Aula 41 - Amar os inimigos

Ciclo 1 - História:  O peixinho bola branca  -  Atividade: Prato de papel - Peixe ou  PH - Paulo de Tarso - 4 - Amar os inimigos.

Ciclo 2 - História:  Pagar o mal com o bem -  Atividade: ESE - Cap. 12 - 1 - Retribuir o mal com o bem.   

Ciclo 3 - História:  A sua natureza de ser -  AtividadeESE - Cap. 12 - 2 - Os inimigos desencarnados.   

 

Dinâmica: Pagar o mal com o bem.

Mensagens Espíritas: Inimigos.

Sugestão de livro infantil: - O Leão e o Camundongo. La Fontaine. Editora TodoLivro. 

 

Leitura da Bíblia: Provérbios – Capítulo 24 e 25 (Romanos 12:20)


24.17   Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem quando tropeçar se regozije o teu coração;


24.18   para que o SENHOR isso não veja, e seja mau aos seus olhos, e desvie dele a sua ira.


25.21   Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber,


25.22   porque assim amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça, e o SENHOR te retribuirá.


 

Mateus – Capítulo 5


5.43   Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.


5.44   Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;


5.45   para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.


5.46   Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?


5.47   E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?


 

Lucas – Capítulo 6


6.32   Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam.


6.33   Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores fazem isso.


6.34   E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, qual é a vossa recompensa? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto.


6.35   Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus.


6.36   Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai.


 

Tópicos a serem abordados:

- Jesus disse: ‘‘Ame o seu próximo como a si mesmo’’, ou seja, devemos amar a todos, tanto os amigos quanto os inimigos (aqueles que nos ofendem ou nos humilham). Amar o próximo é praticar a caridade, amar aos inimigos é a sua aplicação sublime, porque essa virtude constitui uma das maiores vitórias conquistadas sobre o egoísmo e o orgulho.

- Amar quem nos ama é fácil, mas amar a quem nos prejudica é mais difícil. Quando Jesus disse: ‘‘Ame os seus inimigos’’, não quis dizer que devemos amar o inimigo com o mesmo carinho que temos por um irmão ou um amigo. Ora, não se pode ter confiança naquele que se sabe que nos quer mal. Não se pode ter para com ele atitudes de amizade, desde que se sabe que é capaz de abusar delas.

- Amar os inimigos é não ter ódio, nem rancor, ou desejo de vingança. É perdoá-los sem segunda intenção e incondicionalmente, pelo mal que nos fizeram. É não colocar obstáculo a reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É estender-lhes a mão prestativa em caso de necessidade. É evitar prejudicá-los por palavras e atitudes. Em resumo, é retribuir o mal com o bem.

- Quando o Senhor nos aconselhou amar os inimigos, não exigiu aplausos ao que rouba ou destrói. É compreender, acima de tudo, que as faltas daqueles que não se afinam conosco poderiam ter sido nossas e imaginar como seríamos felizes se tivéssemos, porventura, os nossos erros desculpados e esquecidos, por aqueles aos quais tenhamos ofendido.

- O espírita tem ainda outros motivos de indulgência para com os inimigos. Porque sabe, antes de mais nada, que a maldade não é o estado permanente do homem, mas que decorre de uma imperfeição momentânea, e que o homem mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom. Não há coração tão perverso que não se deixe tocar pelas boas ações mesmo a contragosto. Com boas atitudes pode-se fazer, de um inimigo, um amigo antes e depois da morte. Com a má atitude ele se irrita, e é então que serve de instrumento à justiça de Deus para punir aquele que não perdoou.

- Após a morte, aqueles que nos fizeram mal podem reconhecer a sua injustiça e o mal que fizeram ou podem permanecer com o ódio que cultivaram. Por isso é importante, perdoá-los e orar por eles, e ao se lhes retribuir o mal com o bem acabarão por compreender os seus erros.  

-  Jesus deu o maior exemplo de amor. Ele amou até aqueles que o abandonaram, perseguiram e o crucificaram. Ele disse: ‘‘Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem’’. Os seus perseguidores são apenas crianças de curto entendimento e doentes da alma, que é preciso compreender e ajudar, perdoar e servir sempre.

