Aula 121 - Parábola do Juíz iníquo - Justiça Divina *

Ciclo 2 - História: A parábola da viúva importuna  - Atividade: PH - Jesus - 83 - Parábola do Juíz iníquo ou/e LE - L3 - Cap.11- 1. Justiça e direito.

Ciclo 3 - História: A sentença cristã  - Atividade:  PH - Jesus - 84. Justiça Divina.

 

Dinâmicas: Justiça; Justiça Divina X Justiça terrena.

Mensagens espíritas: Justiça; Direito.

Sugestão de vídeo: - Evangelho encenado - A viúva e o juiz  (Dica: Pesquise no Youtube)

 

Leitura da Bíblia: Lucas - Capítulo 18:1-8


18.1 E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer,


18.2 Dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem.


18.3 Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.


18.4 E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens,


18.5 Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito.


18.6 E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.


18.7 E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?


 18.8 Digo-vos que depressa lhes fará justiça...



Mateus- Capítulo 7


7.12 Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.



Tópicos a serem abordados:

- De acordo com os Espíritos,  "A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais" . O direito é tudo aquilo que é garantido ao indivíduo por razão da lei  (por exemplo: toda criança tem o direito de frequentar a escola).  O sentimento da justiça está na Natureza, por isso que muitas vezes nos revoltamos com uma simples injustiça, seja com as criaturas humanas ou com  os animais. O progresso moral desenvolve o sentimento de justiça, entretanto não o dá.   Deus é que coloca no coração do homem  a regra da verdadeira justiça, por isso,  não há guia mais seguro que  a nossa própria consciência, que aprova ou censura a natureza  dos nossos atos.

- Quando J esus disse: "Faça aos outros o que você  gostaria que eles fizessem a você",  quis nos mostrar a base da verdadeira justiça. O verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, respeita os direitos alheios, da mesma maneira que queremos que os nossos sejam respeitados e coloca em prática a lei de amor e caridade , que é um complemento da lei de justiça (1).  Se aplicássemos as lições do Cristo em nossas relações sociais, em toda e qualquer circunstância, jamais erraríamos. Ninguém deseja para si senão o que é agradável, bom e útil; assim, se cada qual procedesse com seus irmãos de conformidade com  esta regra, é evidente que só lhes faria o bem, resultando daí a extinção do egoísmo, que é a causa primária de quase todas as brigas e conflitos que infelicitam a Humanidade.

-  Na parábola do Juíz iníquo , Jesus nos mostra que devemos confiar na Justiça Divina, na certeza de que, conforme o ditado popular, ela “tarda, mas não falha”. Deus é justo e bom, e no momento oportuno , Ele recompensa os justos e pune os culpados. A Justiça Divina é infalível. Não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete conseqüências . Enquanto a Justiça dos homens não consegue punir todas as faltas, ninguém consegue escapar da Justiça Divina, mesmo porque a nossa consciência, em acordando para a santidade da vida, deseja  resgatar dignamente todos os débitos (através da reparação e expiação )  perante a Bondade de Deus.

- Se a justiça, embora demorada, se faz na Terra até contra a vontade dos juizes, como não há de ser feita pelo Supremo e Justo Juiz do Céu? Se o juíz maldoso,  insensível aos direitos do próximo , fez justiça à pobre mulher, muito mais Deus ,que é a perfeição absoluta, fará justiça àqueles que merecerem.   Tudo que você suplicar a Deus, se seu pedido for justo e digno (como o pedido da viúva), pode ter a certeza de que Nosso Pai celestial o atenderá.  Deus não desampara a nenhum de Seus filhos. Se, às vezes, parece não ouvir as nossas súplicas, permitindo que permaneça  nossos sofrimentos, é porque Ele sabe que a dor  é o melhor instrumento para a lapidação de nossas almas (ou seja, para a nossa reforma íntima) . As nossas provas estão nas mãos de Deus e algumas terão que ser suportadas até ao fim; mas, Deus sempre leva em conta a resignação. E através da prece traz para junto de nós os bons Espíritos, que nos dão força e coragem para suportá-las .

-  Os homens chegarão a uma época em que, para julgamento de seus atos, em face dos preceitos evangélicos, haverá um só tribunal — o da própria consciência, onde estão registradas as leis de Deus. Não haverá mais juízes iníquos (injustos),  pois os homens viverão de acordo com as leis estipuladas pelo  Nosso Juiz  Supremo, que é  Nosso Pai de misericórdia infinita. 

Comentário  (1): LE. Questão 886. A.K.

 

Perguntas para fixação:

1. Como se pode definir a justiça?

2. Onde Deus colocou a regra da verdadeira justiça? 

3. O que Jesus quis ensinar quando disse: "Faça aos outros o que você gostaria que eles fizessem a você"?

4. Quais são as características de um juiz iníquo?

5. O que a pobre viúva pediu para o juiz iníquo?

6. Por que a justiça dos homens não consegue punir todos os crimes?

7. Por que podemos dizer que a justiça divina é infalível ?

8. O que podemos pedir para Deus em nossas preces?

9. Por que devemos orar, sem jamais desanimar?

10. Nos mundos felizes qual será o tribunal que julgará nossos atos?

 

Subsídio para o Evangelizador:

            A iniqüidade é a falta de eqüidade, é a justiça revoltante. O iníquo é o homem perverso,  criminoso, seja ele juiz, doutor, nobre, rico, pobre, rei.

            Na esfera moral, mesmo aqui na Terra, não se distinguem os homens pelo dinheiro e pelos  títulos que possuem, mas, sim, pelo seu caráter. O iníquo não tem caráter, ou, por outra, tem caráter iníquo, pervertido. Mas ainda esse, quando tem de resolver alguma questão e o solicitante resolve bater à sua porta até que dê provimento ao seu pedido, para não ser incomodado, e porque é iníquo, resolve, com presteza, o problema, não para servir, mas para ficar livre de continuar molestado.

