João Batista é Elias

        Os meses de agosto são de longos dias. O calor asfixia e requeima a rala vegetação.
        A jornada é longa, na conquista do monte: mais de quatro horas de marcha lenta e cansativa, embora a beleza da paisagem deslumbrante em derredor.
        Atingido o acume, o Mestre se põe em oração. Os discípulos, suarentos e cansados, adormecem à sombra dos arbustos escassos.
        Um grande silêncio envolve tudo e todos. O mormaço quase asfixia...
        A noite vence a natureza e o Mestre ora.
        A madrugada alcança o Rabi em oração. Os companheiros dormem. Vozes percutem na monotonia. Os discípulos despertam, assustados e são dominados pela visão sublime da transfiguração do Mestre, com as vestes incendidas, dialogando com Moisés e Elias. As palavras vibram no ar; mas não são palavras como as que se ouvem comumente...
        Logo após, diluída a visão, Simão se acerca do Rabi e exclama:
        — Mestre, bom é que estejamos aqui, e façamos três cabanas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.
        O Mestre fita-o compadecido.
        Uma nuvem surge misteriosa e uma voz, então, exclama:
        — Este é o meu filho amado; a Ele ouvi!
        Os discípulos ainda não refeitos são tomados de pavor.
        A grandiosa revelação fora feita.
        Jesus estivera em toda a sua glória e eles foram testemunhas silenciosas e emocionadas do acontecimento     incomparável.
        Os Céus foram cindidos e os discípulos tiveram o “conhecimento do Divino”.
        Pedro se reportará mais tarde a essa metamorfose do Mestre, testemunho insofismável em que fundamenta sua fé.
        O Rabi, no entanto, exige-lhes silêncio.
        A verdade tem que ser dosada para o entendimento da argila humana.
        Mais tarde João, ao escrever os “ditos do Senhor”, iniciará a sua narrativa evocando, certamente, a cena inesquecível: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam”.
        — Desçamos! —, alvitra o Mestre.
        — Não poderíamos aqui demorar-nos? —, indaga Simão.
        — E necessário descer — retruca Jesus. — Busquemos os que não dispõem de forças para subir. Os homens necessitam de nós. A nossa é a glória deles. Para eles sejam nossas alegrias e para nós as suas dores. Depois da comunhão com os Céus, a convivência entre os que se demoram na Terra. O paraíso seria para nós estranho presídio sem aqueles que, no ergástulo das aflições, anseiam pelo país da liberdade. Desçamos. Os homens, para quem eu venho, nos esperam.
        Na descida do monte confabulam:
        — Rabi! —, indagam como receosos — dizem os escribas que é mister que venha primeiro Elias...
        — Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo quanto quiseram. Assim farão, também, padecer o Filho do Homem...
        “Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista”.
        A nova revelação de ser Elias, João Batista renascido, surpreende os companheiros que começam a compreender os inescrutáveis desígnios do Pai.
        Os Espíritos estão estuantes de felicidade. Há festa em seus corações.
(Primícias do Reino. O tabor e a planície. Espírito  Amélia Rodrigues. Psicografado por Divaldo Franco)

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