Francisco de Assis

            O nosso companheiro Miramez(1) escolheu alguns acontecimentos ocorridos com o Poverello de Assis, em uma sequência de quarenta e quatro anos e que foram quarenta e quatro anos de caridade, vividos no seio da humanidade, esta humanidade que ignorou a grandeza desta alma de esferas distantes, Espírito destinado a deixar um traço de união entre todos os seres que vivem e todas as organizações políticas e religiosas.

            (...) O Cristo operava no mundo pelas mãos desse Anjo de Deus, confortando os doentes, curando os enfermos, instruindo os ignorantes, fartando os famintos e vestindo os nus.(Prefácio)

            Francisco de Assis desceu à Terra em meio de enorme e terrível carnificina. A Idade Média fazia do mundo um palco nefando de ódio e de vingança. Depois de mil anos de cristianismo, foram abertas as portas das trevas, e ela foi tumultuada pelos agentes das sombras; contudo, Deus, em Sua divina programação, não esquecera das devidas proteções.

            (...) Aqui nos referimos às Cruzadas e, principalmente, àquelas em que sucumbiram mais de quatrocentas mil crianças, Espíritos esses que, mesmos em corpos de inocentes, eram velhos devedores perante as leis divinas e que, levados pelas trevas, foram passados a fio de espada.

            (...) Foram as Cruzadas o embalo execrável das trevas, como advento da Inquisição, e João Evangelista, como vigilante da Espiritualidade Maior, regressou como Francisco de Assis, com a missão sagrada de aliviar, por misericórdia, o fardo pesado que estava sendo imposto pelas Cruzadas aos ombros dos homens.

            (...) A França foi o berço onde se fermentaram as ideias mais nefastas da Terra. Foi lá que as trevas acharam ambiente para se estabelecerem, usando como médium um homem que não deveria ser esse instrumento, por se intitular Pastor de Almas. Diante da multidão, em outubro de 1095, no Concílio de Clermont, o Papa Urbano II, inspirado pelos agentes das trevas, deu o grito de guerra contra os turcos: deveriam matar os muçulmanos, em defesa do Santo Sepulcro.

            (...)Nesse dia foi fundada a primeira Cruzada, o movimento que tomou corpo, como sempre acontece com as coisas inferiores, e foi palco de morte e sacrifício para quase um milhão de pessoas. E as trevas, temendo que as cruzadas acabassem, organizaram no século seguinte, movimento semelhante, disfarçado com outro nome, porém, movimentado pela mesma falange de Espíritos sanguinários, verdadeiros vampiros da Idade Média.

            (...)Foi na Itália, no papado de Lúcio III, que se lançaram as bases da Inquisição, no Concílio de Verona, em 1184, para depois se criarem na França os tribunais do Santo Ofício, no ano de 1233, sob a influência de Gregório IX. Esse movimento ceifou vidas e mais vidas no mundo inteiro, sem piedade, fazendo desaparecer o amor na própria religião.

            (...)Esses movimentos foram estimulados pelas forças das trevas, que ficaram anuladas por mil anos, como se refere o Apocalipse, mostrando Satanás, simbolizado com uma legião de Espíritos que, soltos, desceram à Terra pelo processo da reencarnação, tomando os pontos estratégicos de comando, nos palácios e na religião, e mostrando o que realmente eram, em se falando dos sentimentos mais lúgubres que a Terra pôde conhecer. Todavia, Deus, na Sua bondade infinita, não Se esquece de Seus filhos, e sempre os atende com Amor. Envia milhares e milhares de Anjos à Terra, para aliviar o carma coletivo, dentre os quais destacamos duas falanges que desceram ao planeta: uma sob a direção de Francisco de Assis, no sentido de tomar conhecido pelo exemplo, o Amor e a Humildade, o Perdão e a Simplicidade, influenciando igualmente o alto escalão do clero romano, para o retomo do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; a outra, sob a direção de Domingos de Gusmão que, pela sua eloquência e por dominar vários idiomas inclusive o Languedoc * -, recebeu a incumbência do Papa Inocêncio III de combater os hereges.

            (...)Estamos descrevendo apenas alguns detalhes, somente para mostrar, por prismas mais leves, o que foram as Cruzadas, e como nasceram os oito gritos infernais que abalaram o mundo. Foram duzentos anos de lutas terríveis, e quase cem de fermentação de ódio e vingança, cuja sequência foi a Inquisição com os mesmos Espíritos já mais brandos, porque pela lei de Deus não há regressão.

            (...)Um nefasto príncipe negro, com o nome de Torquemada, surge na história da Espanha, patrocinado pelas cruzadas do astral inferior, compactuado com milhares de outros da sua estirpe, para dar sequência às Cruzadas na Terra. Foi ele um curto-circuito nos fios da vida, principalmente dos espanhóis.

            (...)No ano de 1420, abre os olhos nas terras de Espanha esse agente das trevas, para presidir os tribunais das sombras e julgar os hereges, que eram os seus próprios companheiros da antiga cidade A Cruzada. Em contraposição, em 1412, na cidade francesa de Domremy, para que o sofrimento não pesasse demasiadamente nos ombros dos sofredores, os Céus se abriram e desceu uma estrela em forma de mulher, com o nome de Joana D 'Are. Foi ela vítima de todos os tipos de sofrimento, nas asquerosas mãos dos inquisidores inescrupulosos: foi vilipendiada, cuspida, maltratada e encarcerada. (...)Foi retalhada como se fosse um animal no açougue, foi vendida por cem francos, como acontecera ao Cristo pelas mãos de Judas.

            (...)Foi interrogada pelos mais brutos representantes das sombras, e em todos os diálogos os vencia com a maior simplicidade, nunca negando seu ideal, dizendo que era enviada de Deus e que conversava com Anjos e Santos, que ouvia vozes da parte do Cristo, que ensinava a doutrina da Serenidade, da Moral, da Verdade e da Paz. (...) Enfim, o seu destino foi a fogueira.

            (...) Joana fez tremer os alicerces da escuridão consciencial dos inquisidores, o que aliviou um pouco a severidade nos tribunais. (...)Nenhum dos Espíritos de alta categoria vem ao mundo para tirar todo o sofrimento da humanidade.

            (...)Torquemada, o tentáculo negro do Santo Ofício, estende sua nefasta influência também a Portugal, e cria tribunais nas mais eminentes cidades da nação. (...)Em todos os departamentos do Estado era feito levantamento completo, cadastrando todos os filhos da Nação, para saber onde se escondiam os hereges, as pessoas de ideologias diferentes da que apresentava a religião oficial. (...)Quase trinta mil pessoas eram queimadas em fogueiras; mulheres, torturadas em praça pública ou mortas nos porões infectos, outros, enforcados, a maior parte, refugiada e inúmeros que se achavam soltos, nada mais poderiam fazer na vida, pois lhes faltavam os órgãos mais indispensáveis. Tanto na Espanha, quanto em Portugal, as orelhas e línguas cortadas diariamente enchiam balaios e eram atirados aos cães, já viciados nesse alimento incomum.

            (...)Em compensação, no decorrer de três séculos a nação lusa teve instantes de alívio quando, pela fé de seu povo, a crença em Antônio de Pádua aumentava cada vez mais, principalmente na capital, a ponto de ter ele passado a ser chamado de Antônio de Lisboa.

            (...) Do início das Cruzadas até a Santa Inquisição, desta à escravidão, e até os nossos dias, são igualmente mil anos em que Satanás há de ficar solto, numa refrega de que fazem parte bilhões de Espíritos. E dessa jornada extravagante, quantos entenderam que o melhor caminho é o do Amor? Muitos, no entanto, milhares deles, ou talvez a maior parte, terão que desocupar a casa como inquilinos que não pagaram o aluguel. Serão despejados para casas piores; como negociantes que não recolheram tributo ao governo, terão seladas as suas portas. (...)E no raiar do terceiro milênio, os arrependidos ficarão para herdar a Terra, onde vai haver paz, tranquilidade e trabalho suavemente feliz.

            (...)A escravidão, no Brasil, foi a Inquisição já aliviada, que sobrou para a vigilância dessa nação, para que ela desse o exemplo de que todos têm o direito de liberdade, mostrando que todos somos filhos da mesma massa e herdeiros do mesmo Pai Celestial. (...) Dentre eles havia muitos Espíritos que vieram do alto escalão terreno e que logo aprenderam a lição de humildade, no corpo de um preto velho ou de uma ama de leite.

            (...)Quando os desbravadores dos mares chegaram à Terra hoje conhecida como Brasil, Francisco de Assis já tinha vindo à frente, em companhia do Divino Mestre, o que foi constatado por certos índios dotados de vidência, que tiveram a graça de observar na primeira missa celebrada nas Terras de Santa Cruz, a presença de ambos. (Francisco de Assis.Cap. 2. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            O vidente de Patmos paira nos céus de Roma. Contempla o palco da história dos primeiros cristãos, ali sacrificados pela causa do Evangelho. Sente o pulsar dos pensamentos da massa, no vai-e-vem apressado das mas, com as criaturas envoltas em inúmeros problemas a turvar-lhes as ideias... Roma estava, de certa maneira, agitada, pois cinco anos antes o papa, em Concilio na França, havia dado o grito de guerra contra os muçulmanos, que certamente haveriam de responder na mesma tonalidade: Violência... Violência...

            (...) O grande discípulo do Cristo, em espírito, visita todos os bairros da metrópole. Desce mais um pouco, e pisa no chão qual os encamados, andando nas mas, respirando a pesada atmosfera da Cidade Eterna. Mais parecia ser o Sol visitando a Terra em dia brumoso, mal refletindo seus lindos raios dourados. Entra no Senado de Roma. Sente todos os ideais dos homens da lei, escuta a fala de alguns, incluindo em seus inflamados discursos a mais jovem de todas as guerras, fabricada pela cúpula clerical: as Cruzadas. Nelas estava sua maior missão, a de abrandar o fogo que começara a devastar o mundo.

            (...) João Evangelista desce em Assis. Anda nas suas desajeitadas mas, analisa as almas dos dois planos, que transitam sem se perceberem umas às outras. Ali deveria nascer, bastando-lhe escolher o lugar e a família. (...) O velho discípulo do Cristo estava na Terra para vestir novamente o fardo a carne e servir à humanidade. Assis lhe emprestaria um panorama agradável. Era uma província de Perúsia(4), na região da Úmbria, onde o comércio era sobremodo avolumado, atraindo a atenção dos grandes comerciantes do país. Não era de se assombrar, se os turistas encontravam ali objetos procedentes da Grécia, da Pérsia, Fenícia, do Egito, bem como amuletos de todas as procedências, decorações da Síria, tecidos da Ásia Menor e bebidas de variadas origens. Era ali, onde se encontrava abastado comerciante com a sua jovem família, em luxuosa mansão, o berço em que deveria nascer uma estrela, deslocada da grande constelação cristã no país da luz, que receberia o nome de FRANCISCO.

            Pedro Bernardone, alto comerciante de Assis, não saberia que um astro, por misericórdia de Deus, viria habitar em seu lar, talvez lhe trazendo aparentes contrariedades, pois a sua missão diferia completamente da de um comerciante, cujo raciocínio era somente a barganha das coisas materiais, para que estas se multiplicassem. Seu futuro filho traria outra missão frente ao mundo conturbado e materialista, condenado e suspeito.

            (...)Quase toda a Eurásia se encontrava conturbada, no princípio do século XII. As Cruzadas não davam tréguas, dos reis aos príncipes, dos monarcas aos imperadores, das crianças às mulheres, dos homens do campo aos das cidades, dos fiéis aos sacerdotes, e mesmo ao Papa. Para se aquilatar a grande catástrofe, eram esperados, na primeira convocação dos cruzados, um milhão de fiéis, de todas as classes e de todas as origens; no entanto, atingiu-se o absurdo de dois milhões de guerreiros provindos de muitos países. Os nobres desembainharam as espadas, e se alistaram para as frentes de combate. E, desses milhões de almas, restaram, ao final, uma migalha de trinta mil cruzados, nadando em rios de sangue. Com os pés no chão, o rubro líquido de vida ia até os tornozelos, numa fictícia vitória -eram trevas contra trevas, sob a vigilância da luz!... A Terra era um verdadeiro palco de morte, da chamada Guerra Santa, de religião contra religião, de princípios contra princípios. Parecia que as coisas santas haviam sido dadas aos cães, como nos adverte o Evangelho.

            Todavia, enquanto a ignorância domina, invertem-se temporariamente as situações e o regime dos fatos e das coisas, até o limite de peso do fardo programado pelo carma coletivo e pelos processos evolutivos de cada criatura. A palavra basta é sempre dita pela Inteligência Suprema, nos moldes que achar mais conveniente, e, para tanto, de vez em quando descem grandes almas ao mundo, com sérios compromissos de aliviar os sofrimentos da coletividade. E eis que chegou esse momento naquela fase da história dos homens! No alto escalão espiritual, em Roma, ocorre uma reunião, presidida por um ser de singular beleza, e de equidade deslumbrante. Se assim poderemos dizer, um Anjo, que passaremos a chamar de Celline. Para o conclave espiritual, foram convocados Espíritos de alta responsabilidade, da França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Portugal e algumas Personalidades do Oriente, como todos os diretores espirituais das cidades desses Países. Ali estavam concentrados os valores de cada região, para conhecerem por ser verdadeiras, o que estaria acontecendo na atmosfera da Terra, prestes a se realizar em favor de todos os homens. O Evangelho de Jesus seria aberto, lido e vivido por almas dignificadas no Amor. (...) Ali se reuniram para tomar as providências correspondentes ao amparo dos duzentos e um, das duas centenas de astros que iriam girar em tomo de uma estrela, em favor dos homens, pela Paz e pelo Amor.Depois de sentida prece, Celline tomou a palavra:

            - Que Deus e Jesus nos abençoem nas nossas lutas!