- Dizemos como muita freqüência que os piores inimigos são os exteriores. Mas nos esquecemos de olhar para dentro de nós e ver que os adversários mais difíceis são aqueles que estão na nossa própria alma (1): o orgulho, a vaidade, o desânimo, a indisciplina, a mentira, o egoísmo, etc. É este o mal que devemos aprender a combater em nós.

Comentário (1): Alma e Coração. Inimigos ocultos. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier. 

 

Perguntas para fixação:

1.  Quando Jesus disse: ''Ame os vossos inimigos'', isto significa que devemos ter o mesmo carinho que temos pelo nosso amigo?

2. Como devemos amar os inimigos?

3. É possível um inimigo se tornar um amigo?

4. O que podemos fazer por um inimigo desencarnado para que compreenda seu erro?

5. Quem nos deu o maior exemplo de amor aos inimigos? 

6. Para quem Jesus disse esta frase: '' Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem''? 

7. Quais são os inimigos mais difíceis?

 

Subsídio para o Evangelizador:

            Se o amor do próximo é o princípio da caridade, amar aos inimigos é a sua aplicação sublime, porque essa virtude constitui uma das maiores vitórias conquistadas sobre o egoísmo e o orgulho.

            Não obstante, geralmente nos equivocamos quanto ao sentido da palavra amor, aplicada a esta circunstância. Jesus não entendia, ao dizer essas palavras, que se deve ter pelo inimigo a mesma ternura que se tem por um irmão ou por um amigo. A ternura pressupõe confiança. Ora, não se pode ter confiança naquele que se sabe que nos quer mal. Não se pode ter para com ele as efusões da amizade, desde que se sabe que é capaz de abusar delas. Entre pessoas que desconfiam uma das outras, não pode haver os impulsos de simpatia existentes entre aquelas que comungam nos mesmos pensamentos. Não se pode, enfim, ter a mesma satisfação ao encontrar inimigo, que se tem com um amigo.

            Esse sentimento, por outro lado, resulta de uma lei física: assimilação e repulsão dos fluidos. O pensamento malévolo emite uma corrente fluídica que causa penosa impressão; o pensamento benévolo envolve-nos num eflúvio agradável. Daí a diferença de sensações que se experimenta, à aproximação de um inimigo ou de amigo. Amar aos inimigos não pode, pois, significar que não se deve fazer nenhuma diferença entre eles e os amigos. Este preceito parece difícil, e até mesmo impossível de se praticar, porque falsamente supomos que ele prescreve darmos a uns e a outros o mesmo lugar no coração. Se a pobreza das línguas humanas nos obriga a usar a mesma palavra, para exprimir formas diversas de sentimento, a razão deve fazer as diferenças necessárias, segundo os casos.

            Amar aos inimigos, não é, pois, ter por eles uma afeição que é natural, uma vez que o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira inteiramente diversa que o de um amigo. Mas é não ter ódio, nem rancor, ou desejo de vingança. É perdoá-los sem segunda intenção e incondicionalmente, pelo mal que nos fizeram. É opor nenhum obstáculo à reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É alegrar-nos em lugar de aborrecer-nos com o bem que os atinge. É estender-lhes a mão prestativa em caso de necessidade. É abster-nos, por atos e palavras, de tudo o que possa prejudicá-lo enfim, pagar-lhes em tudo o mal com o bem, sem a intenção humilhá-los. Todo aquele que assim fizer, cumpre as condições do mandamento: Amai aos vossos inimigos. (Vide: O Livro dos Espíritos. Questão 887. Allan Kardec).

             Amar aos inimigos é um absurdo para os incrédulos. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê no seu inimigo uma criatura perniciosa, a perturbar-lhe o sossego, e do qual somente a morte o pode libertar. Daí o desejo de vingança. Não há nenhum interesse em perdoar, a menos que seja para satisfazer o seu orgulho aos olhos do mundo. Perdoar, até mesmo lhe parece, em certos casos, uma fraqueza indigna da sua personalidade. Se não se vinga, pois, nem por isso deixa de guardar rancor e um secreto desejo de fazer o mal.

