A Parábola dos trabalhadores e das diversas horas do dia

Uma noite, Lina nos disse:

— Tenho agora uma história muito bonita, e muito ver­dadeira para contar-lhes.

Chegado o tempo das uvas, saiu de manhãzinha o dono duma vinha para arranjar trabalhadores para colherem as uvas. Arranjou alguns e combinou com eles a tarefa pelo preço de um dinheiro por dia e mandou-os para sua vinha. E tendo saído junto da terceira hora, viu outros que estavam na praça ociosos e mandou-os também para o seu trabalho. A mesma coisa ele fez na sexta, na nona e na undécima hora.

Pelo fim da tarde chamou o administrador de sua vinha e ordenou-lhe que pagasse o salário dos trabalhadores, dando um dinheiro a cada um, mesmo aos que tinham vindo para o trabalho na última hora, começando por estes e acabando pelos primeiros.

Quando os homens que tinham chegado de manhã, viram que os contratados de tarde recebiam um dinheiro, pensaram que receberiam mais. Vendo, porém, que recebiam a mesma coisa, foram queixar-se ao dono da vinha:

—  “Como! Estes últimos trabalharam apenas uma hora e o senhor os igualou a nós que trabalhamos o dia inteiro?”

—  Amigos, respondeu-lhes o dono da vinha, não estou sendo injusto com ninguém, porque estou dando a cada um aquilo que foi combinado.”

—  Lina, só você nos explicando estas duas parábolas, porque delas pouco compreendi, pediu o sr. Antônio.

—  Nós também, dissemos todos.

—  É fácil. Com estas duas parábolas, Jesus nos ensina mais alguma coisa do reino dos céus. Com a do credor in­compassivo, ele nos demonstra que se não usarmos do perdão incondicional, não entraremos no reino dos céus. Com a dos trabalhadores aprendemos que qualquer hora é hora de começar a trabalhar para alcançarmos o reino dos céus. Vo­cês que ainda são pequenos, eu que sou maior do que vocês, o tio Antônio, tia Leonor, dona Aninhas que já são de certa idade, meu avô que vocês não conhecem, mas que já está velhinho, todos podem desde agora se esforçar por con­quistar o reino dos céus. E o prêmio que Deus dá a todos, não importa a hora em que comecemos, é o mesmo e um só: o  reino dos céus. Compreenderam?

—  Você falou em hora sexta, nona, undécima, que ma­neira era essa de medir o tempo, Lina? perguntou dona Aninhas.

—  Muito simples. Os antigos dividiam o dia, desde o nascer do sol até o seu ocaso, em doze horas. Assim a hora sexta era o meio-dia; a hora terceira era por volta das nove horas da manhã; a hora nona, ou noa, pelas três da tarde; a undécima, mais ou menos pelas cinco da tarde. Como as horas do dia se contavam de sol a sol, eram mais compridas no verão e mais curtas no inverno. A noite era dividida em quatro vigílias, cada uma de três horas. Com o aparecimento das primeiras estrelas, principiava a primeira vigília da noite. Até meia-noite eram duas vigílias; e da meia-noite aos pri­meiros raios do sol, mais duas vigílias.

Voltando ao dono da vinha, modernamente diremos que ele saiu à procura de trabalhadores às seis horas, às nove horas, ao meio dia, às quinze horas, às dezessete horas, e pagou-lhes o salário pelo fim da tarde, isto é, às dezoito horas. Entendido?

—  Sim, senhora!

—  E que noticias me dão do sr. Manoel?

—  Ele está bom, dona Lina, respondeu a Joaninha. Hoje fui à venda dele fazer compras e foi ele quem me serviu.

—  Então vamos agradecer a Deus e a Jesus por terem ouvido nossas preces, e daqui por diante encerraremos nossas histórias com uma prece pelos doentes e pelos pobrezinhos. Quando vocês souberem de algum necessitado, tragam-me o seu nome para orarmos por ele.

E daí por diante, todas as noites orávamos, e dona Lina não nos deixava ir embora sem nossa prece pelos sofredores do mundo.

(O Evangelho da Meninada. Eliseu Rigonatti)