            Foi o que sucedeu com o juiz iníquo ante a insistência da viúva. De modo que a demora do despacho na petição da viúva foi causada pela iniqüidade do juiz.  Se este, fosse eqüitativo, justo, reto, de bom caráter, cumpridor de seus deveres, a viúva teria recebido deferimento do seu pedido com muito maior antecedência. Seja como for, o despacho foi dado, embora a custo, após reiteradas solicitações, importunações cotidianas, e o juiz, apesar de iníquo, para não ser “amolado”, resolveu a questão.

            “Ora, disse Jesus, ouvi o que disse esse juiz iníquo; e não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam noite e dia, embora seja demorado em defendê-los? Digo-vos que bem depressa lhes fará justiça.”

            Se a justiça, embora demorada, se faz na Terra até contra a vontade dos juizes, como não há de ser ela feita pelo Supremo e Justo Juiz do Céu?

            A deficiência não é, pois, de Deus, mas sim dos homens, mormente na época que  atravessamos, em que o Filho do Homem bate a todas as portas, inquire todos os corações e os  encontra vazios de fé, vazios de crença, vazios de amor a Deus, vazios de caridade!

            Antigamente havia juizes iníquos; hoje, pode-se dizer que nem só os juizes, mas até os peticionários são iníquos!

            A iniqüidade lavra como um incêndio devorador, aniquilando as consciências e maculando os corações: homens iníquos, lares iníquos, sociedades iníquas, governos iníquos, leigos iníquos, sábios iníquos; tudo isso devido à crença sacerdotal, aos dogmas das seitas dominantes! Mas o Senhor aí está a destruir a iniqüidade, e, com ela, os iníquos. (Parábolas e Ensinos de Jesus. Parábola do Juíz iníquo.  Cairbar Schutel )

            Conquanto diferente na forma, esta parábola se assemelha bastante, na essência, àquela outra, do Amigo Importuno, registrada pelo próprio  evangelista Lucas, no cap. 2º, vs. 5 a 13.

            Nesta, como naquela, Jesus nos exorta a confiar na Justiça Divina, na certeza de que, consoante o refrão popular, ela “tarda, mas não falha”.

            De fato, se mesmo homens iníquos, isto e, maldosos, perversos, insensíveis aos direitos do próximo e indiferentes à Moral, como o juiz de que nos fala o texto acima, não resistem ao assédio daqueles que lhes batem à porta com insistência, e, para verem-se livres de importunações, acabam  resolvendo-lhes as questões, como poderia Deus, que é a perfeição absoluta, deixar de atender aos nossos justos reclamos e solicitações?

            Se, malgrado todas as deficiências e fraquezas dos que, na Terra, presidem aos serviços judiciais, as causas têm que ser solucionadas um dia, ainda que com grande demora, porque duvidar ou desesperançar das providências do Juiz Celestial?

            Ele, que não é indiferente sequer à sorte de um pardal, que tudo sabe, tudo pode e tanto nos ama, negligenciaria a respeito de nossos legítimos interesses, deixar-nos-ia sofrer qualquer injustiça, mínima que fosse? Não!

            Quando, pois, sintamos que o ânimo nos desfalece, por afigurar-se que os  males que nos afligem sobreexcedem nossas forças, oremos e confiemos. Deus não desampara a nenhum de Seus filhos. Se, às vezes, parece não ouvir as nossas súplicas, permitindo perdurem  nossos sofrimentos, é porque, à feição do lapidário emérito, que se esmera ao  extremo no aperfeiçoamento de suas gemas preciosas, também Ele, sabendo  ser a Dor o melhor instrumento para a lapidação de nossas almas, nos mantém  sob a sua ação enérgica, mas eficiente, a fim de que sejam quebradas as  estrias de nosso mau caráter, nos expunjamos de nossas mazelas e nos  tornemos, o mais breve possível, dignos de ascender à Sua inefável  companhia.

            Sim, em todos os transes difíceis da existência, oremos e confiemos. Se o fizermos com fé, haveremos de sentir que, embora os trilhos da experiência que nos cumpre palmilhar continuem cheios de pedras e de espinhos, a, oração, jorrando luz à nossa frente, nos permitirá avançar com  segurança, vencendo, incólumes, os tropeços do caminho! (Parábolas evangélicas.  Cap. 25 - Parábola do Juíz iníquo. Rodolfo Calligaris )

            Tudo que você suplicar a Deus, se seu pedido for justo (como o pedido da viúva), pode ter a certeza de que Deus o atenderá, com o amor de Seu divino coração paternal.

            Não tenha dúvida, filhinho: toda súplica justa é ouvida e atendida por Deus.

            Jesus, depois de contar a parábola ao povo, disse: Recordai as palavras do juiz injusto. Se esse homem maldoso fez justiça à pobre mulher, muito mais Deus fará justiça àqueles que merecerem, aos que lhe pedirem, como a viúva pobre, o que for honesto e justo.”

            Não esqueça a lição da parábola. Peça a Deus somente o que for bom e justo.

            Rogue as bênçãos divinas para você, para seus paizinhos, para os maninhos, para seus parentes, para seus vizinhos, para os pobres, para os doentes, para os órfãos, para os pecadores. Rogue para você e para todos as bênçãos da paz, da luz, da saúde e da fortaleza espiritual. Se você orar, cheio de fé, Deus atenderá você. Talvez não atenda tão depressa como você deseje. Por que será? Será que Deus deseja ouvir muitas vezes o mesmo pedido? Não, filhinho, mil vezes não. Nós é que nem sempre estamos com a mente e o coração preparados para receber a Resposta divina. Por isso, devemos “orar sempre, sem nunca desanimar como Jesus ensinou, a fim de purificar nossa mente e nosso coração para ouvir e sentir as respostas de Deus.