            Para o crente, e mais ainda para o espírita, a maneira de ver é inteiramente diversa, porque ele dirige o seu olhar para o passado e o futuro, entre os quais, a vida presente é um momento apenas. Sabe que, pela própria destinação da Terra, nela devem encontrar homens maus e perversos; que as maldades a que está exposto fazem parte das provas que deve sofrer. O ponto de vista em que se coloca torna-lhe as vicissitudes menos amargas, quer venham dos homens ou das coisas. Se não se queixa das provas, não deve queixar-se também dos que lhe servem de instrumentos. Se, em lugar de lamentar, agradece a Deus por experimentá-lo, deve também agradecer a mão que lhe oferece a ocasião de mostrara sua paciência e a sua resignação. Esse pensamento o dispõe naturalmente ao perdão. Ele sente, aliás, que quanto mais generoso for, mais se engrandece aos próprios olhos e mais longe se encontra do alcance dos dardos do seu inimigo.

            O homem que ocupa no mundo uma posição elevada não se considera ofendido pelos insultos daquele que olha como seu inferior. Assim acontece com aquele que se eleva, no mundo moral, acima da humanidade material. Compreende que o ódio e o rancor o envileceriam e rebaixariam, pois, para ser superior ao seu adversário, deve ter a alma mais nobre, maior e mais generosa. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 12. Itens 3 e 4. Allan Kardec).

            Um homem está em perigo de morte. Para salvá-lo, deve expor a própria vida. Mas sabe-se que é um malvado, e que, se escapar, poderá cometer novos crimes. Deve-se, apesar disso, arriscar-se para o salvar?

Esta é uma questão bastante grave, e que pode naturalmente apresentar-se ao espírito. Responderei segundo o meu adiantamento moral, desde que se trata de saber se devemos expor a vida, mesmo por um malfeitor. A abnegação é cega. Socorre-se a um inimigo; deve-se socorrer também a um inimigo da sociedade, numa palavra, a um malfeitor. Credes que é somente à morte que se vai arrebatar esse desgraçado? É talvez a toda a sua vida passada. Porque, - pensai nisso, - nesses rápidos instantes que lhe arrebatam os últimos momentos da vida, o homem perdido se volta para a sua vida passada, ou melhor, ela se ergue diante dele. A morte, talvez, chegue muito cedo para ele. A reencarnação poderá ser terrível. Lançai-vos, pois, homens! Vós, que a ciência espírita esclareceu, lançai-vos, arrancai-o ao perigo! E então, esse homem, que teria morrido injuriando-vos, talvez se atire nos vossos braços. Entretanto, não deveis perguntar se lê o fará ou não, mas correr em seu socorro, pois, salvando-o, obedeceis a essa voz do coração que vos diz: "Podeis salvá-lo: salvai-o". (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 11. Item 15. Lamennais, Paris, 1862. Allan Kardec).

            O rancor dos seres que nos fizeram mal na Terra extingue-se com a sua vida corpórea?

 Muitas vezes reconhecem sua injustiça e o mal que fizeram, mas muitas vezes também vos perseguem com o seu ódio, se Deus o permite, para continuar a vos experimentar. (O Livro dos Espíritos. Questão 531. Allan Kardec).

            Se uma criatura desencarna deixando inimigos na Terra; é possível que continue perseguindo o seu desafeto, dentro da situação de invisibilidade?

            Isso é possível e quase geral, no capítulo das relações terrestres, porque, se o amor é o laço que reúne as almas nas alegrias da liberdade, o ódio e a algema dos forçados, que os prende reciprocamente no cárcere da desventura. Se alguém partiu odiando, e se no mundo o desafeto faz questão de cultivar os germens da antipatia e das lembranças cruéis, é mais que natural que, no plano invisível, perseverem os elementos da aversão e da vindita implacáveis, em obediência às leis de reciprocidade, depreendendo-se daí a necessidade do perdão com o inteiro esquecimento do mal, a fim de que a fraternidade pura se manifeste através da oração e da vigilância, convertendo o ódio em amor e piedade, com os exemplos mais santos, no Evangelho de Jesus. (O Consolador. Questão 158. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier).

            Pode-se pôr termo a isso, e por que meio?

