A fotografia do pensamento

        Na manhã de domingo, um incêndio causado por um curto-circuito no ar-condicionado, atingiu o quarto de visitas da casa do senhor Alexandre, na zona oeste de São Paulo.  Ninguém ficou ferido, os bombeiros agiram rapidamente para apagar o fogo. Entretanto, o senhor Alexandre e o seu filho Ricardo perderam todos os álbuns de fotografia da sua família, que estavam guardados no armário, próximo ao ar-condicionado.

        Ricardo estava assustado e triste com o que havia acontecido, mas apesar disso, resolveu ir ao centro espírita participar da aula de evangelização, como fazia todos os domingos.

        Com o rosto abatido, entrou na sala do Grupo da Mocidade Espírita e foi logo interpelado pelo Evangelizador, que lhe disse:

        - Olá Ricardo.... aconteceu algo que queira me contar?

        - Estou chateado professor... Hoje ocorreu um incêndio na minha casa e perdi todas as recordações da minha família, que estavam nos álbuns de fotografia. Ano passado, minha mãe morreu  num acidente de carro  e agora nem as suas fotografias tenho mais.

        - Mas alguém se feriu?  perguntou o instrutor amigo, com muita preocupação.

        - Não, Graças a Deus, respondeu Ricardo. Só tive algumas perdas materiais.

        - Então não fique assim, disse o Evangelizador. Saiba que um dia reencontrará a sua mãe. Além disso, todas as lembranças da sua vida estão registradas na sua mente, no perispírito e também no Fluido Universal. Aliás, nada é por acaso, o assunto da aula de hoje é este.  Sente-se, para iniciarmos o estudo, juntamente com os demais colegas.

        Logo em seguida, o Evangelizador fez a prece inicial e iniciou o estudo, dizendo:

        "O Espiritismo nos revela que o espaço universal não é vazio, ele é preenchido por um fluido  etéreo, chamado de fluido universal, que  penetra todos os corpos. A natureza inteira está mergulhada neste fluido, como num imenso oceano. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, fonte geradora do mundo e dos seres.

        O fluido universal é o veículo do pensamento, da mesma forma que o ar é o veículo do som,  com a diferença de que o som pode se manifestar apenas num raio muito limitado, enquanto o pensamento atinge o infinito."

        Depois pegou o livro "Dramas da Obsessão" de Yvonne Pereira  e leu o seguinte trecho:

        "Conforme não mais ignoram os estudiosos e pensadores do Espiritismo, as poderosas sensibilidades etéricas, as ondas luminosas disseminadas pelo Universo, o fluído universal, enfim, sede da Criação, veículo da Vida, possui a prodigiosa capacidade de fotografar e arquivar em suas indestrutíveis essências os acontecimentos desenrolados sob a luz do Sol, na Terra, ou pela vastidão do Infinito. A História da Humanidade, portanto, estaria arquivada em imagens e sons pelo infinito a fora, e, como a da Humanidade, necessariamente a história de cada individualidade, particularmente. Rever, portanto, o que passou, rebuscando imagens e cenas fotografadas nas “ambiências etéricas”, não será, para um Espírito trabalhador, tarefa muito rara, embora penosa. Comumente esses Espíritos o realizam para estudos científicos e filosóficos, lições profundas e muito eruditas para as almas fortes que se dedicam a cursos elevados na vida espiritual, para análises magníficas, que somente ao mundo invisível interessam, por enquanto. (...) Poderíamos, por exemplo, extrair dos arquivos mentais do próprio Leonel (personagem da história deste livro) , em operação psíquica melindrosa, o seu passado reencarnatório, particularizando episódios em que se visse em relações com aqueles que, no momento, eram os seus obsessores. (*)"

        - Nossa professor, que interessante! disse Vanessa. Como é possível  a nossa mente registrar tudo isto?

        Esta resposta encontramos no livro "Obras póstumas"  de Allan Kardec,  respondeu o Evangelizador.  Vejamos o que diz:

        "A memória é como um livro! Aquele em que lemos algumas passagens facilmente no-las apresenta aos olhos; as folhas virgens ou raramente perlustradas têm que ser folheadas uma a uma, para que consigamos reconstituir um fato sobre o qual pouco tenhamos demorado a atenção.

        Quando o Espírito encarnado se lembra, sua memória lhe apresenta, de certo modo, a fotografia do fato que ele procura. Em geral, os encarnados que o cercam nada vêem;o álbum se acha em lugar inacessível ao olhar deles; mas, os Espíritos o vêem e folheiam conosco. Em dadas circunstâncias, podem mesmo, deliberadamente, ajudar a nossa pesquisa, ou perturbá-la.

        (...)Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre aqueles como o som atua sobre o ar; eles nos trazem o pensamento como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, com verdade, que há ondas nos fluidos e radiações de pensamento, que se cruzam sem se confundirem, como há, no ar, ondas e radiações sonoras.

        Ainda mais; criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico como num espelho, ou, então, como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores do ar tomando aí um corpo e, de certo modo, fotografando-se. Se um homem, por exemplo, tiver a idéia de matar alguém, embora seu corpo material se conserve impassível, seu corpo fluídico é acionado por essa idéia e a reproduz com todos os matizes. Ele executa fluidicamente o gesto, o ato que o indivíduo premeditou. Seu pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira se desenha, como num quadro, tal qual lhe está na mente.

        É, assim que os mais secretos movimentos da alma repercutem no invólucro fluídico. É assim que uma alma pode ler noutra alma como num livro e ver o que não é perceptível aos olhos corporais.(**)"

        - É  por isso que não podemos esconder nada de Deus e nem dos Espíritos superiores,  disse Augusto.

        - Isso mesmo,  tudo fica registrado no nosso perispírito. Os espíritos desencarnados podem visualizar nossos pensamentos e perceber quais são as nossas intenções, até os encarnados, que são médiuns videntes,  podem visualizar alguma coisa, se Deus permitir.

        Neste mesmo instante,  o Evangelizador olhou para o relógio e viu que tinha acabado o tempo.  Então,  avisou a todos e  iniciou a prece de encerramento.

        Ricardo foi embora com o seu coração cheio de esperança e o seu semblante antes carregado e taciturno, iluminou-se de uma nova alegria.

(Fabiana F. Freitas. Baseada no livro *"Dramas da Obsessão" de Yvonne Pereira - Capítulo 1 e no livro**  "Obras póstumas" de Allan Kardec - tema "Fotografia e telegrafia do pensamento").