             (...) Uma alma digna só pede a Deus o que é digno. Uma alma justa só pede a Deus o que é justo. Por isso é que Deus atende os pedidos justos e dignos: as almas dignas e justas MERECEM as bênçãos do Alto.  Existe, meu filho, uma lei do mérito funcionando na Terra e na Eternidade. Se merecermos, receberemos sempre. Procuremos, para nosso bem, merecer, fazendo a vontade de Deus, hoje e sempre... (Histórias que Jesus contou. Cap. 14. Parábola da viúva importuna. Clóvis Tavares )

            Podem as preces, que por nós mesmos fizermos, mudar a natureza das nossas provas e desviar-lhes o curso?

            “As vossas provas estão nas mãos de Deus e algumas há que têm de ser suportadas até ao fim; mas, Deus sempre leva em conta a resignação. A prece traz para junto de vós os bons Espíritos e, dando-vos estes a força de suportá-las corajosamente, menos rudes elas vos parecem. Hemos dito que a prece nunca é inútil, quando bem feita, porque fortalece aquele que ora, o que já constitui grande resultado. Ajuda-te a ti mesmo e o Céu te ajudará, bem o sabes.  Demais, não é possível que Deus mude a ordem da natureza ao sabor de cada um, porquanto o que, do vosso ponto de vista mesquinho e do da vossa vida efêmera, vos parece um grande mal é quase sempre um grande bem na ordem geral do Universo. Além disso, de quantas males não se constitui o homem o próprio autor, pela sua imprevidência ou pelas suas faltas? Ele é punido naquilo em que pecou. Todavia, as súplicas justas são atendidas mais vezes do que supondes.  Julgais, de ordinário, que Deus não vos ouviu, porque não fez a vosso favor um milagre, enquanto que vos assiste por meios tão naturais que vos parecem obra do acaso ou da força das coisas.  Muitas vezes também, as mais das vezes mesmo, ele vos sugere a ideia que vos faz sair da dificuldade pelo vosso próprio esforço.” (O Livro dos Espíritos. Questão 663. Allan Kardec )

             No trecho  a seguir, retirado do livro " Os Mensageiros " , o Espírito André Luiz relata porque nem todos os pedidos feitos por encarnados ou desencarnados , numa casa espírita , são atendidos:

            "(...) Pouco antes de se entregar Dona Isabel (médium encarnada) ao trabalho do receituário, observei que uma senhora desencarnada se aproximara de Isidoro (trabalhador desencarnado), pedindo, emocionada:

            – Ser-lhe-á possível, meu irmão, entender-se por mim com os nossos orientadores quanto à possibilidade de me comunicar diretamente com a minha filha, presente à reunião? Estou certa de que, com a permissão devida, nossa Isabel me atenderá a angústia materna.

            O interpelado mostrou sincero desejo de ser útil, mas, depois de trocar algumas palavras com o instrutor mais graduado da reunião, que se colocara entre a médium e o doutrinador, veio  trazer a resposta, algo constrangido, com grande surpresa para mim:

            – Minha irmã – disse ele –, o nosso nobre Aniceto (instrutor  espiritual) não julga viável o seu pedido. Asseverou que sua filhinha ainda não está em  condições de receber essa bênção. Ela tem necessidade de testemunhar, agora, o que aprendeu do seu exemplo, no mundo, e precisa permanecer no campo da oportunidade, sem repousar indevidamente nos seus braços.

            E como a senhora, denotasse tristeza, Isidoro continuou em  tom fraternal:

            – Não somente por isso, minha amiga, nosso instrutor se vê forçado a desatender. A medida traria inconveniente grave para o seu sentimento maternal. No estado evolutivo em que se encontra, e considerando o velho hábito adquirido, a filhinha se agarraria excessivamente ao seu auxílio. Prender-se-ia à mãezinha afetuosa e sensível, e talvez a irmã se visse perturbada em sua nova carreira espiritual. Ela precisa estar mais livre para testemunhar, enquanto o seu coração deve permanecer em liberdade, por nobre merecimento conquistado ao preço do seu suor e lágrimas, quando na Terra. Considerando, embora, o caráter sagrado do amor em  sua feição maternal, nossos orientadores não podem conceder à sua filha o direito de perturbá-la. Compreende? Não se atormente com esta impossibilidade transitória. Lembre-se de que todos somos filhos de Deus. O Senhor terá recursos para atender à jovem, em seu lugar.             Quanto ao mais, alegremo-nos em nossos serviços. Recorde que o auxílio não se verificará pelo processo direto, mas podemos recorrer ao método indireto. Quem sabe?

            Amanhã, possivelmente, poderá encontrar-se com sua filha, em  sonho.

            A interpelada sorriu, confortada, e obtemperou:

            – É verdade. Devo compreender a nova situação.

            Nesse instante, acercou-se de Isidoro uma entidade amiga, que solicitou:

            – Meu caro, estimaria suas providências junto dos receitistas, para que forneçam novas indicações ao Amaro (Espírito encarnado). Meu sobrinho  necessita de amparo à saúde física.

            O esposo espiritual de Isabel tomou uma expressão significativa e respondeu:

            – Não posso, meu amigo, não posso. Se Amaro pedir e os receitistas cederem, tudo estará muito bem; mas você não ignora que o nosso doente é muito rebelde. Já lhe providenciei a obtenção de conselhos médicos do nosso plano, por cinco vezes, sem  que ele correspondesse aos nossos esforços.