         Sim, pode-se orar por eles, e ao se lhes retribuir o mal com o bem acabarão por compreender os seus erros. De resto, se souberdes colocar-vos acima de suas maquinações, cessarão de fazê-las ao verem que nada lucram. (O Livro dos Espíritos. Questão 531-a. Allan Kardec).

            O espírita tem ainda outros motivos de indulgência para com os inimigos. Porque sabe, antes de mais nada, que a maldade não é o estado permanente do homem, mas que decorre de uma imperfeição momentânea, e que da mesma maneira que a criança se corrige idos seus defeitos, o homem mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom.

            Sabe ainda que a morte só pode livrá-lo da presença material do seu inimigo, e que este pode persegui-lo com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra. Assim, a vingança assassina não atinge o seu objetivo, mas, pelo contrário, tem por efeito produzir maior irritação, que pode prosseguir de uma existência para outra. Cabia ao Espiritismo provar, pela experiência e pela lei que rege as relações do mundo visível com o mundo invisível, que a expressão: extinguir o ódio com o sangue é radicalmente falso, pois a verdade é que o sangue conserva o ódio no além-túmulo. Ele dá, por conseguinte, uma razão de ser efetiva e uma utilidade prática ao perdão bem como à máxima de Cristo: Amai aos vossos inimigos. Não há coração tão perverso que não se deixe tocar pelas boas ações mesmo a contragosto. O bom procedimento não dá pelo menos nenhum pretexto a represálias, e com ele se pode fazer, de um inimigo, um amigo antes e depois da morte. Com o mau procedimento ele se irrita, e é então que serve de instrumento à justiça de Deus para punir aquele que não perdoou. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 12. Item 5. Allan Kardec).

            Pode-se, pois, ter inimigos entre os encarnados e os desencarnados. Os inimigos do mundo invisível manifestam sua malevolência pelas obsessões (1) e subjugações, a que tantas pessoas estão expostas, e que representam uma variedade das provas da vida. Essas provas, como as demais, contribuem para o desenvolvimento e devem ser aceitas com resignação, como uma conseqüência da natureza inferior do globo terrestre: se não existissem homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao redor da Terra. Se devemos portanto, ter indulgência e benevolência para os inimigos encarnados igualmente as devemos ter para os que estão desencarnados. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 12. Item 6. Allan Kardec).

            No caso das perseguições dos inimigos espirituais, a ação deles se realiza sem o conhecimento dos nossos guias amorosos e esclarecidos?

            As chamadas atuações do plano invisível, de qualquer natureza, não se verificam à revelia de Jesus e de seus prepostos, mentores do homem na sua jornada de experiências para o conhecimento e para a luz.

            As perseguições de um inimigo invisível têm um limite e não afetam o seu objeto senão na pauta de sua necessidade própria, porquanto, sob os olhos amoráveis dos vossos guias do plano superior, todos esses movimentos têm uma finalidade sagrada, como a de ensinar-vos a fortaleza moral, a tolerância, a paciência, a conformação, nos mais sagrados imperativos da fraternidade e do bem. (O Consolador. Questão 159. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier).

            No livro ‘’ Libertação ‘’, ditado pelo Espírito André Luiz, relata um caso de obsessão, em que dois dos perseguidores (Saldanha e Leôncio) desistiram da ação magnética maléfica,  que provocavam em uma senhora encarnada (Margarida), e se converteram ao bem, devido a ajuda que receberam aos seus parentes, por um benfeitor espiritual (Gúbio):  

     Penetrando o compartimento em que Margarida descansava, lá nos aguardavam os dois hipnotiza­dores em função ativa.

     Gúbio pousou significativo olhar em Saldanha e pediu-lhe em tom discreto:

        — Meu amigo, chegou a minha vez de rogar. Releva-me a identificação, talvez tardia aos teus olhos, com relação aos objetivos que nos pren­dem aqui.

            E  denunciando imensa comoção na voz, es­clareceu:

            — Saldanha, esta senhora doente é filha de meu coração desde outras eras. Sinto por ela o enternecimento com que cuidaste, até agora, do teu Jorge, defendendo-o com as forças de que dispões. Eu sei que a luta te impôs acerbos espinhos ao coração, mas também guardo sentimentos de pai. Não te merecerei, porventura, simpatia e ajuda? Somos irmãos no devotamento aos filhos, compa­nheiros da mesma luta.

