Entre árvores

        O espírito André Luiz faz o seguinte relato:

        Decorridos alguns minutos, atingíamos pequena propriedade rural, povoada de arvoredo acolhedor.

        Laranjeiras em flor perdiam-se de vista. Bananeiras estendiam-se em leque, enquanto o goiabal, de longe, semelhava-se a manchas fortes de verdura. A relva macia convidava ao descanso.

        E o vento calmo passava de leve, sussurrando alguma coisa através da folhagem.

        (...) Embalados ao pio de algumas juritis solitárias, repousamos algumas horas, magnificamente asilados no templo da Natureza.

        Com as primeiras tonalidades do crepúsculo, Aniceto nos convidou a passeio rápido pelas imediações.

        Reconhecia que estávamos muito mais bem dispostos.

        – Somente depois de nos locomovermos por alguns minutos, observei que nas vizinhanças havia grande quantidade de trabalhadores espirituais.

        Em face das minhas interrogações, nosso mentor explicou, bondosamente:

        – O campo é também vasta oficina para os serviços de nossa colaboração ativa.

        E apontando os servidores, que iam e vinham, considerou:

        – O reino vegetal possui cooperadores numerosos. Vocês, possivelmente, ignoram que muitos irmãos se preparam para o mérito de nova encarnação no mundo, prestando serviço aos reinos inferiores. O trabalho com o Senhor é uma escola viva, em  toda parte.

        Nesse momento, nossa atenção foi atraída por significativo movimento na estrada próxima.

        Dirigimo-nos para lá, seguindo os passos de Aniceto, que parecia adivinhar o acontecimento.

        Observei, então, um quadro interessante: um homem jazia por terra, numa poça de sangue, ao lado de pequeno veículo sustentado por um muar impaciente, dando mostras de grande inquietação.

        Dois companheiros encarnados prestavam socorro ao ferido, apressadamente. “É preciso conduzi-lo à fazenda sem perda de tempo”, dizia um deles, aflito, “temo haja fraturado o crânio.” O número de desencarnados que auxiliava o pequeno grupo, todavia, era muito grande.

        Um amigo espiritual que me pareceu o chefe, naquela aglomeração, recebeu Aniceto e a nós com deferência e simpatia, explicou rapidamente a ocorrência. O carroceiro havia recebido a patada de um burro e era necessário socorrer o ferido.

        Serenada a situação, vi o referido superior hierárquico chamar um guarda do caminho, interpelando:

        – Glicério, como permitiu semelhante acontecimento? Este trecho da estrada está sob sua responsabilidade direta.

        O subordinado, respeitoso, considerou sensatamente:

        – Fiz o possível por salvar este homem, que, aliás, é um pobre pai de família. Meus esforços foram improfícuos, pela imprudência dele. Há muito procuro cercá-lo de cuidados, sempre que passa por aqui; entretanto, o infeliz não tem o mínimo respeito pelos dons naturais de Deus. É de uma grosseria inominável para com os animais que o auxiliam a ganhar o pão. Não sabe senão gritar, encolerizar-se, surrar e ferir. Tem a mente fechada às sugestões do agradecimento. Não estima senão a praga e o chicote.

        Hoje, tanto perturbou o pobre muar que o ajuda, tanto o castigou, que pareceu mais animalizado... Quando se tornou quase irracional, pelo excesso de fúria e ingratidão, meu auxílio espiritual se tornou ineficiente. Atormentado pelas descargas de cólera do condutor, o burro humilde o atacou com a pata. Que fazer? Minha obrigação foi cumprida...

        O Superior, que ouvia atenciosamente as alegações, respondeu sem hesitar:

        – Tem razão.

        E como dirigisse o olhar a Aniceto, desejando aprovação, nosso orientador afirmou:

        – Auxiliemos o homem, quanto esteja em nossas mãos, cumpramos nosso dever com o bem, mas não desprezemos as lições.

        Esse trabalhador imprudente foi punido por si mesmo. A cólera é punida por suas conseqüências. Ao mal segue-se o mal. Se os seres inferiores, nossos irmãos no grande lar da vida, nos fornecem os valores do serviço, devemos dar-lhes, por nossa vez, os valores da educação. Ora, ninguém pode educar odiando, nem  edificar algo de útil com a fúria e a brutalidade.

        E, indicando o grupo que conduzia o ferido a uma casa próxima, concluiu, imperturbável:

        – Como homem comum, nosso pobre amigo sofrerá muitos dias, chumbado ao leito; entre as aflições dos familiares, demorar-se-á um tanto a restabelecer o equilíbrio orgânico; mas, como Espírito eterno, recebeu agora uma lição útil e necessária.

(Os Mensageiros. Espírito André Luiz. Psicografado por Chico Xavier)