            Não se resolve a adquirir os remédios indicados, e quando os obtém, por obséquio de amigos, despreza os horários e julga-se superior ao método.

            Critica mordazmente as indicações obtidas e serve-se delas com  desprezo. Naturalmente não estou agastado com isso, como adulto que se não aborrece com as brincadeiras de uma criança; mas você compreende que estamos lidando com um material muito sagrado e não há tempo para conviver com os que estimam a brincadeira. Além disso, não será caridade o ato de dar aos que não querem receber.  " (Os Mensageiros. Cap. 47 - No trabalho ativo. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier )

            Em todas as casas de fé, os mensageiros do Senhor distribuem favores e bênçãos compatíveis com as necessidades de cada um; entretanto, é imprescindível que se prepare o coração nas linhas do mérito, a fim de recolhê-los. Entre emissão e recepção, prevalece o imperativo da sintonia. Sem esforço preparatório, é impossível ambientar o benefício.  (Libertação.  Cap. 9. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier )

            Enquanto uns avançam rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltrões nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme esta frase do Cristo: “A cada um  segundo as suas obras.” (Romanos, 2:6) ( O Céu e o inferno. Primeira parte. Cap. 3. Item 7. Allan Kardec )

            O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.

            (...) Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis conseqüências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 5 . Item  4 e 5. Allan Kardec )

            A lei da prova e da expiação é inflexível?

            -Os tribunais da justiça humana, apesar de imperfeitos, por vezes não comutam  as penas e não beneficiam os delinqüentes com o “sursis”?

            A inflexibilidade e a dureza não existem para a misericórdia divina, que,  conforme a conduta do Espírito encarnado, pode dispensar na lei, em benefício do homem quando a sua existência já demonstre certas expressões do amor que cobre a multidão dos pecados. (O Consolador.  Questão 247. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier )

            O culpado arrependido pode receber da justiça divina o direito de não passar por determinadas provas?

            -A oportunidade de resgatar a culpa já constitui em si mesma, um ato de misericórdia divina, e, daí, o considerarmos o trabalho e o esforço próprio como a luz maravilhosa da vida.

            Entendendo, todavia, a questão à generalidade das provas; devemos concluir ainda, com o ensinamento de Jesus, que “o amor cobre a multidão dos pecados”, traçando a linha reta da vida para as criaturas e representando a única força que anula as exigências da lei de talião, dentro do Universo infinito. (O Consolador.  Questão 336. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier )

            Segundo Allan Kardec, "O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação. "(O céu e o inferno. Primeira parte. Cap. 7. Item 16. Allan Kardec )

            O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.

            Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.

            A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contato com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam  prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se foi orgulhoso, amável se foi austero, caridoso se foi egoísta, benigno se foi perverso, laborioso se foi ocioso, útil se foi inútil, frugal se foi intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado. (O céu e o inferno. Primeira parte. Cap. 7. Item 17. Allan Kardec )

            Seguno o Espírito André Luiz, "Diante das Leis Divinas, somos juízes de nós mesmos. " (Conduta Espírita. Cap. 31. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira).

            O sentimento da justiça está em a Natureza, ou é resultado de idéias adquiridas?

            Está de tal modo em a Natureza, que vos revoltais à simples idéia de uma injustiça. É fora de dúvida que o progresso moral desenvolve esse sentimento, mas não o dá. Deus o pôs no coração do homem. Daí vem que, freqüentemente, em homens simples e incultos se vos deparam noções mais exatas da justiça do que nos que possuem grande cabedal de saber. ( O Livro dos Espíritos.  Questão 873. Allan Kardec )

             Sendo a justiça uma lei da Natureza, como se explica que os homens a entendam de modos tão diferentes, considerando uns justo o que a outros parece injusto?

            É porque a esse sentimento se misturam paixões que o alteram, como sucede à maior parte dos outros sentimentos naturais, fazendo que os homens vejam as coisas por um prisma falso.( O Livro dos Espíritos.  Questão 874. Allan Kardec )

            De ocordo com Vinícius, "A justiça não tem simpatias, ou melhor: ela se simpatiza com todos igualmente. O coração do homem não sabe manter esse equilíbrio; propende habitualmente para este ou para aquele. Daí o representar-se a figura da justiça de olhos vendados.

            O homem, para julgar bem, é preciso que não veja. Os olhos são a luz do corpo; no entanto, é mister que os olhos se fechem, que a luz se apague, para que se torne possível um juízo mais ou menos reto.

            A justiça requer luz. Fazer justiça é função da luz. Mas o  homem faz mau uso da luz que em si mesmo existe. Vendo os indivíduos, surgem as inclinações pessoais que obscurecem o juízo, prejudicando a causa da justiça. Assim, pois, é mais provável o homem praticar justiça de olhos fechados, que de olhos abertos.

            (...) Enquanto o homem não souber fazer uso da luz que nele há, seus juízos serão fatalmente falhos, iníquos e, portanto, destituídos de valor. Quando o homem conhecer a luz que nele há e dessa luz souber utilizar-se, julgará com justiça, porque o juiz não será mais o homem, porém Deus, através do homem." (Em torno do mestre. Justiça.  Pedro de Camargo Vinícius)

            Como se pode definir a justiça?

            A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais.

            a) - Que é o que determina esses direitos?