            Observei, então, cena comovedora que, minutos antes, se me figuraria inacreditável.

            O  perseguidor da enferma contemplou o nosso Instrutor com o olhar dum filho arrependido.

            Gros­sas lágrimas brotaram-lhe dos olhos antes frios e impassíveis. Parecia inabilitado a responder, diante da emotividade que lhe dominava a garganta; toda­via, Gúbio, enlaçando-lhe fraternalmente o busto, acrescentou:

            — Passamos horas sublimes de trabalho, en­tendimento e perdão. Não desejarás desculpar os que te feriram, libertando, enfim, quem me é tão querida ao espírito? Chega sempre um instante no mundo em que nos entediamos dos próprios erros. Nossa alma se banha na fonte lustral do pranto renovador e esquecemos todo o mal a fim de valori­zar todo o bem. Noutro tempo, persegui e humilhei, por minha vez. Não acreditava em boas obras que não nascessem de minhas mãos.

            Supunha-me do­minador e invencível, quando não passava de infeliz e insensato. Considerava inimigos quantos me não compreendessem os caprichos perigosos e me não louvassem a insânia.

            Experimentava diabólico pra­zer, quando o adversário esmolasse piedade ao meu orgulho, e gostava de praticar a generosidade humi­lhante daquele que determina sem concorrentes. Mas a vida, que faz caminhos na própria pedra, usando a gota d’água, retalhou-me o coração com o estilete dos minutos, transformando-me devagar, e o déspota morreu dentro de mim, O título de irmão é, hoje, o único de que efetivamente me orgulho. Dize-me, Saldanha amigo, se o ódio está igualmente morto em teu espírito; fala-me se devo contar com o abençoado concurso de tuas mãos!

            Eu e Elói tínhamos lágrimas ardentes, diante daquela doutrinação emocionante e inesperada.

            Saldanha enxugou os olhos, fixou-os, humil­de, no interlocutor bondoso e asseverou, comovendo-nos:

            — Ninguém me falou ainda como tu... Tuas palavras são consagradas por uma força divina que eu não conheço, porque chegam aos meus ouvidos, quando já me encontro confundido pelos teus atos convincentes. Faze de mim o que desejares. Ado­taste, nesta noite, por filhos de teu coração todos os parentes em cuja memória ainda vivo. Ampa­raste-me o filho demente, ajudaste-me a esposa alu­cinada, protegeste-me a nora infeliz, socorreste-me a neta indefesa e repreendeste os que me perturbavam ­ sem motivo justo... Como não enlaçar, agora, as minhas mãos com as tuas na salvação da pobre mulher que amas por filha? Ainda que ela própria me houvesse apunhalado mil vezes, teu pedido, após o bem que me fizeste, redimi-la-ia ao meu olhar...

            E, detendo a custo o pranto que lhe manava espontâneo, o ex-perseguidor acentuou, com expres­são respeitosa:

            — Poderoso Espírito e bom amigo, que me pro­curaste na condição do servo apagado para acor­dar-me as forças enrijecidas no gelo da vingança, estou pronto a servir-te! sou teu de agora em diante!

            — Seremos de Jesus para sempre! — corrigiu Gúbio, sem afetação.

            E abraçando-o efusivamente, conduziu-o a pe­queno aposento próximo, naturalmente para orga­nizar plano de ação eficiente e rápido.

            Sômente aí me lembrei de que nos achávamos na presença de ambos os hipnotizadores em função ativa, junto ao casal em repouso. Um deles se reve­lava inquieto e demonstrava-se francamente com­preensivo; notava que algo de extraordinário se passava, mas, talvez compelido por votos de dis­ciplina, não se animava a dirigir-nos palavra. O outro, todavia, não acusava qualquer emoção. Con­tinuava alheio ao drama que vivíamos. Figurava-se um autômato em serviço, impressionando-me parti­cularmente pela impassibilidade do olhar.