            (...) Continuou Celline:

            - Meus filhos, é com grande prazer que anuncio a descida à Terra de duzentos e um Espíritos, em missão especial, sendo o coordenador desta expedição o venerável João Evangelista. E para nossa maior alegria, ele vai renascer aqui na Itália, na região central deste país, em Assis! (Francisco de Assis.Cap. 6. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...) Assis começou a ser visitada por muitas caravanas espirituais da Europa, Ásia e África, bem como de outros lugares, que tiveram conhecimento da presença do discípulo do Amor, na atmosfera da Terra.

            (...)Pedro Bernardone entra e sai várias vezes da sua grande mansão, onde o mármore colorido era a tônica do luxo reinante que lhe garantia a posição social, não somente de Assis, como também em Roma.

            (...) A França era o centro comercial da Europa mais visitado pelo rico comerciante de Assis; tanto levava finos tecidos, quanto trazia diversos objetos, ganhando transporte e duplicando o ganho.

            (...) O espírito João Evangelista escolhera aquele lar para renascer, não por causa do luxo, mas por estar ali um conjunto de almas que lhe tinham sido caras em épocas recuadas da história.

            (...) João já frequentava o lar dos Bernardone, familiarizando-se com todas as pessoas, desde os mais simples encarregados de limpeza aos mais graduados, na alta confiança do comerciante. Parecia que a casa se tomara mais saudável, com atmosfera mais agradável e mais hospitaleira, multiplicando-se as visitas dos amigos, compadres e mesmo de turistas mercadores.

            João costumava reunir-se com as caravanas espirituais que iam visitá-lo, no ambiente da própria casa do rico comerciante. Quando partiam, desculpava-se pelo ambiente requintado, explicando que aquele amontoado de coisas fazia parte da sua renúncia no futuro e que, enfim, tudo é útil aos propósitos do bem comum. (Francisco de Assis.Cap. 7. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            Enquanto o mundo cristão cantava hosanas, relembrando o momento histórico da vinda do Messias à Terra, o profeta de Patmos aproveitava o ambiente sublimado de paz, para ingressar na carne por intermédio da lei da reencarnação. E os duzentos discípulos adestrados nos mais requintados conceitos evangélicos, desciam igualmente das altas esferas em direção a vários pontos do globo, para também renascerem, com fidelidade total ao seu mestre.

            Pedro Bemardone, certa noite, teve um sonho que ficou gravado com absoluta nitidez em sua consciência. Em estado sonambúlico e com ajuda espiritual, regrediu no tempo e no espaço, e relembrou sua reencarnação em Efeso, na época em que João Evangelista mudara de nome (para Francisco), por conselho dos soldados romanos, por ter sido salvo da tacha de azeite quente. Naquela última noite em que falara na Igreja de Efeso, despedindo-se da vida física, curou uma multidão de doentes, inclusive leprosos. Pedro Bemardone era um dos leprosos curados por Pai Francisco, e, eternamente agradecido, tomou-o por um deus ingressado na carne para salvação dos homens. O fato assinalou sobremaneira sua gratidão por esse Espírito e os mentores espirituais que o fizeram regredir, deixaram bem aflorada na sua consciência esta dívida para com João, de sorte que ele sentisse, por direito e justiça, o dever de abrir os braços àquele que viria ao mundo pelos canais físicos da família Bemardone.

            Pedro Bemardone não se esquecia de Pai Francisco depois deste sonho, guardado em segredo por medo, pois se sentiu no corpo chagoso e fétido pela morféia. No entanto, o nome de seu benfeitor ficara gravado no coração, com o maior respeito. E sempre dizia de si para consigo:

            - Se porventura alguém vier a me chamar de pai, este alguém se chamará Francisco. E uma promessa que faço aos deuses que me ouvem! E, se eu pudesse escolher seu destino, queria que fosse um grande guerreiro, para conquistar terras, atravessar mares, ser famoso e ficar na história dentre os grandes da nossa querida Pátria! (Francisco de Assis.Cap. 8. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)O calendário marcava 26 de setembro de 1182. O dia amanhecera mostrando límpido céu azul e o sol concedia seus raios nascentes, em diáfana claridade. (...) Nascia Francisco, como Jesus, na pureza da natureza e na companhia singela dos animais. (...)E Maria Picallini recebeu o seu filho das mãos de Jarla(2), como o maior prêmio que a vida lhe conferiu, nos horizontes da Terra, cobrindo o seu rostinho de beijos de toda natureza. (...) E falou com a maior ternura que uma mãe feliz possa expressar:

            - O nome dele é JOÃO...

            Quando seu filho nasceu, Pedro Bernardone estava viajando, em função de seu entusiasmo, que não se arrefecia, diante do ouro que já possuía. Ao saber da notícia, explodiu de contentamento, já com velhos cálculos envernizados para o destino do seu filho. Queria educá-lo, mas acima da educação, instruí-lo acerca da economia. Fazê-lo nobre, mas que a sua nobreza fosse assegurada pelo ouro, para não se desfazer. Quando soube que seu filho nascera na estrebaria, contraiu o semblante, pedindo explicações, falando à Pica:

            - Quem te deu essa ideia de sair para a cocheira de animais, em estado que pedia cuidados mais acentuados? (...) O que o povo vai falar, quando souber dessa loucura? O filho de Pedro Bernardone, alto comerciante de Assis, senão da Itália, mercador dos mais categorizados, nasceu no meio de animais!? Isto é uma loucura!...

            (...) A Senhora Bernardone explicou delicadamente que naquela hora sentiu uma vontade irresistível, sem que pudesse dominar, e foi preciso que assim intercedesse para por termo à tormenta mental. E acrescentou:

            - Parecia, Pedro, que o menino queria nascer lá, como ocorreu com Nosso Senhor Jesus Cristo, isso não é uma honra para o nosso filho e para nós?

            (...)O afoito comerciante ia-se virando nos calcanhares, quando a voz branda de Pica se fez ouvir:

- Pedro querido, quero participar-te o nome do nosso filho, e sentiria a maior satisfação se aprovasses o que escolhi! Tive vários sonhos com ele, antes de seu nascimento, e o seu nome era João.

            (...)Pedro, inquieto, corou na mesma hora, dizendo:

            - Não posso concordar que o nosso filho se chame João!... Não me peça o impossível!... Tenho um compromisso moral, de muito tempo, que de certa maneira está ligado a sonho. Eu me vi enfermo de doença incurável, e um Anjo de nome Pai Francisco impôs as mãos sobre meu corpo tomado pelas chagas, e instantaneamente senti-me curado, pela graça dos deuses. E quando acordei, cheio de pavor, comprometi-me comigo mesmo que, se algum dia tivesse um filho, ele tomaria o nome de Francisco. E este é o seu nome! Desculpe-me!... Mas este é o seu nome, que seja no céu, que seja na Terra!

            A mulher do rico comerciante, tristonha, silenciou, sem dar uma palavra. Jarla tentou interferir, mas Pedro a interrompeu:

            - Obedece aos meus direitos de pai da criança!... Não me peças o impossível. Já firmei na consciência esse nome, e ele, este bravo guerreiro se chamará FRANCISCO. (Francisco de Assis.Cap. 10. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Como um Anjo em estado de repouso, Francisco, nos primeiros anos, obedecia mais ao comando mental de sua mãe, e recebia alguma influência de Jarla. E certo que a proteção espiritual estava vigilante, mas somente entrava em ação quando os fatos pudessem prejudicar a missão do grande discípulo do Divino

            Mestre, que se empenhava conscientemente em seu próprio favor, sem, entretanto esquecer-se de obedecer às leis físicas, para a sua própria harmonia.

            Dos sete aos catorze anos, a mente do pai passou a intervir mais, dividindo as influências. Dessa fase à maioridade, o pai assumiu a liderança e, daí em diante como Espírito superior, ninguém o segurava.

            (...)Era notório, na mansuetude dos primeiros anos de Francisco, o reflexo da sua genitora. A seguir, apresentavam alguns impulsos de seu pai, viajando com este para muitos lugares, conhecendo cidades famosas, e participando com ele do conforto e da fama. O rico comerciante de Assis estava eufórico, alimentando, no coração, a certeza de que Francisco, de fato, herdara as suas proezas de hábil permutador dos bens terrenos, na multiplicação do ouro e da prata.

            (...)Francisco era Espírito livre, desconhecendo, desde criança, força que não pudesse dominar. Tinha ideias que se comparavam, de certo modo, com as das antigas dinastias do velho Egito, da Babilônia e da Assíria. Era, por natureza, um poeta das estrelas e, de vez em quando, seu pai o surpreendia fitando-as, a "mastigar" uma filosofia que somente o coração entende. Encantava-se com os pássaros, e admirava os peixes e as árvores. Logo cedeu aos convites de seus colegas da mesma idade, e se fez um grande seresteiro nas ruas de Assis. A sua fama fê-lo visitar outras cidades vizinhas, para cantarolar nas ruas, no silêncio das madrugadas. (...)A bebida, que não lhe tomava os sentimentos, era simples complemento da alegria. As conversações que travava com os seus colegas eram de alto teor, tanto que todos o adoravam, e quando Francisco não aparecia, tornava-se noite para todos os seus companheiros, fugindo-lhes a alegria. O campo era o lugar mais apreciado por ele, onde gostava de fazer excursões a cavalo, nos dias de folga. Contava histórias que lhe vinham à mente e alegrava-se em ouvi-las dos que faziam o mesmo. Achava na juventude o ambiente integrado na liberdade que tanto amava. Ser livre era o ideal do seu coração.

            Francisco crescera dentro de invejável tranquilidade, cercado de todos os carinhos de sua mãe, de Jarla, do cuidado de seu pai, e de todos os serviçais, entre os quais, pela sua fraternidade, granjeara muitos amigos.

            (...) Ali estava o Apóstolo João em sua nova missão na Terra, não totalmente integrado em si mesmo, mas a esperar o tempo, a esperar a ordem da Divina Providência.

            (...) Certa feita, o pai começou a aborrecer- se com ele, percebendo o modo como tratava os empregados e o cunho de sinceridade que demonstrava aos fregueses. Chamou-o à ordem, querendo demonstrar-lhe que a verdade comercial é diferente da verdade do coração, sendo uma incompatível com a outra. Se assim continuasse, se arriscaria a prejudicar a posição financeira que desfrutavam em Assis e em toda a Itália.

            (...) O rapaz ouviu silenciosamente, sem que o seu íntimo participasse das ideias do pai. (...)Tivera oportunidade de conhecer, junto ao pai, cidades e países onde o roubo e a mentira eram frequentes e o fingimento, o sinal mais evidente do bom comerciante. Aparentemente, ainda tolerava alguma coisa, mas, no íntimo, não suportava a podridão que fermentava dentro da cabeça dos homens, incluindo seu próprio pai.

            Sendo difícil para ele conviver com aquele estado de coisas, tinha ímpetos de renunciar e partir da própria casa onde morava.(Francisco de Assis.Cap. 11. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            Os fatos espirituais exerciam sobre ele grande influência tanto gostava das histórias de Jesus que sua mãe e Jarla contavam, como sentia uma saudade atávica da época do Mestre, como se tivesse participado intimamente de todos os detalhes de sua vida.

            (...)A sua mente era um fulcro de ideias intermináveis; parecia um desfile constante de pensamentos, entre os quais ele escolhia os mais agradáveis, os que mais se coadunassem com os seus sentimentos. Notava-se uma claridade diferente e torno dele; (...)Naquela hora, ele estava encontrando com Deus. Pondo-se de joelhos, falou com benevolência:

            - Pai Celestial!... Sinto que nasci para alguma coisa, nesta Terra abençoada Sou como ave solitária, que o cansaço fez descer nesta região. A cidade de Assis acolheu-me com carinho e nesta mansão desfruto do luxo; o ouro convida-me extravagâncias, que meu coração desaprova, intentando convencer-me de que o meu caminho é diferente, e que devo fazer alguma coisa em favor dos surdos e cegos que andam comigo...

            Pai de todas as coisas!... Que devo fazer? Onde devo pisar? Que de comer? Qual deve ser a minha maior preocupação? Alivia, meu Deus, esta guerra que eclodiu na minha frágil mente. Eu quero a paz! Força poderosa do Universo! Rogo que me compreendas. Ao ver a injustiça, sinto-me impulsionado para a defesa. Ao ver a violência, principalmente contra os indefesos, desejo posicionar-me em seu favor. Ante a mentira, sinto que se aviva em mim a chama da Verdade, ainda que seu preço seja elevado para mim. Dá-me condições, meu Deus, para instalar a paz onde houver guerra, o amor onde houver ódio, a concórdia onde houver discussão, a fé onde houver dúvida, e o trabalho onde houver inércia! Eu quero ser útil, bom e agradável...

            (...)Francisco estava inundado de luz! (...)Quem visse seu corpo naquela hora, mal o distinguiria, pela profusão de luzes que o cercava, provindas de fora e nascidas de dentro. Era o encontro do Mestre com o discípulo. O jovem escutava com serenidade, dentro de si:

            Francisco!...Sê dócil, meu filho, aos teus irmãos!... Ajuda-os sem os violentar, e compreende, sem exagero, que o trabalho é demorado. (...)

            A Igreja precisa do teu trabalho, da tua vivência e do teu sacrifício, não para reformá-la de uma só vez, mas para fazê-los com continuados exemplos e a ajuda de milhares de trabalhadores. Eis que estás no mundo para essa batalha, que, de certo modo, tem um preço muito alto. Deves empenhar a má vida na construção de uma vida nova e não deves carregar nos teus alforjes, nem prata nem ouro! (...)Podes fazer muito, se interpretares fielmente o chamado de Deus.

            (...)Aquela voz suave e grave, meiga e ao mesmo tempo enérgica, branda e atrativa, de um poder sem limites, introjetou no campo mental de Francisco todo o arsenal doutrinário das instâncias de luz.