            Duas coisas: a lei humana e a lei natural. Tendo os homens formulado leis apropriadas a seus costumes e caracteres, elas estabeleceram direitos mutáveis com o progresso das luzes. Vede se hoje as vossas leis, aliás imperfeitas, consagram os mesmos direitos que as da Idade Média. Entretanto, esses direitos antiquados, que agora se vos afiguram monstruosos, pareciam justos e naturais naquela época. Nem sempre, pois, é acorde com a justiça o direito que os homens prescrevem. Demais, este direito regula apenas algumas relações sociais, quando é certo que, na vida particular, há uma imensidade de atos unicamente da alçada do tribunal da consciência. ( O Livro dos Espíritos.  Questão 875. Allan Kardec )

             Posto de parte o direito que a lei humana consagra, qual a base da justiça, segundo a lei natural?

            Disse o Cristo: Queira cada um para os outros o que quereria para si mesmo. No coração do homem imprimiu Deus a regra da verdadeira justiça, fazendo que cada um deseje ver respeitados os seus direitos. Na incerteza de como deva proceder com o seu semelhante, em dada circunstância, trate o homem de saber como quereria que com ele procedessem, em circunstância idêntica. Guia mais seguro do que a própria consciência não lhe podia Deus haver dado.

            Efetivamente, o critério da verdadeira justiça está em querer cada um para os outros o que para si mesmo quereria e não em querer para si o que quereria para os outros, o que absolutamente não é a mesma coisa. Não sendo natural que haja quem deseje o mal para si, desde que cada um tome por modelo o seu desejo pessoal, é evidente que nunca ninguém desejará para o seu semelhante senão o bem. Em todos os tempos e sob o império de todas as crenças, sempre o homem se esforçou para que prevalecesse o seu direito pessoal. A sublimidade da religião cristã está em que ela tomou o direito pessoal por base do direito do próximo. ( O Livro dos Espíritos.  Questão 876. Allan Kardec )

            Da necessidade que o homem tem de viver em sociedade, nascem-lhe obrigações especiais?

            Certo e a primeira de todas é a de respeitar os direitos de seus semelhante. Aquele que respeitar esses direitos procederá sempre com justiça. Em o vosso mundo, porque a maioria dos homens não pratica a lei de justiça, cada um usa de represálias. Essa a causa da perturbação e da confusão em que vivem as sociedades humanas. A vida social outorga direitos e impões deveres recíprocos.  ( O Livro dos Espíritos.  Questão 877. Allan Kardec )

            Podendo o homem enganar-se quanto à extensão do seu direito, que é o que lhe fará conhecer o limite desse direito?

            O limite do direito que, com relação a si mesmo, reconhecer ao seu semelhante, em idênticas circunstâncias e reciprocamente.

            Mas, se cada um atribuir a si mesmo direitos iguais aos de seu semelhante, que virá a ser da subordinação aos superiores? Não será isso a anarquia de todos os poderes?

            “Os direitos naturais são os mesmos para todos os homens, desde os de condição mais humilde até os de posição mais elevada. Deus não fez uns de limo mais puro do que o de que se serviu para fazer os outros, e todos, aos Seus olhos, são iguais. Esses direitos são eternos. Os que o homem estabeleceu perecem com as suas instituições. Demais, cada um sente bem a sua força ou a sua fraqueza e saberá sempre ter uma certa deferência para com os que o mereçam por suas virtudes e sabedoria. É importante acentuar isto, para que os que se julgam superiores conheçam seus deveres, a fim de merecer essas deferências. A subordinação não se achará comprometida, quando a autoridade for deferida à sabedoria.” ( O Livro dos Espíritos.  Questão 878. a) .Allan Kardec )

            Direito e Justiça deveriam ser sinônimos perfeitos, ou seja, deveriam  expressar a mesma virtude, pois, se aquele significa “o que é justo”, esta se traduz por “conformidade com o direito”.

            Lamentàvelmente, porém, aqui na Terra, Direito e Justiça nem sempre se correspondem, porque, ignorando ou desprezando a Lei de Deus, outorgada para a felicidade universal, a justiça humana há feito leis prescrevendo como direitos umas tantas práticas que favorecem apenas os ricos e poderosos, em detrimento dos pobres e dos fracos, o que implica tremenda iniquidade, assim como há concedido a alguns certas prerrogativas que de forma nenhuma poderiam ser generalizadas, constituindo-se, por conseguinte, em privilégios, quando se sabe que todo privilégio é contrário ao direito comum.

            O escravismo, com todas as crueldades que lhe eram peculiares, p. ex., foi por muito tempo consagrado como coisa legal, isto é, um “direito” assegurado pelos sistemas sociais vigentes por mais de um milênio; o assassínio igualmente tem sido utilizado, em inúmeros casos, qual um “direito”, não apenas pelos indivíduos como pela própria Sociedade; o “jus primae noctis”, na Idade Média, dava ao barão feudal “direito” de deitar-se com a noiva dos seus servos antes que ela se juntasse ao noivo; no século 17, quando era costume todos os homens portarem um instrumento mortífero, pois tinham que estar preparados para matar ou ser mortos, aos nobres cabia o “direito” de se armarem com espadas de um metro de comprimento, enquanto os plebeus só podiam usar punhais de até 30 centímetros; nações houve e talvez ainda haja, cuja governança, por “direito” expresso em suas constituições, só podia ser exercida por alguém de determinada confissão religiosa, com exclusão das demais; o exercício de cargos eletivos, em muitos países, era ou ainda é um “direito” civil reservado exclusivamente aos proprietários; regimes de trabalho especiais, aposentadorias especiais, gratificações especiais, imunidades especiais, isenções especiais, licenças especiais, etc, são outros tantos “direitos” sacramentados por leis, em um e outro hemisfério.