            Alguns minutos transcorreram pesados, quan­do Gúbio e Saldanha retornaram à cena.

            O ex-obsessor de Margarida mostrava-se mu­dado, quase imponente. Via-se-lhe no porte a reno­vação de rumo interior.

            Certo, estabelecera novo programa de luta, em companhia do nosso dirigente, porque chamou o hipnotizador mais vivo, a conversação particular.

            Próximos de mim, a palestra desdobrou-se clara.

            — Leôncio — disse Saldanha, entusiasmado —, nosso projeto mudou e conto com a tua colabo­ração.

            — Que houve? — indagou curiosamente o in­terpelado.

            — Um grande acontecimento.

            E prosseguiu, transformado:

            — Temos aqui um mago da luz divina.

            Em traços rápidos, narrou-lhe os sucessos da noite, em comovedora síntese, terminando por apelar:

            — Poderemos contar contigo?

            — Perfeitamente — esclareceu o companhei­ro —, sou amigo dos amigos, não obstante os riscos da empresa. (Libertação. Cap. 14. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier).

             Antigamente, ofereciam-se sacrifícios sangrentos para apaziguar os deuses infernais, que nada mais eram do que os Espíritos maus. Aos deuses infernais sucederam os demônios, que são a mesma coisa. O Espiritismo vem provar que esses demônios não são mais que as almas de homens perversos, que ainda não despojaram dos seus instintos materiais; que não se pode apaziguá-los senão pelo sacrifício dos maus sentimentos, ou seja, pela caridade; e que a caridade não tem apenas o efeito de impedi-los de fazer o mal, mas também de induzi-los ao caminho do bem e contribuir para a sua salvação. É assim que a máxima: Amai aos vossos inimigos, não fica circunscrita ao círculo estreito da Terra e da vida presente, mas integra-se na grande lei da solidariedade e da fraternidade universais. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 12. Item 6. Allan Kardec).

            Se tiveres amor saberás, assim, cultivar o bem, a cada instante, para vencer o mal a cada hora…

 E perceberás, então, como o Cristo fustigado na cruz, que os teus mais acirrados perseguidores são apenas crianças de curto entendimento e de sensibilidade enfermiça, que é preciso compreender e ajudar, perdoar e servir sempre, para que a glória do amor puro, ainda mesmo nos suplícios da morte, nos erga o espírito imperecível à bênção da vida eterna. (Religião dos Espíritos. Cap. 1.Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier).

            Jesus disse: ‘‘Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem’’. (Lucas 23:34).

            Amemos aos inimigos externos que nos desafiam à prática do bem, ao exercício da renúncia, ao trabalho da paciência e à realização da caridade, mas tenhamos cautela contra os sicários (inimigos) escondidos em nós mesmos que, expressando sentimentos indignos de nosso conhecimento e de nossa evolução, nos escravizam à angustia, e nos algemam à dor, enclausurando-nos a vida em miséria e perturbação. (Através do Tempo. Inimigos que não devemos acalentar. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier).

           

 Comentário (1): A obsessão é a ação persistente de um mau Espírito sobre uma pessoa. Apresenta características muito diversas, desde a simples influência de ordem moral, sem sinais exteriores perceptíveis até a completa perturbação do organismo e das faculdades mental. (...) Assim como as doenças são o resultado das imperfeições físicas, que tornam o corpo acessível às influências perniciosas do e interior, a obsessão é sempre o resultado de uma imperfeição moral que dá acesso a um mau Espírito. (...) A obsessão é quase sempre a ação vingativa de um Espírito, e na maioria das vezes tem sua origem nas relações do obsedado com o obsessor, em existência anterior. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 28. Item 81. Allan Kardec).

 

Bibliografia:

- O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 11, item 15. Cap. 12, itens 3 , 4 , 5 e 6. Cap. 28, item 81. Allan Kardec.

- O Livro dos Espíritos. Questões: 531, 531-a, 887. Allan Kardec.

- Libertação. Cap. 14. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier.

- O Consolador. Questões 158 e 159. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier.

- Religião dos Espíritos. Cap. 1.Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier.

- Através do Tempo. Inimigos que não devemos acalentar. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier

- Bíblia: Lucas 23:34.