            (...)Operavam-se em Francisco grandes mudanças. O pai já estava preocupado com ele, que por vários dias de nada cuidara, somente andando, conversando com servos e empregados, não dando atenção, como antes, às ordens de Pedro Bemardone. Despertava-se nele a sua real personalidade, bem como a conscientização do que deveria fazer. Era como se outro Francisco estivesse surgindo...(Francisco de Assis.Cap. 13. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...) Francisco ganhara, há anos atrás, um Evangelho. E tanto se afeiçoara a ele, que dele não se separava nem para dormir. Era seu companheiro de todas as horas, folheava-o sempre que tinha oportunidade, consultava-o em todas as suas dificuldades, e a intuição se fazia como por encanto; interpretava os textos, como se estivesse na época em que eles foram ditos. E na verdade esteve, porquanto ajudara a escrevê-lo como João Evangelista, dando os últimos retoques na maior obra de todos os tempos.

            Maria Picallini e Jarla, juntamente com Foli (3), tinham saído para um curto passeio. Pedro Bernardone estava descansando, porque era uma tarde de domingo. Francisco foi entrando na mansão, pensativo... Cumprimentou o pai, disfarçando a tristeza:

            - Boa tarde, papai; como vai o senhor?

            - Vou bem, filho!... Quero muito falar-te e não posso esperar mais. Estou aqui há horas, à tua espera.

            - Desculpa-me, papai, não sabia...

            - Olha, Francisco, não estou compreendendo o modo pelo qual tu estás te conduzindo; a tua mudança me estranha. Parece que não te interessas mais pelo comércio, como dantes. Viajas por muitos lugares sem que eu saiba o que estás fazendo. Isso me preocupa sobremodo. Conversas constantemente com os servos, deixando transparecer alegria e bondade. Ficas horas afio dialogando com capatazes, com mulheres e por vezes crianças, sem que eles respeitem a tua posição de nobre. Tenho grande esperança no teu futuro, e dele não posso descuidar, para que a ma ente não seja deturpada com falsa visão da realidade. Cismo com tua frequência unto aos servos e certos tipos que se dizem filósofos, que amam mais a preguiça do que o trabalho. Como teu pai, peço-te que te afastes desses tipos imundos. Eles vieram ao mundo, meu filho, para nos servir, qual os bois, os cavalos, os cães... Se te compadeceres exageradamente do sofrimento desses homens, nivelar-te-ás com eles e acabarás sendo um deles...

            (...)Pedro Bemardone continuou:

            - Quero também que saibas de uma coisa com bastante urgência: não podes dar a qualquer pessoa algo do que nos pertence, sem a minha ordem; ainda estou vivo, e, essa linha de conduta, é bom que apliques igualmente, no futuro aos teus filhos, se os tiveres...

            (...)Francisco ouvia tudo pacientemente...

            - Saiba que ouvi toda a tua conversa com aquele miserável feitor. Gustavo vai pagar pela ousadia de desmoralizar-me diante de ti, de querer atear fogo nas minhas mercadorias, e de instigar os servos contra mim!... Já dei ordens aos me fiéis servidores para darem sumiço naquele cão, o que servirá de exemplo para que aprendam a respeitar o patrimônio alheio!

            O filho de Pedro Bernardone quis levantar e protestar veementemente contra as ideias do pai, no entanto, o bom senso fê-lo quieto...

            (...)Pedro começou a alterar a palavra, dizendo:

            - Meu filho! E bom que aprendas a obediência, sem que eu use a violência; que aprendas o trabalho, do modo que requerem as nossas condições, sem que eu te imponha este dever. Que mudes a tua conduta diante dos servos, sem que eu te ensine pela força! Pelo que vejo, estás faltando com o respeito às minhas ordens, e se isso continuar, não sei o que pode ser do teu destino, como filho de Pedro Bernardone, o mais bem colocado negociante de Assis, senão da península...

            (...)Pedro jogou-se em um confortável triclínio e esperou a fala do filho. Os seus nervos saltavam, como que eletrizados pela consciência. Seu coração se mostrava alterado dentro do peito. Francisco, pressentindo o desespero do pai, argumentou com brandura:

            - Papai, estou encontrando dificuldades para começar a responder-te; não obstante, confio na Providência Divina. Deves saber que não sou mais criança. Sinto liberdade gritar dentro de mim, impondo-me condições absolutamente certas. (...)Se for preciso dizer-te adeus para cumprir o meu dever, eu o farei!... Não que eu queira esquecer-te, mas para cumprir o destino que me foi traçado pela Divindade!... Para mim, são sagrados os laços de família, entretanto, os laços com a Verdade o são muito mais. Acho que o homem nobre, consoante conceituas a nobreza, nem sempre faz o que quer, mas sim a vontade d'Aquele que está nos céus.

            - (...)Deves lembrar-te, em primeiro lugar, de colocar-te no lugar de Gustavo quem deste ordens de eliminar, sem pensar nas consequências, porque ele não suporta mais as tuas maldades. Pretendes com isso tirar o pai de uma família, porque não tens sentimentos. Os meninos passarão fome, a mãe desorientada talvez enlouqueça e os filhos seguirão rumos diferentes, entregues a todo tipo de infortúnio... Por que? Pela tua prepotência, o teu orgulho ferido e tua vingança!... Se continuares assim. Talvez eu não queira mais ser teu filho, porque essa é uma vergonha que devo esquecer; sou sim, filho de Deus, e quero herdar, mas de Jesus Cristo...

            Francisco respirou profundamente, deu uma volta em tomo do pai, e argumentou sem cansaço:

            - (...) Não quero que libertes os cativos, mas sim, que os trates com mais humanidade. Minha mãe e Jarla são um exemplo de virtude. Por que não procuras um tempinho para ouvi-las? Seria isso para ti, um grande tesouro, senão uma luz que espalharia as trevas da ganância que te envolve. Francisco silenciou-se... Pedro Bernardone saiu do afogo, balançou a cabeça e, como que jogando fora as ideias do filho, berrou estentoricamente:

            - Cala-te!... Cala-te, Francisco!... Senão te parto ao meio!

            O rapaz olhou para ele compassivamente, dizendo: - Vou calar-me, papai, não por medo, mas por já ter terminado o assunto!

            O pai avançou em sua direção e esbofeteou o seu rosto várias vezes, mas o filho somente derramou lágrimas de compaixão. E saiu pisando duro em demanda de seus colegas de usura, que já o esperavam para uma reunião, que se dava todos os domingos à noite.

            Francisco se deitara pensando no seu destino. Desde menino, tinha admiração pelas histórias que ouvira sobre o grande Caio César e sobre Carlos Magno. Deixava desfilar em sua mente essas personagens guerreiras, mas ao mesmo tempo, humanas. Pensava, já que não podia ser útil no próprio lar e ajudar seu pai poderia ajudar sua terra natal, que entrara em guerra com a Perúsia. Um homem pode ser útil também na guerra, defendendo a região à qual pertence. Quem sabe deveria ser, mais tarde, um grande general? Mas, pegar na espada para matar? Isso era contrário ao seu modo de sentir as coisas; contudo, não tinha outra saída, não poderia ficar parado, maltratado por seu pai, que não compreendera seus ideais. Poderia, com a sua ida à frente de batalha, ganhar nome, e, pela fama, defender os sofredores, aliviar os cativos, e até matar a fome dos necessitados. Estava resolvido: iria alistar-se na cavalaria. Iria como nobre, para defender a nobreza de caráter do povo de Assis. (...)Roma tomara-se um grande império feudal e o seu crescimento fê-la enfraquecer: eram cidades e mais cidades querendo libertar-se das condições impostas pelo estado reinante e Assis era uma delas. Daí a semanas, Francisco era um soldado, empunhando armas nos campos de batalha. Sua mãe e Jarla quase enlouqueceram com a ideia de Francisco ser miliciano, de pegar em armas, de matar... não podiam compreender.

            (...)Pedro Bemardone, quando soube do ocorrido, quase procurou o filho para abraçá-lo, perdoando-lhe o que ele falara, esquecendo a ofensa que sentira, pelo que considerava desrespeito. Porém, o orgulho não aceitou esse impulso de compreensão, e monologou com entusiasmo:

            "A lição que lhe dei valeu e sua reação foi boa. Agora quero ver se ele vai ser bonzinho, lutando com feras. Queira Deus que algum dos perusianos o pegue em boa hora e lhe dê uma boa sova, para que vire homem, e defenda com isso os seus reitos... e deu boa gargalhada dizendo: "tomara, tomara, que isso aconteça. Depois essa guerra vou ter um companheiro ao meu lado".

            Francisco, daí a tempos, recebeu um adestrado cavalo, e dele fez seu grande amigo. Nos arredores de Assis, as tropas se exercitavam todos os dias, divididas em duas alas em acirrados combates. E nessa guerra de ensaios, o moço de Assis delirava; eram quatro horas de intensa fúria, sem que ninguém morresse, sem que ninguém inimizasse, a não ser alguns ferimentos de somenos importância, que no outro dia estavam preparados para novos embates. Nessas manobras de cavalaria, das quais era um dos nobres cavaleiros, Francisco fizera grandes amizades.

            Uma das mais sólidas foi com o nobre Shaolin, moço esbelto e esperto de boa cultura e fantástica memória, que nunca precisava ler algo duas vezes.

            (...)Francisco e Shaolin estavam enganados quanto à guerra. Gostavam imensamente daqueles treinamentos, horas a fio, nos arredores de Assis; todavia, ali eram irmãos com irmãos, não havendo domínio do sentimento de ódio, sendo tudo mera aparência. Será que quando chegasse o momento decisivo de matar ou morrer, teriam eles coragem de se entregarem aos sentimentos contrários ao Amor? Inseparáveis, partiram para a luta, mas a Providência Divina convocou-os para outro tipo de guerra. Em acirrada batalha, Francisco foi encurralado pelos inimigos; Shaolin avançou em sua defesa, e caiu igualmente no cerco, sendo ambos aprisionados. Foram atados a uma árvore, até que cessasse o combate, após o que foram levados como presos valiosos. Suas vestes denunciaram que eram nobres...

            Na prisão coletiva, Francisco e Shaolin compreenderam que libertar Assis do jugo romano não era a tarefa mais importante. Talvez fosse pior tirá-la do poder de Roma e entregá-la aos feudos, pois a política feudal, na mão de muitos senhores, dividia Assis e a pressão sobre os escravos seria mais cerrada e eles iriam sofrer mais o arrocho das leis dos poderosos contra os mais fracos. Os barões, os condes, a burguesia, enfim, os latifundiários, se expandiriam por todo o território italiano e quebrariam a harmonia nacional. O clero romano manipulava a posse dos títulos de nobreza e os vendia, à sua conveniência, no mercado nacional, a peso de muito ouro. O império temia a influência dos sacerdotes e os deixava livres em determinadas áreas de comando.

            Francisco e Shaolin, conversando demoradamente na prisão, encontraram a Ponta da meada dos seus deveres. Matar não seria a solução, tomar uma cidade, duas ou mais, não iria resolver os problemas. Destruir seria muito pior... "Vamos Shaolin", disse o filho de Bemardone, "analisar mais profundamente o Cristo, e segui-Lo, que Jamais erraremos".

            (...) O filho de Pica, mesmo na prisão, sentia-se livre, pelo muito que estava recebendo da Graça Divina. No entanto, o maltrato a que não estava acostumado fê-lo definhar; perdera quase por completo o sono e o único ruído que emitia era a tosse, que incomodava os outros prisioneiros. (...)Francisco foi removido do cárcere, devido ao seu estado, e em seguida foi solto, favorecido por leis que garantem o ser humano, nas horas em que o desequilíbrio assoma ao mundo biológico...

            (...)Francisco regressou à casa desfeito e combalido. Os bacilos de Koch, que não eram conhecidos naquela época, invadiram-lhe os tecidos pulmonares, numa guerra interna, na qual iriam se destruir mutuamente. Apesar disso, seu regresso foi motivo de alegria para todos, menos para Pedro, que jamais esperara que seu filho voltasse derrotado como um nada, na soma dos valores da família, atribuindo tudo isso à influência de sua mãe e da velha grega.

            Francisco, entre a vida e a morte, delirava. Pica e Jarla não saíam da cabeceira do rapaz, e intercalavam os xaropes com orações.

            (...)O moço de Assis emagrecera assustadoramente, mas, enfim, numa manhã, um tanto quanto renovado, abriu os olhos. Parecia estar voltando de uma grande viagem.

            (...)Daí a algumas semanas, via-se Francisco andando apoiado em um bastão, no grande quintal da mansão, e a moçada de Assis não o deixava a sós... Francisco era amado por todos, principalmente pela juventude.

            Já refeito, recomeçara as suas andanças a cavalo, pelos arredores de Assis, sentindo e entendendo a natureza. Periodicamente, seu pai o recriminava pelos acontecimentos infaustos, e ele silenciava o quanto podia, reconhecendo sua posição de pai. Lembrava-se constantemente de Shaolin, que o compreendera na profundidade. Onde estaria ele?

            (...)Francisco, já bem disposto, pensou em alistar-se na Cruzada, pois nela ía defender uma causa nobre, e em Assis havia um posto de alistamento, do qual o bispo fizera chefe por ordem do papa Inocêncio III. Deveria ser intuição divina, pois até se crianças estavam se alistando, abandonando seus pais para servirem cegamente a Deus à causa da Igreja. Por que ele, um rapaz, não faria o mesmo?... E daí a dias, urava o nome de Francisco no grande livro rubricado por Inocêncio III, com emblemas da cruz e da espada gravados na capa. E quando alguém folheava as páginas para que Francisco assinasse, como o primeiro passo do brado de guerra de mais um filho de Assis, este espantou-se ao ler rapidamente o nome de Shaolin em folha contígua. Já se havia alistado o seu grande amigo! Seu coração pulsou com mais interesse, para lutar contra os turcos e expulsá-los das terras santas, esplendendo o nome do Cristo nas páginas da história, como sendo o maior Mestre de todos os tempos. Por Jesus, daria a vida sorrindo... Morrer por Cristo era um prazer maior. E agora, onde encontrar Shaolin? Deveria apressar-se, pois era provável que estivesse em Veneza, pois de lá iriam partir as primeiras levas dos soldados de Deus. (Francisco de Assis.Cap. 14. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...) Francisco era alma impetuosa em suas decisões, todavia, vibrava em seu coração a obediência às leis de Deus.