            Ora, esses modos de agir, conquanto baseados na jurisprudência terrena, não se harmonizam com a verdadeira justiça, a justiça natural, que o divino mestre Jesus sintetizou na máxima: “Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles.” (Mat. 7:12)

            Se a aplicássemos em nossas relações sociais, em toda e qualquer circunstância, jamais erraríamos. Ninguém deseja para si senão o que é agradável, bom e útil; assim, se cada qual procedesse com seus irmãos de conformidade com aquela regra, é evidente que só lhes faria o bem, resultando daí a extinção do egoísmo, que é a causa mâter de quase todos os atritos e conflitos que infelicitam a Humanidade.

            “Em todos os tempos e sob o império de todas as crenças — comenta Kardec (capítulo 11º, questão 876) — o homem sempre se esforçou para que prevalecesse o seu direito pessoal. A sublimidade da religião cristã está em que ela tomou o direito pessoal por base do direito do próximo.

            Talvez nos digam que se os homens atribuírem a si mesmos, indistintamente, iguais direitos, a hierarquia de poderes será desfeita e então o caos, e não a ordem, é que prevalecerá no complexo social.

            (...) Com efeito, não há razão para temer-se que o reconhecimento da igualdade dos homens possa prejudicar a organização social.

            Muitos costumes do passado, que hoje consideraríamos bárbaros e monstruosos, foram julgados “direitos” naturais, conformes aos códigos da época, e sua supressão, ao invés de arruinar a sociedade, vem-na tornando cada vez mais perfeita, aproximando-a, pouco a pouco, do estado ideal.

            À medida que os homens progridem em moralidade, melhores concepções vão tendo acerca de tudo, de sorte que, quando o Cristianismo se haja implantado, de verdade, em cada coração, o Direito e a Justiça confundir-se-ão finalmente, fundamentando-se numa só norma: “ama a teu próximo como a ti mesmo”, pois em tal consiste “toda a Lei e os Profetas”. (As leis morais. Cap. 39. Direito e Justiça.  Rodolfo Calligaris )

            Como atua o mecanismo da Justiça no Plano Espiritual?

            – No mundo espiritual, decerto, a autoridade da Justiça funciona com maior segurança, embora saibamos que o mecanismo da regeneração vige, antes de tudo, na consciência do próprio indivíduo.

            Ainda assim, existem aqui, como é natural, santuários e tribunais, em que magistrados dignos e imparciais examinam as responsabilidades humanas, sopesando-lhes os méritos e deméritos.

            A organização do júri, em numerosos casos, é aqui observada, necessariamente, porém, constituída de Espíritos integrados no conhecimento do Direito, com dilatadas noções de culpa e resgate, erro e corrigenda, psicologia humana e ciências sociais, a fim  de que as sentenças ou informações proferidas se atenham à precisa harmonia, perante a Divina Providência, consubstanciada no amor que ilumina e na sabedoria que sustenta.

            Há delinqüentes tanto no plano terrestre quanto no plano espiritual e, em razão disso, não apenas os homens recentemente desencarnados são entregues a julgamento específico, sempre que necessário, mas também as entidades desencarnadas que, no cumprimento de determinadas tarefas, se deixam, muitas vezes, arrastar a paixões e caprichos inconfessáveis.

            É importante anotar, contudo, que quanto mais baixo é o grau evolutivo dos culpados, mais sumário é o julgamento pelas autoridades cabíveis e, quanto mais avançados os valores culturais e morais do indivíduo, mais complexo é o exame dos processos de criminalidade em que se emaranham, não só pela influência com  que atuam nos destinos alheios, como também porque o Espírito, quando ajustado à consciência dos próprios erros, ansioso de reabilitar-se perante a vida e diante daqueles que mais ama, suplica por si mesmo a sentença punitiva que reconhece indispensável à própria restauração. (Evolução em dois mundos. Segunda parte. 6 - Justiça na Espiritualidade. Espírito  André Luiz .  Psicografado por Chico Xavier )

            O livro "Libertação " mostra que em regiões inferiores há juízes implacáveis  (perversos) que julgam Espíritos endividados com que se afinam. O Espírito André Luiz  descreve este episódio da seguinte forma:

            "O esquisito palácio guardava a forma de enorme hexágono, alongando-se para cima em torres pardacentas, e reunia muitos salões consagrados a estranhos serviços. Iluminado externa e interiormente pela claridade de volumosos tocheiros, apresentava o aspecto desagradável de uma casa incendiada.

            (...)Moços e velhos, homens e mulheres, aí se misturavam em relativo silêncio.  Alguns gemiam e choravam. Reparei que a multidão se constituía, em sua quase totalidade, de almas doentes. Muitos padeciam desequilíbrios mentais visíveis.

            (...)Discretamente, o instrutor elucidou-nos:

            – Presenciamos uma cerimônia semanal dos juizes implacáveis que vivem sediados aqui. A operação seletiva realiza-se com  base nas irradiações de cada um. Os guardas que vemos em trabalho de escolha, compondo grupos diversos, são técnicos especializados na identificação de males numerosos, através das cores que caracterizam o halo dos Espíritos ignorantes, perversos e desequilibrados. A divisão para facilitar o serviço judiciário é, por isto  mesmo, das mais completas.

            (...) Atento à explicação ouvida, indaguei, curioso:

            – Todas estas entidades vieram constrangidas, conforme sucedeu conosco? Há espíritos satânicos, recordando as oleografias  religiosas da Crosta, disputando as almas no leito de morte?

