A dúvida de Rique

Aquela noite prometia ser muito interessante.

A família de Julinho - papai, mamãe, Verinha, o pequeno Ricardo e vovó Helena - espíritas que eram, tinham o feliz costume de se reunirem, nas noites de quartas-feiras, para estudarem o Evangelho de Jesus. E naquela reunião o tema a ser comentado era “o céu e o inferno”, na visão espírita.

Desocupada a mesa das vasilhas do lanche, Verinha colocou copos com água para todos, enquanto mamãe providenciava os livros.

Papai fez a prece inicial, e após pequena leitura de uma pergunta de “O Livro dos Espíritos”, todos começaram a comentar o assunto, dando suas opiniões. Até que o Rique (este era o apelido de Ricardo) exclamou:

- Eu tenho medo de morrer e ir para o inferno! Outro dia D.Antonieta, nossa vizinha, disse que eu era um verdadeiro “capetinha”...

Todos sorriram ante a espontânea confissão do garoto, e Julinho comentou:

- Ih, Rique, não fique preocupado... Certamente a D.Antonieta falou assim porque você deve ter “aprontando” alguma, e meninos arteiros costumam ser chamados de capetinhas, pestinhas, e outras palavras com o mesmo sentido.

- Além do mais - atalhou Verinha, com gestos muito engraçados - a gente não mooooooooooore; a gente desencarna!

Todos sorriram mais uma vez, enquanto Rique suspirava, aliviado.

Foi quando vovó falou:

- Vou contar uma história, e você, Rique, vai entender bem o que sejam o céu e o inferno.

Era uma vez um homem muito preocupado com o futuro. Cuidava de viver bem o presente, mas queria também garantir que não fossem ruins os dias que teria pela frente, mesmo após sua desencarnação.

Resolveu, então, procurar um senhor bem velhinho,tido como sábio, para pedir conselho.

- Que é um sábio? – indagou Rique.

- É alguém que tem muitos conhecimentos, que sabe muitas coisas! –se apressou a esclarecer Verinha, que estava inspirada naquela noite!

- Velho sábio – disse o homem – gostaria de saber o que devo fazer para ir para o céu quando desencarnar...

- O que você acha que seja o céu, meu filho? – perguntou o ancião.

- Ah,o céu deve ser um lugar onde as pessoas estão sempre bem, alegres, felizes...

- Pois bem – continuou o bom velhinho – imagine sua casa em um dia de festa; em seu aniversário, por exemplo. Que se passa lá?

- Ah,velho sábio, no dia de meu aniversário tudo é alegria! Os amigos chegam para me cumprimentar, todos gentis e bondosos; eu procuro arrumar a casa para recebê-los, ofereço bolo e sucos, pois quero que todos estejam felizes comigo!

- E na sua casa, meu filho – continuou o sábio – às vezes acontecem brigas?

Cabisbaixo, revelando profunda tristeza, o homem respondeu:

- Ah,meu bom ancião, e como acontecem! ... São momentos de grande tristeza... As pessoas ficam nervosas, dizem coisas das quais irão se arrepender, e até ensaiam agressões... E, se guardam ressentimentos, aquele clima de tristeza e dor custa a passar, deixando os envolvidos em sofrimento e angústia...

- Você acabou de me apresentar, meu filho – conclui o ancião – o céu e o inferno.

Embora a casa seja a mesma, o que ocorre dentro dela é que vai torná-la um lugar mais feliz, ou menos feliz. No primeiro caso (o aniversário) sua casa era o céu; já no segundo (a briga), ali estava o inferno.

Isto acontece sempre, estejamos encarnados ou desencarnados. Céu e inferno são os nossos sentimentos, nossas emoções, o que trazemos dentro de nós, conforme estejamos vinculados ao bem –céu, ou o mal – inferno. As pessoas ligadas ao bem, as que desenvolvem dentro de si os melhores sentimentos estarão sempre no “céu”, enquanto aquelas que se voltam para o mal, viverão em um verdadeiro “inferno”, até que se resolvam a endireitar os caminhos, a se melhorarem, porque todos fomos criados para sermos felizes; depende de nossa vontade vencermos o mal e nos integrarmos ao bem.

(Fonte:  AME-JF)