            (...)O filho de Dona Maria Picallini estava inquieto, preocupado com o que deveria fazer. Tinha-se alistado em defesa de Assis, terra que o recebera como filho do coração, onde depois fora derrotado e preso, jogado numa cela qual um cão. A violência dos milicianos que o prenderam e que não respeitavam os seres humanos fazia-o lembrar-se de seu pai. Presenciou mortes impiedosas causadas por simples respostas de prisioneiros na revolta de seus corações; e naquele transe, mesmo sendo chamado de covarde, notou o valor da obediência, e ainda, que o amor cobre ou apaga a fúria e o ódio dos que se encontram como vencedores. E nestas deduções o seu coração lhe segredava que o seu caminho era outro, e não aquele das guerras fratricidas. Computava ideias de todas as procedências, que a sua mente tem associava, e acabou certificando-se de que a violência era filha legítima da ignorância, e que para quem sentia a presença de Deus no coração, o melhor caminho era o que Cristo delineara para a humanidade. No entanto, rejeitava muitas regras estabelecidas na religião vigente no mundo, que colocava Jesus como inspirador dos seus conceitos, e nas que em momentos de conveniência própria, esquecia os mais elevados conceitos do Divino Mestre: os conceitos do amor a Deus e ao próximo.

            (...) Meditou demais nas guerras religiosas como, por exemplo, nas Cruzadas, que já duravam muitos anos. E por quê? Por causa de um sepulcro vazio, que o próprio Mestre desmentiu, quando os Seus seguidores, Maria de Magdala e outras mulheres, procuravam adorá-lo e encontraram removida a pedra, e um Anjo anunciando, a quem viesse à Sua procura, que Ele era Espírito e que necessário era adorá-Lo em Espírito e Verdade, dizendo: "Por que buscais entre os mortos, aquele que vive? Por que depois de mais de mil anos iriam os homens lutar, matar em nome d'Aquele que somente pregou a Paz e o Trabalho, o Perdão e o Amor? Era realmente uma guerra de interesses, baseada em cabeças doentes, que desconheciam o valor da verdadeira felicidade. Francisco, renovado em ideias, caiu em profunda apatia, visualizando a sociedade humana, como se a humanidade estivesse dentro de suas mãos abertas, e olhou-a, observando todos os fatos e os feitos dos homens.

            (...) Fez um retrospecto de sua vida, analisou necessidades dos homens, a função das religiões, e os enxertos nelas inseridos peia ignorância humana. Lembrou-se fortemente do Evangelho, senão de Jesus, e pediu a Deus, no íntimo d'alma, para lhe clarear o caminho, ora duvidoso. Entrou como em ligeiro sono e ouviu uma voz, a mesma voz sua companheira, que lhe falou nestes termos:

            - Francisco!... Constrói a minha Igreja!...

            - Francisco!... Constrói a minha Igreja!...

            - Francisco!... Constrói a minha Igreja!...

            (...)E Francisco, na vigília, ora no corpo, ora fora dele, tomou a perceber como um cântico dos Céus:

            - Meu filho!... Desperta para a luz do entendimento, e não te impressiones com os pequenos fatos do mundo. Os homens estão avançando em uma escala de aperfeiçoamento espiritual, cabendo a eles passarem por isso, o que lhes garantirá a estabilidade no amanhã.

            Tu, em primeiro lugar, és filho de Deus, e o teu maior dever é para com Ele. (...)Auxilia a Igreja, que está enfraquecendo nos seus mais sagrados pilares, porque a verdade está sendo distorcida em demasia.

            (...)Francisco!... Reforma a minha igreja, ajuda-a a reconsiderar o que fez, tomando outros caminhos melhores, mais justos e mais brandos. E quando quiseres a minha companhia, sabes onde estou? Escuta!... Estou ao lado dos estropiados, ajudando-os a andar com firmeza. Estou ao lado dos famintos, ofertando-lhes pão. Estou ao lado dos sofredores, aliviando-lhes as chagas. Estou ao lado dos oprimidos, dando-lhes esperança e conforto. Estou ao lado dos desabrigados, conduzindo-os para onde existe teto. Estou ao lado dos nus com agasalhos que lhes possam minorar o frio. Estou ao lado os presos e encarcerados pela violência do poder. Estou ao lado dos que ajudam por Amor. Eu estou, Francisco, onde quase ninguém me busca.

            (...)A voz, antes meiga e dominante, viva e presente em todo o corpo de Francisco, se desfez no cosmo como por encanto. Ele, estonteado, voltou a si, como se estivesse chegando de uma grande viagem. Passou as mãos no rosto e olhou para os lados, procurando alguém cuja presença pressentia, mas nada viu.

            (...)Francisco chegou à casa abatido, ainda sentindo o corpo como um aparelho frágil; porém, intimamente, ouvia o rugir do leão como uma força descomunal começava a crescer dentro do seu coração, que se aliava à sua lúcida inteligência: era a volta do Cristo pelas vias da sua consciência.

            (...)Entrou em seus aposentos e, em vez de se deitar em sua luxuosa cama, deitou-se no chão, removendo para o lado o grosso tapete, a fim de sentir o piso duro na própria carne, como os sofredores, como os escravos em corrigenda. A sua mente era um fulcro renovador...

            (...)Francisco levantou-se consubstanciado no Amor e na Caridade, procurou seus familiares.

            (...)Abraçou a mãe, beijando-a como de costume, e também Jarla, abraçando-a na candura peculiar dos Anjos.

            O jovem iniciou com elas uma das mais sérias conversas de sua vida, decisão que iria repercutir, ainda que ele não soubesse, em milhares de pessoas e mudar o destino de muitas criaturas.

            Francisco falou com simplicidade e mansidão:

            - Tomei uma decisão definitiva para a minha vida. Estava enganado, quando me alistei na guerra de Assis com a Perúsia, guerra essa como todas as outras, que objetivava unicamente a usura, o egoísmo e o orgulho, que depreciava o ser humano. Os prisioneiros eram tratados como animais, ou de modo muito pior. Não havia respeito pelos direitos humanos, as famílias eram colocadas em vexames, e desaparecera a moral. Fui chamado para uma guerra, porém diferente da dos homens; para a guerra de Deus, onde o que Ele verdadeiramente quer é a luta permanente comigo mesmo, em que eu possa induzir os outros a fazerem o mesmo. Trata-se de guerra para introduzir a paz na consciência. Sei que serei perseguido, maltratado, difamado e desprezado; não importa os homens, quero ficar com Deus. Quero seguir os caminhos de Jesus Cristo e ser abençoado por Maria Santíssima; quero, minhas irmãs, ter paz na consciência, por cumprir o meu dever de homem reto, de homem justo, que faz do Amor a sua melhor arma de combate.

            (...)De hoje em diante me considero livre dos bens terrenos e de família, de parentes e amigos, que não entenderem as minhas resoluções. Estarei com Deus e com Cristo, para que os homens sintam mais de perto o amor do nosso Pai Celestial operante em toda a natureza! Quero ainda que vós saibais da minha admiração pela religião Católica Apostólica Romana, pelo Papa, pelos Cardeais, Bispos e Padres e por todos os movimentos para o Bem na Terra, e por onde a Caridade passar, eu sentirei muita gratidão. Todavia, é bom que também vós saibais, que qualquer desses movimentos ou pessoas, que esquecerem o Evangelho nos seus fundamentos primitivos, como saiu dos lábios do nosso Divino Mestre, receberá o meu repúdio, e lutarei para que todos compreendam que a doutrina de Jesus é a doutrina de Amor e de Perdão, de Paz e de Trabalho.

            (...)Não quero, se me permitis, nem herança de nome; ficarei com o simples Francisco, e se os céus permitirem, o sobrenome de Assis, onde devo começar a trabalhar sem demora.

            (...)Jarla olhou para Francisco, e viu que ele estava envolto de luz; olhou para Pica e viu que ela também havia percebido isso e que seus olhos vertiam grossas lágrimas, sentindo no coração a realidade do que ouvira.

            (...) Saiu do palácio agradecido a seu pai, mesmo ausente. Agradeceu à querida mãe, à Jarla e à Foli. Agradeceu aos animais que o serviram e às plantas que embelezaram a mansão; (...) Agradeceu ao Sol, à Lua, às Estrelas, ao Ar que ali soprava todos os dias. (...)Agradeceu à casa que lhe serviu de moradia. Agradeceu aos servidores da comunidade e pediu-lhes desculpas em voz alta. Agradeceu a Deus e a Jesus, fixando o firmamento. Lágrimas derramaram-se abundantemente por suas faces, e com voz entrecortada de soluços, agradeceu à Mãe Santíssima. E saiu da casa de seus pais.

            (...)Como a voz lhe tinha pedido para reconstruir a Igreja, tomou como ponto de inspiração a pequena igreja da localidade, de nome São Damião. Saiu pedindo de porta em porta, não mais como nobre, porém, como homem comum, como filho de Deus e discípulo de Cristo, ajuda para reconstruir a pequena igreja, contando o ocorrido com ele. E quase todos iam lhe ofertando o que podiam para a reconstrução da velha casa de Deus. E neste ingente esforço, apareceram muitas mãos para ajudá-lo no empreendimento e, cantando louvores ao Senhor, por aquele entusiasmo, sentiu no coração que aquele caminho era por excelência o seu roteiro - o da reconstrução, o de levantar alguma coisa caída, de laborar no engrandecimento da fé e da obra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

            (...)Todos os dias tinha quem o ajudasse e era um chegar e sair de gente no movimento que Francisco fundara, obedecendo à fala que ouvira. Pedro Bernardone, quando viu seu filho, que criara com orgulho, pedindo esmolas, sem nem pelo menos escolher onde pedia, ferveu-lhe o sangue nas veias e quase perdeu a cabeça. Mostrou aos dois servidores, a quem eles deveriam raptar, e foi para a mansão esperar o resultado, já com tudo preparado sobre o que deveria fazer.

            Daí a duas horas, chegaram os seus homens com a presa dentro de um grande saco; ainda amordaçado, Francisco foi levado para o porão do palácio, onde o pai o libertou à luz das candeias. Pedro Bernardone pensava que ia encontrar o filho envergonhado e abatido diante dele; entretanto, este saiu de dentro do saco dizendo.

            - A paz seja contigo, meu pai. A paz de Deus e de Jesus Cristo!

            O pai olhou para Francisco com ódio redobrado, e falou agressivo:

            (...) - O teu lugar é aí, até que o tempo possa te despertar para a realidade da vida. Queres viver de sonhos, como pássaro, sendo homem. Que o teu Deus se compadeça de ti!

            Fechou a porta e saiu alterado na sua personalidade, gritando para sua mulher e Jarla, que logo vieram correndo:

            - Não quero que tirem esse moço da cela; ele deve ficar preso até a minha volta, que não sei quando se dará! Quem não cumprir as minhas ordens pagará caro pela desobediência!

            (...)As mulheres da família tratavam de Francisco, no porão do palácio, com todo  carinho e amor que ele merecia. Em vários momentos, tinham impulsos de desamarrá- lo soltá-lo, para que fugisse, mas o próprio Francisco não aceitava dizendo:

            - Eu preciso disso, por sentir em meu coração que devo ser disciplinado e na própria carne o que os pobres passam ante os ricos, que vivem às suas custas...

            (...)Francisco, recostado em um dos pilares da mansão, meio sonolento escutava novamente a voz que tanto admirava, a voz que fazia dele um verdadeiro soldado de Deus, em tom suave e por vezes enérgico:

            - Francisco... Es uma peça na grande engrenagem da reforma da minha Igreja e é necessário muita humildade, paciência e amor, além de um profundo interesse pelo Bem coletivo, para que o Cristo possa brilhar em ti. Jamais deixes que o ouro te influencie, iludindo-te nas aparências de uma realidade. Os bens terrenos têm o seu valor nas mãos de quem veio para transformá-los em trabalho digno, e como força do progresso; mas tu escolheste a melhor parte: o lado espiritual da vida...

            E Francisco adormeceu...(Francisco de Assis.Cap. 15. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            Ficara ali três dias, já se mostrando cansado; contudo, foi um ótimo remédio para os seus sentimentos, pois estava apurando a sua verdadeira força espiritual, limpando os canais da intuição, que o levava a grandes êxtases.

            (...)Sua mãe, Jarla e Foli não suportavam mais o sofrimento, ao verem Francisco naquele estado de desnutrição e obediência às forças das trevas, e em uma manhã, dona Maria Picallini acordou resoluta, falando às duas:

            - De agora em diante, não obedeço mais às ordens do meu marido; ele esta passando dos limites e a tolerância começa a se transformar em aceitação cruel, que falsifica os bons sentimentos....

            (...)Francisco reconheceu que a sua mãe falava diferente das outras vezes sentia que realmente era aquela voz que ele esperava, para decidir a enfrentar todos os obstáculos que surgissem. Saiu com as mulheres, cambaleante, sem forças, mas feliz. Sem pensar no que poderia acontecer quando seu pai chegasse, entregou tudo a Deus e estava confiante em Jesus Cristo...

            (...)Francisco partiu decidido para o trabalho, dando continuidade à reconstrução da pequena igreja de São Damião.