            O orientador obtemperou, muito calmo:

            – Sim. André, cada mente vive na companhia que elege. Semelhante princípio prevalece para quem respira no corpo denso ou fora dele. É imperioso reconhecer, porém, que a maioria das almas asiladas neste sítio vieram ter aqui, obedecendo a forças de atração. Incapazes de perceber a presença dos benfeitores espirituais que militam entre os homens encarnados, em tarefas de renunciação e benevolência, em vista do baixo teor vibratório em  que se precipitaram, através de delitos reiterados, da ociosidade impenitente ou da deliberada cristalização no erro, não encontraram senão o manto de sombras em que se envolveram e, desvairadas, sozinhas, procuraram as criaturas desencarnadas que com elas se afinam, agregando-se naturalmente a este imenso cortiço, com toda a bagagem de paixões destruidoras que lhes marcam a estrada. Aportando aqui, sofrem, porém, a vigilância de inteligências poderosas e endurecidas que imperam ditatorialmente nestas regiões, onde os frutos amargos da maldade e da indiferença enchem o celeiro dos corações desprevenidos e maliciosos.

            – Oh! – exclamei em voz sussurrante – por que motivo confere o Senhor atribuições de julgadores a Espíritos despóticos?

            Porque estará a justiça, nesta cidade estranha, em mãos de príncipes diabólicos?

            Gúbio estampou na fisionomia significativa expressão e ajuntou:

            – Quem se atreveria a nomear um anjo de amor para exercer o papel de carrasco? Ao demais, como acontece na Crosta Planetária, cada posição, além da morte, é ocupada por aquele que a deseja e procura.

            (...)Prolongando-se o intervalo, enderecei com o olhar silenciosa interrogação ao nosso orientador, que me falou quase em segredo:

            – O julgador conhece à saciedade as leis magnéticas, nas esferas inferiores, e procura hipnotizar as vítimas em sentido destrutivo, não obstante usar, como vemos, a verdade contundente.

            (...) Gritos atormentados, rogativas de compaixão se fizeram ouvir. Muitos se prosternaram de joelhos.

            (...)Exasperado, o julgador bradou, colérico:

            – Perdão? Quando desculpastes sinceramente os companheiros da estrada? Onde está o juiz reto que possa exercer, impune, a misericórdia?

            E incidindo toda a força magnética que lhe era peculiar, através das mãos, sobre uma pobre mulher que o fixava, estarrecida, ordenou-lhe com voz soturna:

            – Venha! venha!

            Com expressão de sonâmbula, a infeliz obedeceu à ordem, destacando-se da multidão e colocando-se, em baixo, sob os raios positivos da atenção dele.

            – Confesse! confesse! – determinou o desapiedado julgador, conhecendo a organização frágil e passiva a que se dirigia.

            A desventurada senhora bateu no peito, dando-nos a impressão de que rezava o “confiteor” e gritou, lacrimosa:

            – Perdoai-me! perdoai-me, ó Deus meu!

            E como se estivesse sob a ação de droga misteriosa que a obrigasse a desnudar o íntimo, diante de nós, falou, em voz alta e pausada:

            – Matei quatro filhinhos inocentes e tenros... e combinei o assassínio de meu intolerável esposo... O crime, porém, é um monstro vivo. Perseguiu-me, enquanto me demorei no corpo... Tentei fugir-lhe através de todos os recursos, em vão... e por mais buscasse afogar o infortúnio em “bebidas de prazer”, mais me chafurdei no charco de mim mesma...

            De repente, parecendo sofrer a interferência de lembranças menos dignas, clamou:

            – Quero vinho! vinho! prazer!...

            Em vigorosa demonstração de poder, afirmou, triunfante, o magistrado:

            – Como libertar semelhante fera humana ao preço de rogativas e lágrimas?

            Em seguida, fixando sobre ela as irradiações que lhe emanavam do temível olhar, asseverou, peremptório:

            – A sentença foi lavrada por si mesma! Não passa de uma loba, de uma loba...

            À medida que repetia a afirmação, qual se procurasse persuadi-la a sentir-se na condição do irracional mencionado, notei que a mulher, profundamente influenciável, modificava a expressão fisionômica. Entortou-se-lhe a boca, a cerviz curvou-se, espontânea, para a frente, os olhos alteraram-se, dentro das órbitas. Simiesca expressão revestiu-lhe o rosto.

            Via-se, patente, naquela exibição de poder, o efeito do hipnotismo sobre o corpo perispirítico.

            Em voz baixa, procurei recolher o ensinamento de Gúbio, que me esclareceu num cicio:

            – O remorso é uma bênção, sem dúvida, por levar-nos à corrigenda, mas também é uma brecha, através da qual o credor se insinua, cobrando pagamento. A dureza coagula-nos a sensibilidade durante certo tempo; todavia, sempre chega um minuto em que o remorso nos descerra a vida mental aos choques de retorno das nossas próprias emissões.

            E acentuando, de modo singular, a voz quase imperceptível, acrescentou:

            – Temos aqui a gênese dos fenômenos de licantropia, inextricáveis, ainda, para a investigação dos médicos encarnados. Lembras-te de Nabucodonosor, o rei poderoso, a que se refere a Bíblia? Conta-nos o Livro Sagrado que ele viveu, sentindo-se animal, durante sete anos. O hipnotismo é tão velho quanto o mundo e é recurso empregado pelos bons e pelos maus, tomando-se por base, acima de tudo, os elementos plásticos do perispírito.

            Notando, porém, que a mulher infeliz prosseguia guardando estranhos caracteres no semblante, perguntei:

            – Esta irmã infortunada permanecerá doravante em tal aviltamento da forma?

            Finda longa pausa, o instrutor informou, com tristeza:

            – Ela não passaria por esta humilhação se não a merecesse.

            Além disso, se se adaptou às energias positivas do juiz cruel, em  cujas mãos veio a cair, pode também esforçar-se intimamente, renovar a vida mental para o bem supremo e afeiçoar-se à influenciação de benfeitores que nunca escasseiam na senda redentora.

