desses amigos providenciais. ( O Evangelho dos Humildes. Cap. 7. Eliseu Rigonatti )

            E para finalizar, o Espírito François-Nicolas Madeleine faz o seguinte recomendação: "

            Um espirituoso corcunda da Antigüidade dizia que os homens de seu tempo carregavam um duplo alforje, em cujo compartimento traseiro estavam os próprios defeitos e imperfeições, enquanto o dianteiro recebia todos os defeitos alheios. É o que lembraria mais tarde o Evangelho, na alegoria da palha e da trave no olho. Oh! Deus! Oh! meus filhos! como seria bom se os sacos do alforje mudassem de lugar! Cabe aos espíritas sinceros operar esta modificação, levando à frente o saco que contém suas próprias imperfeições, a fim de que, olhando-as continuamente, consigam corrigir-se; e pôr de lado o que contém os defeitos alheios, de modo a não lhes ligar nem ciúme nem malícia. Ah! como será digno da doutrina que confessais e que deve regenerar a Humanidade ver seus adeptos sinceros e convictos agirem com essa caridade que proclamam e lhes ordena não mais verem a palha que incomoda o olho de seu irmão, mas, ao contrário, ocupar-se com ardor em se desembaraçar da trave que os cega. Ah! meus filhos, essa trave é formada pela reunião de vossas tendências egoístas, das vossas más inclinações e de vossas faltas acumuladas pelas quais tendes, até o presente, como todos os homens, professado uma tolerância paternal muito maior, enquanto que, na maior parte do tempo, só tivestes intolerância e severidade para com as fraquezas do próximo. Eu gostaria de vê-los de tal modo libertos dessa enfermidade moral do resto dos homens, ó meus caros espíritas, que vos exorto com todas as minhas forças a entrardes no caminho que vos indico. Bem sei que muitas de vossas tendências pecaminosas já se modificaram no sentido da verdade; mas ainda vejo tanta tibieza e tanta indecisão em vós para o bem absoluto, que a distância que vos separa do rebanho dos pecadores endurecidos e dos materialistas não é tão grande que a torrente não possa vos arrastar ainda. Ah! resta-vos uma rude etapa a percorrer para atingirdes a altura da santa e consoladora doutrina que os Espíritos meus irmãos já vos revelam há vários anos." (Revista Espírita. Abril de 1863. Sede severos convosco e indulgentes com os vossos irmãos. Allan Kardec )

 

Bibliografia:

- O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 10. Itens 10, 16, 17, 18, 19, 20, 21. Allan Kardec.

- O Livro dos Espíritos. Questão 903 e 904. Allan Kardec.

- Revista Espírita. Abril de 1863. Sede severos convosco e indulgentes com os vossos irmãos. Allan Kardec.

- Lampadário Espírita. Joanna de Ângelis. Psicografado por Divaldo P. Franco.

- Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda. Cap. 12. Julgamentos. Espírito Joanna de Ângelis. Psicografado por Divaldo P. Franco.

- Vinha de luz. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier .

- O Evangelho de Chico Xavier. Itens 172 e 199. Carlos A. Bacceli / Chico Xavier.

- Renovando atitudes. Cap. 32. O cisco e a trave. Espírito Hammed. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto.

-As dores da alma. Crítica. Espírito Hammed. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto.

- O Evangelho dos Humildes. Cap. 7. Eliseu Rigonatti.

- Páginas de Espiritismo Cristão. Cap. 33. Rodolfo Calligaris.

- Sites: - http://nova-acropole.pt/a_triplo_filtro_socrates.html

 - http://www.psiconlinews.com/2015/06/maledicencia-e-o-triplo-filtro-de-socrates.html Data de consulta: 11-06-18