            (...)A história nos conta que Francisco bateu à porta de um padre, cuja residência impressionava pela beleza e conforto, pois era o único herdeiro de família riquíssima, radicada em Espoleto...Vendo na casa do padre muitas pedras trabalhadas, pediu-as para a reconstrução da casa de Deus; mas o padre, com seu porte de fidalguia, mostrando uma batina bem cuidada -(...) respondeu com rispidez:

            - Não posso dar essas pedras, meu rapaz; ainda mais, não sei se tens ordens para restauração de igrejas aqui em Assis...Mas se insistes, eu posso vendê-las por um preço que não foge ao natural. Mas se insistes, eu posso vendê-las por um preço que não foge ao natural.

            Francisco sentiu, por dentro, o atear de uma fogueira de revolta ante o padre, ao ver o seu desprezo pelas coisas de Deus. A igreja era um lugar sagrado, onde os fiéis se reuniam para meditar e fortalecer a fé. Mas, se controlou ...

            (...) Acertado o preço das pedras, Francisco as levou para a igreja, onde foram lizadas. Passando o prazo combinado, o restaurador de igreja não pôde pagar ao verendo, por lhe faltar o dinheiro para isso. O padre usurário não se fez esperar, indo à procura de Francisco e desacatando-o. Este humilde, escutou todos os impropérios do vigário, mas, no decorrer da conversa foi tomado de energia diferente e, num intervalo da fala do padre, começou a falar nestes termos:

            - Senhor Vigário!... Tenho imenso respeito pelos padres, que sei e sinto, fazem lembrar a vida de Jesus, em todos os seus aspectos morais e espirituais; mas não posso calar-me no que se refere à falta de respeito, de sua parte, para com a igreja de Deus. Eu acho que o templo é um lugar coletivo, que merece todo o respeito e todo o carinho, e principalmente da tua parte, porque és seguidor do Divino Mestre e deves te sentir honrado com isto. Quero pagar-te as pedras, logo que tenha o dinheiro, porém, a minha consciência me fala no fundo d'alma, que o dever de restaurar as igrejas compete aos sacerdotes. São eles os vigilantes da casa do Senhor e é deles a obrigação de mantê-la limpa e bem cuidada. Estou querendo ajudar-te neste mister sagrado, coisa que, perdoa- me, a tua consciência ainda não deu de te avisar...

            (...) O padre, diante de tudo o que ouviu da boca de um leigo como Francisco propôs-se a calar. Regressou à sua mansão, irritado, pois sua consciência aprovava tudo o que Francisco lhe havia falado, e que seus ouvidos gravaram, entregando arquivo consciencial.

            (...)No mesmo momento, o filho de dona Picallini começou a cantarolar pelas ruas de Assis. Falava com um, falava com outro da necessidade de restaurar as igrejas, e já à tarde tinha o dinheiro que devia ao sacerdote. Com muita alegria, buscou o padre em sua residência. Bateu à porta. Abriu-a o vigário com o rosto desfigurado, dizendo:

            - Já vens tu novamente! Que queres desta vez? Francisco respondeu com ponderação e alegria:

            - Pagar o que te devo, senhor!...

            Este estendeu a mão usurária e recebeu o dinheiro correspondente à divida-Francisco despediu-se novamente com dor no coração, não pelo dinheiro, mas pelo procedimento de um pastor de almas; entretanto, perdoou e abençoou o vigário.

            O padre, naquela noite, não pôde conciliar o sono. (...) Sentiu-se envergonhado, lembrou-se da sua missão diante da Igreja, do juramento que fizera com a mão no Evangelho, colocando mentalmente o Cristo no coração. (...) Sentiu-se impaciente dentro daquela casa e, naquela noite, pediu aos servos para dormir junto a eles, ao lado do palácio, em tosca cabana, onde não existiam catres, mas capim moído, acomodado em grandes sacos, cujo pano fora obra dos próprios escravos nas horas de folga. O padre sentiu-se feliz, estirado em uma enxerga, onde o odor não era dos melhores. Os escravos nada diziam pelos sons dos lábios, temendo o patrão, mas pensavam: "Será que o padre ficou perturbado?"(...)

            No entanto, o vigário estava renovado de atitudes. Mãos inchadas e ainda quentes, procurou Francisco, e o encontrou trabalhando e cantando de alegria na restauração da Igreja de São Damião. E, com ele, muitos outros companheiros, afinados para o trabalho que os Céus convocara.

            Francisco notou que o padre chegara de mansinho, pedindo licença com humildade, dizendo:

            - Filho, venho ao teu encalço em busca da paz que não tenho. Fui acusado pelo tribunal mais rigosroso do mundo: o tribunal da consciência. Sei que para mim somente um defensor aqui na Terra, e esse advogado és tu. Tocaste em pontos que a filosofia espiritualista por vezes esquece e machucaram meu coração, e este abre os braços te pedindo perdão pelo (...)gesto impensado e anticristão. (...)Não sou digno de ser sacerdote de Cristo, e em breves horas devo abandonar esta batina para aliviar as tensões do meu íntimo e meditar o que devo fazer na vida e da vida. Quero e há muito tempo sinto que preciso do Cristo em mim; no entanto, esqueci como os discípulos de Jesus viviam, as renúncias aplicadas por eles, a renovação interior neles verificada e a educação dos impulsos inferiores que nunca exercitei, por não encontrar talvez estímulo onde me ordenei sacerdote. Agora, encontrei quem me falasse a verdade frente a frente, e vejo que o teu futuro é grandioso, como teu amor, que transcende todas as virtudes ensinadas pelos homens...

            (...)Todos ficaram emocionados com a resolução do padre, e Francisco sentiu-se imensamente gratificado com o fruto das suas atitudes em defesa da Igreja e da própria doutrina cristã. Dirigiu-se ao sacerdote com simplicidade, pegou as suas mãos bem tratadas, cobriu-as de ósculos umedecidos com lágrimas, e os que ali estavam trabalhando fizeram o mesmo. O sacerdote sentiu-se feliz pela primeira vez em sua vida, e suas mãos, antes em fogo, esfriaram, como se a sua consciência lhe desse trégua, pela alegria do coração. E ele, mesmo naquele porte nobre, abraçou as pedras para o serviço reparador.

            (...)A casa do sacerdote, daquele dia em diante, era para os sem teto, e lá se formou uma comunidade de amparo aos sofredores de toda ordem o seu sítio em Rivotorto foi transformado em acampamento para os primeiros discípulos de Francisco de Assis. Ali reuniram, dentro da maior simplicidade, companheiros dedicados e decididos a acompanharem Francisco em seu esquema de pobreza e renúncia, no início de uma transformação social, lembrando com amor e cuidado os primeiros tempos do Cristianismo.

            (...) Depois, com o tempo e as bênçãos de Deus, como ele mesmo dizia, multiplicaram-se os seus seguidores por todo o mundo. Foram mais de duzentos mil discípulos de Francisco de Assis, que por onde passavam deixavam as sementes do Evangelho, aquelas que tinham o perfume dos primeiros dias do cristianismo de Jesus.

            Um que se destacou com grande expressão com todo o mundo, e que hoje é venerado por muitos povos, foi Antônio de Pádua, cuja estrela figura corno de primeira grandeza nos céus das ordens franciscanas.

            (...)Francisco foi à Roma. Sentiu necessidade de ir ao encontro do papa, para que este desse ordem, para que ele se movimentasse no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, mesmo sem ser padre, pois pertencia à religião pelo coração. Compreendia a sua missão dentro da comunidade religiosa, que tinha em Pedro o Apóstolo, o primeiro papa, e para isso, necessário se fazia que o clero fizesse algumas mudanças, pelo exemplo de alguém, na vivência de cada dia..

            (...) Era papa àquela época, Inocêncio III, italiano que governou dezoito anos, seis meses nove dias, os destinos da Igreja Católica Apostólica Romana, do ano de 1198 a 1216. Francisco chegou à Cidade Eterna, fazendo anunciar a sua necessidade e falar com o papa. Com muito custo, conseguiu que a sua pretensão chegasse até o mandatário da Igreja, pois os intermediários criavam barreira de difícil transposição, entre o Vaticano e os visitantes. Somente havia fácil acesso quando estes fossem enviados por nobres, reis ou altos mandatários de outros países. E Francisco, um punhado de acompanhantes maltrapilhos, não tinha chance de conversar com corte do clero.

            (...)É conveniente que lembremos, nesta hora, o Salmo sessenta e versículo onze, como profecia cumprida depois de passados dois mil anos:

            Pus umpano de saco por vestes, e me tornei um objeto de escárnio para eles.

            As vestes de Francisco de Assis, como de seus companheiros, eram de sacos, daqueles que já haviam servido em outras atividades, presos na cintura por cordões trançados pelas suas próprias mãos. E assim, dentro dessa simplicidade, chegaram ao Vaticano, para falar com o papa Inocêncio III.

            (...) Francisco (...) enviou, pelas linhas competentes, anúncios ao Papa Inocêncio III, de que tinha urgência em falar- lhe acerca de coisas de grande interesse para a comunidade católica, e esperou muitas horas no Vaticano. Mas, quando recebido por alguém que servia de olhos do prelado, esse deixou chegar aos ouvidos da Sua Santidade que se tratava de um bando de mendigos, que tinha boa conversa, mas que poderia ser conversa decorada, para tomar o seu precioso tempo.

            O papa meditou alguns instantes sobre o assunto, e disse com parcimônia.

            - Diga-lhes para voltarem outro dia. Tomou a pensar, e terminou sua curta frase:

            - Se for mesmo coisa interessante e para o bem da Igreja, voltarão quantas vezes forem necessárias. Se estiverem realmente brincando com as coisas divinas, desistirão.

            O assistente papal voltou velozmente, a fim de ficar livre daqueles homens mal dentro do Vaticano, e transmitiu o recado de Sua Santidade...

            (...)Retornara várias vezes para falar com o papa, nunca o conseguindo. Eram sempre as desculpas: que o Santo Padre estava ocupado, que sua agenda estava completa, Sua Santidade estava cansado de tantos atendimentos... Até que, após várias tentativas, Francisco foi despachado de vez: o papa não poderia recebê-lo.

            (...)Francisco, não podendo falar com o Papa Inocêncio III, enviou-lhe alguns tópicos das regras, nas quais iria basear a vida de todos os franciscanos, e inspirava-se nas passagens do Evangelho, para maior segurança do que estava falando ao Homem de Deus e seus cardeais:

            "Rogamos a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos abençoe pelas mãos de Vossa Santidade. Seríamos muito felizes se Deus nos permitisse o diálogo com Vossa Santidade. Nossa pobre consciência pede e o nosso coração anseia por tal momento; (...) Respeitamos muito a nossa Igreja pelo que ela é e pelo que tem feito em favor da coletividade; todavia, existem no seio da nossa amada religião desvios que o coração em Cristo não pode suportar. O ouro acumulado gera guerras e as guerras pedem mais ouro. Das guerras e do ouro, gera-se um filho destruidor dos povos, que se chama egoísmo; deste, nascem a prepotência e a perseguição. E onde fica o Cristo, nesse ente de revolta? E quem tem coragem de pregar o Evangelho nessa atmosfera contradições?

            Com toda humildade, pediria a Vossa Santidade e aos eminentes cardeais que vos assistem, que atentásseis para o que quero expressar nesta carta, e que me perdoeis se eu estiver errado ou falando o que não devo...

            (...)A carta chegou à Table Sagrada e foi levada à mesa de conferências, e lida na reunião por ordem do próprio papa.

            O cardeal que a leu era João de São Paulo, homem de reconhecidas cristão que já tinha sentido o Cristo interno falar-lhe ao coração. Quando começou a leitura, os seus sentidos deram sinais de que concordava com aquele nern que escrevera, e a vontade de conhecê- lo subiu-lhe à mente e pensou:

            "Esse homem é destemido e deve estar envolvido por sentimentos altamente superiores, pelo modo como fala neste pergaminho".

            Os outros cardeais enfureceram-se com a petulância de Francisco. O próprio papa ficou calado, somente ouvindo as conjecturas dos seus assistentes.

            (...) O Cardeal João defendeu as ideias de Francisco, mesmo sem conhecê-lo, com toda segurança, baseando-se no Evangelho do Divino Mestre, sem temer o ambiente em que se encontrava:

            (...)Peço licença a Vossa Santidade, para dizer o que sinto há muito tempo, já que não devemos ter segredos uns com os outros, nesta casa de Deus. (...)  Quero que me respondais, por favor: Se fosse Jesus quem estivesse à frente dos destinos da Igreja neste momento, Ele iria apoiar as Cruzadas? Ele iria abrir tribunais para sacrificar os hereges? Ele iria matar para defender algum Santo Sepulcro, como por exemplo, o de Moisés? Ele iria entesourar bens materiais como aconteceu conosco? Ele iria fazer construções suntuosas, como as que erguemos em todo o mundo? Ele iria dominar consciências como estamos fazendo, pressionando-as para nos seguir?...

            Quase todos se colocaram contra a opinião do Cardeal João e contra a ideia da entrevista de Inocêncio III  com Francisco de Assis. A decisão final foi do próprio papa, que também a achou inconveniente, por ter outros trabalhos de maior interesse da Igreja. Um dos mais radicais redigiu uma resposta a Francisco informando a decisão de Sua Santidade, já que o Cardeal João de São Paulo recusou-se a fazê-lo.

            Francisco de Assis, que mandara buscar a resposta, a leu pausadamente sem mudar de feição, sem dar demonstração de constrangimento. Reuniu seus discípulos e passou a carta do papa para todos entenderem o que fazer: ir embora e trabalhar do modo que a inspiração dos Céus achasse conveniente. E partiram na manhã seguinte. (Francisco de Assis.Cap. 16. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Francisco era um Evangelho aberto, onde todos poderiam ler nas letras luminosas dos seus exemplos.