            Tudo, André, em casos como este, se resume a problema de sintonia. Onde colocamos o pensamento, aí se nos desenvolverá a própria vida. (Libertação.  Cap. 5. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier )

            Segundo Antônio Luiz Sayão,  " Os homens chegarão a uma época em que, para julgamento de seus atos, em face dos preceitos evangélicos, um só tribunal haverá — o da própria consciência, guarda das leis de Deus, o nosso Criador, o nosso Juiz supremo e nosso Pai de misericórdia infinita.  " (Elucidações Evangélicas. Cap. 27. Antônio Luiz Sayão).

            No livro " Ação e reação " o Espírito André Luiz faz a seguinte pergunta ao instrutor espiritual (Ministro Sânzio) :

            Dispomos de algum  meio para escapar à justiça?

            Sânzio sorriu e observou:

            – Da justiça ninguém fugirá, mesmo porque a nossa consciência, em acordando para a santidade da vida, aspira a resgatar dignamente todos os débitos de que se onerou perante a Bondade de Deus; entretanto, o Amor Infinito do Pai Celeste brilha em  todos os processos de reajuste. Assim é que, se claudicamos nessa ou naquela experiência indispensável à conquista da luz que o Supremo Senhor nos reserva, é necessário nos adaptemos à justa recapitulação das experiências frustradas, utilizando os patrimônios do tempo. Figuremos um homem acovardado diante da luta, perpetrando o suicídio aos quarenta anos de idade no corpo físico.

            Esse homem penetra no mundo espiritual sofrendo as conseqüências imediatas do gesto infeliz, gastando tempo mais ou menos longo, segundo as atenuantes e agravantes de sua deserção, para recompor as células do veículo perispirítico, e, logo que oportuno, quando torna a merecer o prêmio de um corpo carnal na Esfera Humana, dentre as provas que repetirá, naturalmente se inclui a extrema tentação ao suicídio na idade precisa em que abandonou a posição de trabalho que lhe cabia, porque as imagens destrutivas, que arquivou em sua mente, se desdobrarão, diante dele, através do fenômeno a que podemos chamar “circunstâncias reflexas”, dando azo a recônditos desequilíbrios emocionais que o colocarão, logicamente, em contacto com as forças desequilibradas que se lhe ajustam ao temporário modo de ser. Se esse homem não houver amealhado recursos educativos e renovadores em si mesmo, pela prática da fraternidade e do estudo, de modo a superar a crise inevitável, muito dificilmente escapará ao suicídio, de novo, porque as tentações, não obstante reforçadas por fora de nós, começam em nós e alimentam-se de nós mesmos.

            E como pode a criatura habilitar-se devidamente para resgatar o preço da sua libertação?

            Sânzio não se deu por surpreendido e replicou, de pronto:

            – Como qualquer devedor que, de fato, se empenhe na solução dos seus compromissos. Decerto que o homem, sumamente endividado, precisa aceitar restrições no seu conforto para sanar seus débitos com as suas próprias economias. Em razão disso, não pode viver à farta, mas sim com abstinência e suor, de modo a liberar-se tão depressa quanto possível. ( Ação e reação.  Cap. 7 - Conversação preciosa. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier )

            É imperioso que o indivíduo se redima através dos embates de vidas múltiplas do Espírito na carne, como conseqüência inevitável da lei de causas e efeitos.

            Não poderemos jamais julgar que apenas os que desencarnam vítimas de acidentes ou submetidos a mortes violentas, sejam pecadores em débito perante a Justiça Divina. Todos quantos padecem enfermidades incuráveis, cegos de nascem crianças que nascem deformadas, aleijados de toda a sorte, surdos-mudos, mutilados ou portadores de outras enfermidades agudas, e mesmo a maior parte daqueles que nada sofrem na Terra, que gozam saúde e abastança, têm contas a serem ajustadas no quadro da lei divina, através das vidas múltiplas muitos homens bons que perecem de modo violento, vítimas de acidentes ou de catástofres, não são também inocentes, e simplesmente passam por uma fase de reajustamento perante a justiça do Alto. (Os padrões evangélicos. A torre de Siloé. Paulo Alves Godoy)

            Qual seria o caráter do homem que praticasse a justiça em toda a sua pureza?

            O do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, porquanto praticaria também o amor do próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça. (O Livro dos Espíritos.  Questão 879. Allan Kardec)

 

Bibiografia:

- O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 5 . Item  4 e 5. Allan Kardec.

- O Livro dos Espíritos. Questão 663, 873, 874, 875, 876, 877, 878 , 878-a) e 879. Allan Kardec.

- O céu e o inferno. Primeira parte. Cap. 7. Item 16 e 17. Allan Kardec .

- Evolução em dois mundos. Segunda parte. 6 - Justiça na Espiritualidade. Espírito  André Luiz .  Psicografado por Chico Xavier

- Libertação.  Cap. 5 e 9. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier .

 - Ação e reação.  Cap. 7 - Conversação preciosa. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier.

- O Consolador.  Questões 247 e 336. Espírito Emmanuel. Psicografado por Chico Xavier.

- Conduta Espírita. Cap. 31. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira.

- Parábolas e Ensinos de Jesus. Parábola do Juíz iníquo.  Cairbar Schutel .

- Parábolas evangélicas.  Cap. 25 - Parábola do Juíz iníquo. Rodolfo Calligaris.

-  Histórias que Jesus contou. Cap. 14. Parábola da viúva importuna. Clóvis Tavares.

- Elucidações Evangélicas. Cap. 27. Antônio Luiz Sayão.

- Os padrões evangélicos. A torre de Siloé. Paulo Alves Godoy.

- As leis morais. Cap. 39. Direito e Justiça.  Rodolfo Calligaris.