O bico de gás

Naquela noite Vitalino Caixeta discutira muito. Acaloradamente.
Opondo-se aos argumentos de dois amigos, combatia a fé. Acreditava somente no que visse. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. Necessitava sentir, ouvir, cheirar, analisar...
Por isso mesmo, estava contrariado ao recolher-se.
A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito.
Acomodava os filhinhos, atendia aos misteres da casa.
Mas, mesmo depois que D. Constância passou a ressonar, Vitalino prosseguia em solilóquio mental.
Não mudaria. Era homem prático. Só se renderia à evidência dos fatos. Queria fatos. Mais fatos. Mais fatos para compreender os fatos.
Algo cansado, acabou dormindo.
Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino, seu velho irmão desencarnado havia muitos anos…
Rosalino dizia convincente:
— “Meu caro, ouvimos-lhe as considerações silenciosas.
“Realmente, as provas da sobrevivência, muitas vezes, são difíceis. Mas, essa circunstância, só por só, não lhe autoriza negá-la.
“Veja bem.
“Existe a fé automática, inconsciente, sem comprovação. É a aceitação de acontecimentos naturais, sem a ajuda dos sentidos.
“Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame!
“Você não examina a competência do motorista, mas viaja no veículo despreocupadamente...
“Você não testa a resistência do leito, cada noite, mas deita e dorme tranquilo...
“Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição, mas come sem medo...
“Você não experimenta a segurança da casa bancária, mas confia-lhe os bens sem titubear...
“Por outro lado, inúmeras ocorrências perpassam-lhe na vida sem merecer-lhe estudo mais acurado.
“Você não apalpa o ar, mas respira o oxigênio, sem susto...
“Você não vê o vírus, mas sofre a gripe...
“Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta, mas ouve satisfeito os programas radiofônicos...
“Você não mediu o Universo, metro a metro, mas reconhece o infinito da Criação...
“Você não morreu ainda, mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte.
“Igualmente, meu amigo, você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual, mas...ele existe!...
“Acorde para a verdade!
“Acorde e viva! Acorde e viva!”
Como se impulsionado por estranha força, Vitalino despertou no corpo físico.
O ambiente pesava. Fazia-se o ar irrespirável. Algo sucedera de estranho...
Levantou-se estremunhado. Procurou o berço das duas crianças. Ambas desacordadas.
Aflito, abre maquinalmente janela próxima e faz luz.
Somente aí descobre que a esposa, distraída, deixara aberta a torneira do gás.
A família salvara-se a tempo.
E, passado o perigo, tomou papel e lápis, escreveu todas as considerações que ouvira em sonho, e começou a meditar...

(A vida escreve. Espírito Hilário Silva. Psicografado por Waldo Vieira)

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