            (...)Não estamos aqui fechando os olhos para combater uma religião que serviu de veículo para grandes santos, como para vários sábios; somente escrevendo por ordem maior, aquilo que passou dos limites da sua área de ação.

            (...)Temos de lembrar os benefícios que essa religião trouxe ao mundo inteiro. Ela, de certa forma, resguardou o Evangelho, envolvendo-o nos panos da letra, não por competência dos seus prelados, mas devido à ignorância humana.

            (...) Francisco de Assis já compreendia e respeitava os direitos humanos e espirituais das criaturas, e encontrava no Amor Universal a verdadeira religião. Concentrou as suas atividades no ideal do desprendimento.

            (...)Quando o seu pai fora à sua procura, para interromper os seus gestos no reparo das igrejas, deixara transparecer que Francisco estava tirando suas mercadorias e vendendo- as para tal mister; e este, diante das autoridades eclesiásticas, entregara a Pedro Bernardone tudo o que tinha em mãos, até a própria roupa do corpo; ficara despido de tudo que possuía fisicamente, porém, com a consciência vestida de luz.

            (...)Na noite em que fora lida a carta de Francisco no Vaticano, em reunião com os cardeais, o ambiente ficara pesado diante das discussões...No entanto, o papa, que fora mais comedido, (...) pôde conciliar o sono e dormir com certa tranquilidade. Inocêncio III, depois de instantes de sono, ouviu, mais ou menos consciente, alguém do mundo espiritual que o convidava para um passeio e ele saiu  do corpo físico com certa facilidade. (...) No ambiente de oração, notou que estava sendo guiado por alguém, e que uma nuvem esbranquiçada se foi formando ao seu lado. (...) Era um Espírito que fora papa no ano de 142 e que ficara no poder onze anos, oito meses e vinte e oito dias. Era o irmão Telésforo...

            (...)Luzes confundiam a visão de Inocêncio III que, quando viu aquele personagem a confundir os seus sentidos, buscou as suas vestes para beijá-las e ajoelhou-se a seus pés. Pediu, chorando, proteção para a sua cruz, que carregava com muita dificuldade na Terra: a direção da comunidade católica do mundo inteiro.

            Telésforo, imponente e majestoso, com o olhar sereno e o coração imantado de amor em Cristo, pegou as mãos de Inocêncio, como as de uma criança, e falou-lhe ao coração com brandura e carinho:

            - Meu filho, variadas vezes tentamos falar-te pelos meios que a vida nos oferece. Pedes todos os dias a Jesus para guiar-te nos caminhos certos. Pedes à nossa Mãe Santíssima para não te deixar sozinho no barco. Pedes a Deus para fazer sempre a vontade d'Ele e não a tua. No entanto, na hora em que Deus quer mostrar-te a Sua vontade soberana, a tua vaidade, Inocêncio, interrompe o curso das leis naturais.(...) Quando, Inocêncio, Jesus manifesta, usando de pessoas diversas para dar-te uma orientação sábia e benfeitora, para que não caias nas tentações do ouro e da usura, da prepotência e do egoísmo, fechas as portas. Que fazer de ti agora?

            (...)- Inocêncio!... Por invigilância queimaste há pouco uma carta, sabendo que essa missiva vinha de fundamentos elevados. Tu te recusaste a receber o servo de Jesus, um dos mais chegados a Ele, que tem a sagrada missão de te ajudar na renovação dos princípios que abraçaste, por medo de perder o poder transitório e por pensar que um papa faz parte da corte celestial.

            Recomendo-te receber Francisco, e colher dele os frutos do Evangelho para restaurar a nossa Igreja, que já começa a ruir...

            (...) Inocêncio III acordou assustado, chorando e gritando. Em seu socorro vieram vários padres, e ele, pálido, tomou um líquido par acalmar-se. Mandou chamar imediatamente o Cardeal João de São Paulo que dormia em apartamento ao lado. O cardeal veio às pressas e ouviu Sua Santidade narrar o sonho que tivera, dizendo:

            - João!... João!... Ajuda-me no que quero dizer. Tinhas razão, pelo que a razão me parece. Tive um sonho; não sei se foi sonho, pela clareza do que vi e ouvi...

            (...)João, traze esse homem de Deus, busca-o onde ele estiver. Usa de todos os meios para alcançá-lo onde quer que seja, pois temos de conversar com ele.

            (...) O papa tinha confundido o personagem do sonho, coisa muito comum, mesmo em desdobramento consciente. Ele viu e conversou com o papa Telésforo e não com Jesus, como pensava.

            O cardeal tomou todas as providências. Ao nascer do sol, mandou muitos padres em busca de Francisco e seus companheiros.

            (...)Efetivado o encontro, reuniram-se à sombra de uma árvore amiga e um deles transmitiu a mensagem do cardeal:

            - Senhor Francisco, viemos da parte do Cardeal João de São Paulo, que em nome de Sua Santidade, o papa Inocêncio III, te pede para voltar!

            (...) Então, puseram-se a caminho, em direção à Roma. Francisco, passando pelo sepulcro do primeiro discípulo de Jesus, lançou um olhar e um pedido, secretamente, sem que ninguém o ouvisse, pelos fios do pensamento:

            "Pedro, rogai ao Mestre por misericórdia, para que este homem que dirige os destinos da Igreja, compreenda a vontade divina, e lute verdadeiramente pela Paz - Compreenda o Amor, e lute verdadeiramente pelo Amor puro. Compreenda justiça, e ajude a estabelecer essa justiça no seio dos povos! Que lute pelo Perdão, mas que perdoe. Que lute pelos tesouros da religião, porém aqueles guardados no evangelho e que tal herança possa atingir a humanidade inteira".

            E avançou de cabeça erguida, ao encontro do Papa Inocêncio III.

            Francisco de Assis não estava em busca das bênçãos do papa; estava à procura do restabelecimento da Igreja de Deus, por vontade de Jesus Cristo...

            (...)Sua Santidade estava descansando numa cadeira que fora toda trabalhada por mãos hábeis, que não esqueceram os mínimos detalhes, na simbologia de fatos extraordinários, dos grandes acontecimentos. Anéis faiscavam em seus dedos. A túnica, sobreposta a outras de tecidos ricamente confeccionados, se ajustava em seu corpo de Príncipe da Igreja.

            (...)Francisco de Assis, pés descalços, como ele era e como andava em qualquer lugar, foi em direção ao papa que lhe estendeu a mão, e beijou-a com ternura peculiar ao seu ser, desejando ao Patriarca da Igreja saúde e paz. Todos fizeram o mesmo.

            (...)Francisco, humildemente acomodado ao lado do papa, passou levemente as mãos em sua própria cabeça, esperando inspiração de Deus, e disse sorrindo para o homem que tinha nos ombros o peso da cruz:

            - Santo Padre!... Não pretendo enganar-vos sobre o meu destino. Prefiro ser recusado pelo vosso sensível coração, a mentir para Vossa Santidade!...Nós, primeiramente, partimos para o desprendimento das coisas materiais, sufocando em nossas almas o egoísmo. Não que os bens terrenos em si ofendam, mas porque os homens ainda não aprendera a usá-los, mesmo aqueles que dirigem os povos. (...)Queremos viver na pobreza, uma pobreza digna do que todos os enfermos, velhos e crianças, queremos manter a vida e a defendê- la onde ela surgir por misericórdia de Deus. (...)Nós, Santo Pastor, estamos idealizando, e já começamos, a viver dentro de uma sociedade onde ninguém é dono de nada, e todos têm com o que viver. Todos trabalham, não só por necessidade, mas por dever e amor, e eu devo ser o primeiro a dar exemplos, que correspondam a todos os ideais. Não devo e não posso vestir capa e túnica, enquanto o meu irmão do caminho anda nu. Não podemos possuir grandes extensões de terras, enquanto muitas famílias não tiverem onde trabalhar e viver! Estamos idealizando uma Igreja onde a alegria seja o dom comum a todas as criaturas, aquela que nasce dentro do coração.(...) A decisão da nossa comunidade espiritual é viver puramente as normas traçadas pelo Divino Mestre de todos nós...

            (...)O Papa Inocêncio III  ouviu tudo, analisando, com a mente presa nas palavras que Francisco de Assis, e a imagem de Telésforo no espelho da sua consciência lhe falando as mesmas palavras que lhe tinha falado em desdobramento espiritual e que, naquele momento, lhe eram repetidas. (...)E falou resoluto, chamando Francisco de irmão:

            - Irmão Francisco!... Tudo isso que ouvimos dos seus guardados mentais é muito bonito, alinham-se perfeitamente com os conceitos de Jesus Cristo, não resta dúvida. Porém, são regras impraticáveis para a falange de obreiros que sustentam o mundo católico consubstanciado em Roma, e mais tarde ajudado pelo imperador inesquecível, Constantino. (...)Nós concordamos que a vida que pretendes levar com os teus seguidores é a réplica da verdadeira vida, e que o Evangelho de Nosso Senhor tem de renascer algum dia, como nos primórdios do cristianismo nascente. (...)Prepara, meu filho, as regras que queres. Envia para nós, que darei veredito e ficarás livre, mas sempre com a nossa vigilância e a nossa proteção. Vai, vai Francisco, e prega o Evangelho que pretendes, e se tiveres alguns frutos volta aqui, que os abençoarei, no sentido de que eles se multipliquem, qual Jesus fez com os pães e os peixes! Que Deus te abençoe.

            Francisco ouviu tudo em silêncio. Nada disse no curso do que ouviu. Levantou-se satisfeito, tomou a mão de Sua Santidade e beijou-a novamente, como as de todos os prelados...

            (...) Houve um reboliço no Vaticano, em reunião secreta; contudo, depois, os cardeais se asserenaram, com a palavra bem posta do Cardeal João de São Paulo, que argumentou:

            - Meus irmãos! Se esse homem nada de mal fez, nem vai fazer, está cooperando com o bem que devemos realizar. Por que não o deixar prosseguir em seu caminho, que todos sabemos ser de espinhos? Oremos por ele...

            (...)Francisco saiu pela porta Salária em direção à campina romana pela via Flamínia, direcionando-se para o norte.

            (...)Francisco, de longe, percebeu um aglomerado de pessoas, e quando chegando perto, notou que se tratava de um cantor popular cantando na rua, muito comum naquelas terras. (...)Apurando os seus ouvidos, Francisco achou conveniente aproximar-se, pois conhecia aquela voz. Quando chegou bem perto, no meio da multidão, teve uma alegria como aquela que sentiu quando o Papa Inocêncio III aprovara suas ideias: era Shaolin!

            Suspendendo o braço, gritou com emoção:

            - Shaolin!... Shaolin!...

            Este, ao ouvir o chamado - até então ninguém ali sabia seu nome - também reconheceu a voz de Francisco, e os dois se abraçaram emocionados, como duas forças do Bem eternizando-se no Amor. (Francisco de Assis.Cap. 17. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)As notícias da Ordem dos Irmãos Menores e de suas regras de vida corriam mundo. Era de se notar o interesse de muita gente em conhecer a Comunidade, bem como Francisco de Assis. A cidade de Assis ficou famosa e as pessoas vinham de muitas partes do mundo: de toda a Itália, da França, da Alemanha, de Portugal e da Espanha; e não faltava quem viesse até do Oriente. A cada dia que se passava, avolumava-se o número de discípulos, integrando-se a ela grandes nomes, desde que obedecessem às regras estabelecidas.

            O plano maior de Francisco e seus cooperadores era trazer o Evangelho de Jesus à vivência das criaturas; era desprendimento sem miséria, amor sem apego e perdão sem conivência; era fraternidade com respeito, caridade com discernimento e divisão dos bens nos lugares apropriados, e sempre trabalhar para viver do suor do rosto. Era liberdade com responsabilidade, alegria nas coisas santas e energia sem violência. Era compreender e escolher o Bem sem ostentação.

            Para o clero estabelecido e edificado no mundo, o programa da comunidade era um absurdo; ninguém poderia viver daquela forma. No entanto, nem todo o clero era contra. Alguns cardeais, bispos e padres encontravam nos planos de Francisco de Assis a salvação para a Igreja Católica Apostólica Romana, enxertada em sua doutrina de preceitos altamente espirituais, de preceitos humanos e transitórios.

            (...)Podemos dizer que Francisco de Assis foi o Cristo da Idade Média. Constatamos, muitas vezes, com reverência, a corte espiritual de Jesus descer planos resplandecentes para assistir esse homem de Deus. Fomos testemunha visual, em inúmeras oportunidades, das curas operadas por Francisco; no entanto sobre as suas mãos estavam as de Jesus. Na Terra, curas instantâneas somente ocorrem com a Sua presença, principalmente quando se trata de corpos totalmente danificados, como nos casos da lepra, cuja cura, na época, era quase o mesmo que fazer outro corpo.

            (...) A religião de Francisco de Assis é o Amor, por ser ele um Cidadão Universal, na influência de Deus e nas mãos de Cristo.

            (...) A noite, todos estavam reunidos em um rancho à guisa de igreja, feito pelas próprias mãos dos frades menores, nas cercanias de Assis. Eles o construíram com uma rapidez de relâmpago, cantando e conversando sobre as ideias mais elevadas que a vida poderia ofertar à humanidade. Antes de Francisco entrar, desceu os joelhos ao solo, e disse com emoção:

            -Obrigado, Senhor!... e levantando-se, acrescentou:

            -Não mereço tanto.

            Ali mesmo todos se alimentaram, sem que a fome exigisse mais. Depois de profundo silêncio, Francisco disse com entusiasmo:

            - Meus filhos do coração, tenho o dever de anunciar-vos que o Senhor quer que nos reunamos em conversações edificantes, no sentido de aprendermos uns com os outros o que for mais útil para a pregação da Boa Nova do Reino de Deus.

            E se for do agrado de todos, eu sugeriria que começássemos hoje, agora, como sendo a inauguração da nossa primeira igreja em Assis, casa de Deus essa feita pelas vossas próprias mãos. (Francisco de Assis.Cap. 18. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Francisco de Assis é o mesmo João Evangelista em época e roupagem  diferentes, o mesmo Espírito de luz, com a mesma missão sublimada de Amor, em nome de Deus e do Cristo, com a sagrada missão de reintegrar a Igreja Católica Apostolica Romana nos caminhos da humanidade e da renúncia, de fazer com que o Evangelho se esplendesse em meio à petrificação, na qual o orgulho e o poder temporal eram reconhecidos como verdadeiros senhores. (...)Eis que a lei da reencarnação se faz presente mostrando a eternidade da alma, que volta às lides da Terra quantas vezes forem necessárias.

            (...)Depois de estruturadas as ideias de renovação, que avançaram em todas as direções dos continentes, ele mesmo, depois de voltar ao Palco espiritual, em nome de Jesus, patrocinou a vinda de Martinho Lutero, Calvino e outros, para que o Livro Sagrado fosse conhecido no mundo, por todas as criaturas, em distinção, ainda que através de sequentes processos dolorosos.

            (...)Se João Batista foi o precursor do Messias, Francisco de Assis e Lutero foram os precursores de Allan Kardec. Sem eles, não seria efetuada a limpeza do ambiente para o plantio de novas ideias, na fecundação da liberdade de sentimentos que influenciou o mundo inteiro, e a Doutrina Espírita não sobreviveria, porquanto a vaidade humana estabelecer-se-ia em todos os países - como ocorreu em alguns - com a oficialização de estreitas ideias doutrinárias. (Francisco de Assis.Cap. 19. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Foi na Igreja de São Rufino o primeiro encontro espiritual de Clara com Francisco. Ele, naquela noite memorável, se dispusera a falar aos irmãos de Assis. Formosa, nos seus dezessete anos, ela era dona de altos sentimentos, que embelezavam e iluminavam a sua própria alma. Era dotada de candura inexplicável e sua formosura atraía os olhares, por ser sua beleza uma nesga por onde passavam as claridades espirituais.

            (...)  Francisco, vivendo na mesma cidade em que nasceu essa moça encantadora, a conhecia desde menina, pois também era de família abastada. Porém, o empuxo espiritual destes dois seres somente se deu, quando ele falava no templo de São Rufino.

            (...)Clara o olhava hipnotizada pela sua palavra eloquente e pela sua presença simples. As poucas palavras que dissera encadeavam-se em torrentes de esperanças para o coração daquela jovem deveras fascinante.

            Ao olhar para Clara, Francisco sentiu emoção diferente da que os jovens comumente, sentem ao avistar o primeiro amor. A emoção estava mesclada corri o mais puro sentimento: aquele amor que desconhece o ciúme, no qual não há vaidade, onde não existe paixão, onde desaparece o egoísmo, não se pensa em orgulho, e não se fala em imposição.

            (...)No silêncio que ninguém ousara quebrar, monologava com prazer:

            "Senhor, por que essa criatura, me fita por dentro d 'alma e me acompanha sem que as distâncias a interrompam? Que Deus a abençoe onde estiver, e que a coloque em lugar onde a nossa Mãe Santíssima possa vigiá-la, com as suas bênçãos e o seu amor. Conheço Clara e sua distinta família, mas estou desconhecendo o destino do seu coração. Permite, Senhor, que seja na Tua paz, e na paz de Cristo. "

            Aquela foi uma noite de grande alegria para todos os frades, não somente pela presença do Espírito Santo nos lábios de Francisco, mas também pelo Amor por ele demonstrado a todas as criaturas. Cada vez mais, seus discípulos se conscientizavam de sua grande missão diante da humanidade. E todos cantaram hosanas ao Senhor. Naquela noite, Francisco não pôde dormir. Alguns frades dormiam em camilhas e outros no próprio chão.

            (...)Francisco, pelo prazer desfrutado com a prece aos Céus, renunciando ao catre e à pousada onde ressonavam os discípulos, encostou-se do lado de fora da comunidade, falando consigo mesmo:

            "A natureza é a melhor casa. Não é nela que moram as árvores, minhas irmãs?Não é nela que vivem as aves, as flores e todos os animais? Não ê nela que tudo o que vive acha acolhida? Por que eu, mísero pecador, não posso lhe fazer companhia? "

            Recostando-se ao pé de um arvoredo amigo, buscou uma pedra ao lado, como travesseiro, e argumentou, no silêncio da noite:

            "Eu ainda estou achando uma pedra para reclinar a cabeça, o que meu Mestre não tinha. Mesmo que não queiramos, somos impulsionados ao conforto. "

            Acontece que corvos do plano astral inferior aproximaram-se de Francisco para o tentar. Era uma pequena falange de Espíritos sensuais que, circulando o corpo do Poverello, pôs mãos à sua obra diabólica, de tentação ao gênio da renúncia e da bondade. Três guardiães da natureza, de proporções impressionantes, acorreram em defesa de Francisco, mas, como por encanto, apareceu-lhes um Anjo que lhes falou com doçura e amabilidade, sem que os irmãos das sombras percebessem:

            - Deixem que Francisco seja atacado; é necessário que por ele, os Céus se manifestem com a renúncia: da mulher ao sexo, da roupa ao palácio, da ignorância ao saber, da família à humanidade, do homem comum aos reis, dos padres ao papa, do teto da natureza às grandes basílicas. Não interrompamos, mas fiquemos atentos para que nada passe dos limites, de forma que o abuso das trevas não se transforme em esquecimento dos Céus, em favor dos que trabalham para a Luz do mundo.

            Os três curvaram as cabeças diante do mensageiro do alto, afastando-se. A falange do Mal investiu da maneira que lhe aprouve, fazendo desfilar mulheres nuas na retina espiritual de Francisco, sendo canalizadas todas as formas com o devido magnetismo, para alguns centros de força do homem de luz.

            (...) Francisco acordou em desespero, olhou em torno de si e, dotado de profunda sensibilidade, viu todos os visitantes do Mal, vestidos como demônios da sensualidade; quis levantar- se, mas não conseguiu; pensou em orar, porém a voz não saía. (...)Na rogativa mental, chorava, qual criança com fome. Depois da oração conseguiu levantar-se e falar; no entanto, observava que algo estava diferente, sentindo estímulos sem precedentes para o sexo. (...)Terminada a rogativa, arrancou o resto da roupa que ainda lhe cobria a parte do corpo, olha para um antigo canteiro de rosas no qual somente restavam galhos e espinhos, por não ser época de flores, e, completamente nu, jogou-se no acolchoado de espinhos e galhos, debatendo-se e rolando de um lado para outro.

            Ao sentir os espinhos penetrarem em sua carne, a natureza inferior se arrefeceu e, quando se lembrou que o Mestre havia sido igualmente coroado de espinhos, foi tomado de grande alegria e amor por aqueles seres invisíveis que assistiam ao espetáculo da renúncia.

            Naquele instante, uma luz desceu dos Céus e, batendo no peito de Francisco, iluminou- lhe todo o corpo. Diante daquela explosão feérica e policrômica, tanto os inimigos do Evangelho, que tentavam inspirar Francisco para as trevas, quanto os seresteiros, saíram em debandada, sem olharem para trás. Francisco levantou-se com alegria, agradecendo ao Senhor.

            (...)Francisco e seus discípulos começaram a andar, pregando o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, por vezes, pediam de porta em porta para abastecer a comunidade e doar aos pobres que encontravam ou que iam bater às suas portas. Nada era deles; pediam e davam. No entanto, na hora de pedir, doavam algo de espiritual para os doadores de coisas materiais; não se esqueciam do sorriso, da gratidão, e ainda oravam por eles, quando estavam em conjunto.

            (...)Desde o dia em que falara na igreja de São Rufino, Francisco não esqueceu mais os olhos de Clara, que o fitavam na mais alta emoção que os sentimentos podem manifestar. Certa tarde, encantado com a natureza, saiu cantarolando uma canção observando os pássaros, sem se esquecer de contemplar os céus. Sem que esperasse sentiu uma mão pousar de leve em seu ombro, e dizer: "A paz seja convosco".

            Ele, que estava quase em êxtase, tomou noção de si mesmo e olhou: era Clara acompanhada por uma servidora da sua casa, que logo se desfez da acompanhante Francisco respondeu aos cumprimentos, tocado de alegria. Clara, sem condições de conversar, deu a entender que ele falasse alguma coisa, e o filho de Bemardone usou da oportunidade, sem rodeios, cordial e sincero:

            - Clara!... Minha filha, somos nascidos nesta Terra acolhedora e bendita. Talvez tenhamos nos encontrado muitas vezes, sem que o coração manifestasse os nossos ideais. Mas, agora, crescemos, e nossas almas falam da realidade que a vida espera de nós.

            Vimo-nos na igreja de São Rufino e certamente notaste o meu ideal ante o chamado de Nosso Senhor; não fosse peso demasiado para os teus ombros, chamar-te-ia com todas as forças de minh'alma: Vamos!

            (...)Nascemos sob a égide do ouro e em nossas veias corre um sangue, que dizem ser nobre. Vivemos, como ainda vives, em palácios, com criados a espera de ordens, para que a nossa vontade se cumpra. Graças a Deus, já me libertei do fardo incômodo das riquezas, da opressão de meu pai e dos compromissos de família. Minha mãe, deves conhecer, é um Anjo, assim como Jarla e Foli. Essas três mulheres me ajudaram muito na minha formação e me inspiraram na beleza da vida que estou vivendo.

            (...)Que Deus as abençoe, bem como a meu pai, e que Jesus Cristo os ajude viver bem. Mas, quanto a ti, a diferença é enorme, Clara! Sinto que a sua vida se entrelaça na minha em altos sentidos, que o próprio coração tenta esconder, para que não saia das necessidades humanas.

            (...)Ouço, Clara, a voz do nosso Mestre Jesus, e Ele já traçou o meu caminho, que é o caminho da obediência, do desprendimento, do trabalho, da paz, da esperança, da caridade, e, acima de tudo, o caminho do Amor; não posso deixar a Sua companhia, para que eu não erre o caminho. Já existem em tomo de três centenas de homens, que compõem a nossa Comunidade, já sabendo todos o que devem fazer das próprias vidas. Outro tanto de mulheres nos procuram, querendo participar deste movimento de Cristo; entretanto, quanto a isso temos silenciado, esperando por alguém que possa dirigi-las, com a presença de Jesus. E agora, sinto que esse alguém és tu.

            (...)- Clara!... O ideal do homem e da mulher no mundo é formar um lar, e esse lar, é por assim dizer, uma semente de Deus, que garante a continuidade das criaturas humanas. Isso é maravilhoso, é mesmo divino; entretanto, minha filha, existem aquelas pessoas que vieram ao mundo para servir, como no nosso caso, e sua família se chama humanidade. A nossa família, Clara, são todos os animais, aves e peixes, tudo o que Deus fez e que vive no Universo. (...) És bela, mas a formosura da tua alma suplanta a do corpo. Vives em palácio e tens criadas ao teu dispor, mas, digo-te que tudo isso é passageiro; somente eternas são as coisas do Bem, a função caritativa e as leis que o Evangelho nos revela.

            (...) Volta para tua casa, pensa no que ouviste e obedece somente à tua consciência, pois a tua felicidade depende da tua decisão.

Andaram horas e horas juntos. Francisco falando, e Clara ouvindo. Em dado momento, assentaram-se em uma árvore que o tempo jogara ao chão, e serviram-se dela, como um banco confortável, ofertado pela natureza. Clara levantou a cabeça que mantivera baixa, para ouvir com precisão os mais sutis preceitos recitados por Francisco, e falou como que tomada de Amor:

            - Francisco!... Nunca pensei que existisse tamanha felicidade quanto a que senti dentro da igreja de São Rufino, quando te vi, envolvido na candura que te é própria. (...)Senti coisas estranhas referentes à tua pessoa, desde o impulso mais grosseiro a que o corpo se faz unir, até o amor mais puro que coração em Cristo pede que seja sentido. Fiquei, e estou, dentro de um emaranha de forças, cujo objetivo por ora desconheço;porém, sinto o coração firme e decidi para ouvir e viver o que Deus determinar, ou que já tenha determinado. (...) Renunciarei a tudo, para que tudo possa me servir de escola, a ensinar-me as primeiras letras da vida, em Deus e em Cristo. (...)A primeira reação que tive para contigo foi física, mas essa emoção se transformou imediatamente em glória espiritual, e eu, mesmo com a pouca idade que tenho, não sei sentir outra coisa diante de ti, a não ser amor de mãe, amor de Deus, o Amor, como dizes, Universal, que pode envolver tudo e todas as criaturas. Francisco, de agora em diante, podes ser o meu pai espiritual, porque a confiança que tenho em ti parece ser antiga, não obedecendo ao tempo, nem à distância, se assim posso dizer. (...)Depois de longas conversações, os dois se despediram, inflamados de alegria espiritual, e Francisco partiu cantando hosanas ao Senhor por mais vitória de Cristo nos caminhos do mundo. (Francisco de Assis.Cap. 20. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...) Em Rivotorto havia um hospital de leprosos por demais impressionante, se considerarmos o que seria uma Casa de Saúde há oito séculos atrás.             Os hansenianos daquela época eram relegados ao abandono e a medicina não tinha condições, como agora, para tratá-los adequadamente.

            Francisco de Assis tinha um carinho profundo por aqueles doentes, e sempre pedia aos seus companheiros para visitá-los e trazer notícias daqueles restos de homens, levando- lhes a sua presença. No entanto, alguns manifestavam impaciência e mesmo revolta, por estarem separados da sociedade, das mulheres e filhos.

            (...)Certo dia, Frei Pedro de Catani e Frei Paulo foram visitar os enfermos e conversar com eles, acerca da bondade de Deus e da misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Acontece que um deles, o mais agitado, começou a blasfemar contra Deus, contra Cristo e contra eles mesmos, por estarem somente conversando e ele, cada vez mais doente e relegado ao abandono. Chegou mesmo a dizer:

            - E porque essa doença não é em vós! Retrucou Pedro de Catani:

            - Foi nosso Pai Francisco que nos mandou vê-los e enviou a bênção para todos que aqui estão.

            O leproso, que se chamava Tanalli, ficou mais furioso com o recado de Pai Francisco, dizendo:

            - Esse Pai Francisco fica de longe nos mandando bênçãos. Dispenso as suas bênçãos...

            (...)Frei Pedro, homem forte e decidido quando necessário, agindo sem aquiescência do doente, colocou-o nos ombros e falou pacientemente a Frei Paulo:

            - Vamos, irmãos, levar este doente para o verdadeiro médico, que ficou mais ou menos de longe.

            Chegando junto a Francisco com o enfermo, ele quase os fez voltar com o leproso alegando que não podia ficar com aquele homem em lugares não apropriados.

            - Fizeram muito mal em trazê-lo, dizia Francisco.

            Os dois discípulos, de cabeça baixa, a tudo escutavam, orando silenciosamente em favor da situação, e do doente engasgado de agitação. Quando os companheiros de Francisco iam saindo de volta para o hospital, este, caindo em si, ajoelhou-se aos pés dos discípulos e pediu-lhes perdão pelo que fez, dizendo carinhoso:

            - Perdoem, meus filhos!... O que fiz, meu coração não deseja que seja assim!

            (...)  Francisco, tomado de amor por um leproso e com profunda humildade, beijou-lhe o rosto como se fosse o da sua própria mãe.  Retirou a roupa do enfermo, jogando-a de lado, e em seguida beijou as suas chagas pustulentas...

            (...) O doente, naquele clima de fraternidade, começou a chorar, e Francisco não fez outra coisa.

            (...) Sentiu que alguém tomou-lhe as mãos, dizendo:

            - Francisco, cuida destas minhas ovelhas...

            E Francisco respondeu mentalmente:

            - Sim, Senhor, sim! Eu cuidarei!

E acrescentou Francisco:

            - Se for do Teu agrado que essa enfermidade passe para mim, beijarei as tuas mãos pela misericórdia de poder pagar minha falta para com esse homem de Deus, que devo respeitar.

            E Francisco foi passando as suas mãos no corpo do leproso e todas as feridas foram se fechando, como por encanto, à medida que as mãos lavavam o enfermo. Os discípulos, ao contemplarem esse fenômeno, caíram de joelhos no chão batido do Rancho de Luz, e cantaram um hino de louvor ao Todo Poderoso, pela presença do Cristo no seio da Comunidade.

            (...)Conta-se que certa feita, Francisco seguia de Riéte para Áquila, com alguns dos seus discípulos.

            (...)Nesta emoção maravilhosa que as coisas espirituais lhes ofertavam, surgiu à margem da estrada uma grande árvore, que os convidava, no silêncio do campo, a um descanso reparador.(...)Francisco, meditativo, viu pequenos seres, pertencentes à imponderabilidade da natureza, saírem e entrarem no corpo ciclópico do grande arbusto, e neste, parecia que se abria algo como janelas invisíveis, por onde transitavam aqueles diminutos seres, de forma humana. (...)Logo elas começaram a manifestar grande interesse por Francisco de Assis: subiam em seu corpo, como enxame de abelhas, deslizavam por seus cabelos, como artistas mostrando suas habilidades em um circo. (...)Francisco de Assis, ao contemplar aquele espetáculo invisível, a emoção o fez chorar.  (Francisco de Assis.Cap. 21. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...) Francisco recebeu carta de Inocêncio III, que se encontrava bastante enfermo e que lhe solicitava a presença, cujos termos tentaremos reproduzir, procurando nos aproximar, dentro das nossas possibilidades.

            "Caro filho Francisco!... Envio a minha bênção papal e rogo de fundo d'alma, que Jesus Cristo te abençoe também, crendo que Deus não te faltará com o Seu imenso Amor.

            Maria Santíssima seja Tua Mãe, hoje e sempre. Em tempos passados, cometi uma falta grave para com teu coração. Sei que te feri, na mais profunda das tuas sensibilidades, desdenhando-te, juntamente com alguns cardeais, por ignorarmos a tua missão. Fomos contrários à tua ajuda em favor da nossa Igreja, que trilhava, e por vezes trilha por caminhos perigosos.

            Naquela época, era eu dominado pelo orgulho, cujo peso ainda sinto no coração, a traçar- me diretrizes, que às vezes obedeço. O caro filho, que muito prezo, deve saber o quanto é difícil alijar do peito que ostenta a autoridade, a prepotência, a vaidade e o egoísmo. Se nos afastamos das chagas de um leproso, pelo receio do contágio, é porque ignoramos a calamidade que existe dentro de nós. E eu, sendo o Pior, confesso ser leproso por dentro, e em certos momentos, tenho vergonha de mim mesmo, e confesso isso agora, abatido pela velhice e pela doença. (...)Tudo que te falo nesta epístola, é para dizer-te do meu sofrimento na tua ausência e porque quero ver-te antes que a morte venha ao meu encontro.

            (...)Francisco, em Roma, manda avisar ao Papa, que viera vê-lo em nome do Cristo de Deus. Este, ao receber a notícia, com grande alegria, mandou buscá-lo imediatamente, dispensando-lhe honrarias especiais, ao que Francisco recusou, preferindo ir acompanhado somente por alguns franciscanos, com seus pés calejados pelas caminhadas, pele tostada pelo sol, cujos joelhos demonstravam o tempo que aqueles homens permaneciam em oração a Deus.

            Francisco adentrou o Vaticano com simples sandália que lhe ofertaram em caminho...Francisco, ajoelhou-se, beijou-lhe as mãos encarquilhadas e falou com mansidão:

            - Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

            Inocêncio III, já quase sem forças para falar, chorou, envolvido pela emoção. Passados os primeiros momentos, já refeito, falou a Francisco:

            - Meu filho, que Deus te abençoe! Tua presença junto a mim proporciona-me um imenso bem-estar. Sinto o corpo cansado e desgastado pelas coisas inúteis, mas sinto a alma erguida, sustentada pela força doada pelo arrependimento e alimentada na esperança da fala do Divino Amigo a todos nós, quando afirmou: "Nenhuma das minhas ovelhas se perderá."

            Queria pedir-te perdão e humilhar-me na tua presença.

            (...)Como dirigente máximo da Igreja, estou falido e tenho consciência de que não deveria ter feito o que fiz: incentivar uma Cruzada de crianças inocentes, enviando-as para a morte. Sou, verdadeiramente, um genocida.

            (...)Gostaria que a saúde me visitasse pelas mas mãos abençoadas, mas, se este não for o desejo de Nosso Senhor, aceitarei a doença e a morte com alegria.

            Chamei-te para te fazer um pedido, e morrerei triste, caso não seja atendido. Quero que tu, Frei Francisco, acompanhe esta Quinta Cruzada, que está Sendo formada. Se eu tivesse forças, iria lutar para impedi-la; sei que terás forças para desfazer as atitudes perversas de que estão imbuídas as pessoas que a dirigem...

            A humildade do visitante, que nada possuía, a não ser a verdadeira santidade no coração, contrastava com o luxo que se evidenciava no ambiente. Intenrompendo a meditação, falou Francisco compassivo:

            - Querido Pai e companheiro em Jesus Cristo!... É de se notar o vosso grande interesse e amor pelas criaturas e pelo bem-estar da sociedade; isso me comove até às fibras mais íntimas do coração. (...)Mas, devo dizer-vos que a posição de mando, de abundância de coisas materiais e condições de intromissão na intimidade dos lares, fizeram acordar as trevas da prepotência, do orgulho, do egoísmo e da usura, que dormiam dentro de vós, a ponto de formar um exército de crianças e enviá-las à guerra à guisa de reconquista de algo que não vos pertence, nem tão pouco à Igreja. O que vale para nós não é o sepulcro a que chamais de Santo, mas é tudo que tiver saído das mãos divinas do Criador.Temos de lutar, sim, e mesmo travar uma guerra, mas para vencer as nossas inferioridades morais...

            Nisto, Francisco sentiu leve estalo em sua cabeça, acompanhado da meiga e suave voz, já sua conhecida, nesta expressão que encanta e comove:

            - Francisco!... Tem piedade dele que sofre e chora!... Lembra-te das bem-aventuranças. (...)Lembra-te do meu Amor para com todas as criaturas. Estende as tuas mãos e alivia este homem que padece...

            Francisco, na condição de transmissor de alta potência energética, orou nestes termos:

            "Senhor!... Fazei de mim instrumento da Vossa paz.

            Onde haja ódio, consenti que eu semeie Amor!...

            Perdão, onde haja injúria;

            fé, onde haja dúvida;

            verdade, onde haja mentira;

            esperança, onde haja desespero;

            luz, onde haja trevas;

            união, onde haja discórdia;

            alegria, onde haja tristeza.

            Divino Mestre! Permiti que eu não procure

            tanto ser consolado quanto consolar;

            ser compreendido quanto compreender;

            ser amado quanto amar,

            porque é dando que recebemos,

            é perdoando, que somos perdoados

            e é morrendo que compreendemos a vida eterna."

            Francisco, banhado em lágrimas, olhou ao lado e viu nitidamente o papa Telésforo, ajoelhado, acompanhando a sua prece e também chorando de alegria, por sentir o Cristo em grande profusão de luzes, aproximar-se daquela casa. Francisco olhou para o papa que ressonava, e disse, tomado de energia:

            - Levanta-te e anda, em nome d'Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida! Inocêncio III acordou assustado, falando:

            - Eu vi Jesus, agora eu vi Jesus!

            E começou a andar pelo quarto, livre das enfermidades e das chagas que já tomavam o seu corpo.

            Em pranto, debruçou-se no ombro de Francisco com gratidão e respeito, falando brandamente:

            - Pai Francisco, tu é que deverias estar no meu lugar. Que Deus te abençoe sempre! (Francisco de Assis.Cap. 22. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)É bom relembrar que os discípulos de Francisco, depois de instruídos por ele por vários meses em Rivotorto, Porciúncula, e mesmo no Rancho de Luz, partiam em  todas as direções da ltália,e ainda para países como França,Alemanha,Espanha e Portugal, para daí saírem para o mundo.(Francisco de Assis.Cap. 23. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            Certa vez, Francisco, emocionado com tanta gente ansiosa pela sua palavra na palavra de Cristo, começou a pregar o Evangelho. Em dado momento, o melro regressou, dirigindo um bando da mesma espécie, milhares de pássaros, todos cantando e voando em tomo da multidão, ficando a voz de Francisco abafada pela cantoria. Francisco calou-se. Os pássaros redobraram-se em cantos, todos de uma só vez. A certa altura, os sons tomaram-se estridentes demais para serem suportados, e a multidão já se inquietava.

            Francisco, em um gesto de amor à natureza divina, na expressão divina daquelas vidas em evolução, levantou os braços para o alto, e em tom de humildade, falou aos melros com delicadeza:

            - Meus irmãos!...  (...) Eu lhes peço, com toda a humildade de meu coração, no grau em que possa ofertar-lhes, com toda a paciência naquilo que posso lhes dar, com todo o amor pelos poderes do Mestre Jesus, que se calem um pouco, para que eu possa falar do Evangelho a esse povo que está sedento da palavra de Deus, e, se for do agrado de todos que assim seja, ficarei muito contente com todos vocês, e a minha gratidão será bem maior do que todas as alegrias que tive no mundo até agora...

            (... )Os pássaros silenciaram-se, espalhando-se pelo chão e pelas árvores, e Francisco recomeçou o seu sermão, tendo como templo a mãe Natureza.

            (...)Pai Francisco lembrou-se do pedido de Inocêncio III, para que fosse a uma das Cruzadas. Fosse qual fosse o seu interesse, ele, Francisco, tinha diretrizes marcadas na própria consciência sobre o que deveria fazer, em consonância com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. (...)Com sua corte de discípulos, partiu de Porciúncula para o porto marítimo de Ancona, onde deveria tomar o navio para o Oriente. (...)O grande barco ia em direção a São João D'Acre, lugar onde ficaram onze dos seus discípulos a pregarem o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele e mais um dos seus amigos do coração seguiram para o Egito. Em Damieta, encontraram os soldados da Quinta Cruzada, da qual faziam parte homens, mulheres e crianças, em uma verdadeira desorientação de comando. Francisco, quando viu aquilo, sentiu o pulsar das ideias, procurou o comando e pediu para que eles voltassem. A Cruzada não tinha sentido, nem condição de avançar, principalmente naquele momento, em que iria conversar com o Sultão Kamel, e tentar interferir nos seus conceitos sobre o Santo Sepulcro. Infelizmente, o frade do Cristo não foi ouvido e a Cruzada foi totalmente destruída, derrotada e espezinhada. Morreram milhares de criaturas, que derramaram o sangue em troca da defesa do Santo Sepulcro, onde não existiam nem as ideias de Jesus. O sultão já tinha mandado cortar o pescoço de vários discípulos de Francisco, para que o povo sentisse a sua força e o seu poder. (...) Entretanto, Francisco de Assis teve desassombro de ir ao encontro do Sultão Melek-el-Kamel com um dos seus discípulos, pela autoridade que o Amor lhe condena. (...) O sultão foi avisado de que dois frades desejavam falar-lhe sobre a paz, e que um deles era Francisco de Assis, famoso cristão que viera da Itália, senão de Roma, para encontrar-se com Sua Alteza. Kamel, no momento, teve ímpetos de prendê-los; no entanto, a ideia foi fugindo de sua agitada mente, e fê-los entrar em sua luxuosa tenda, onde musculosos servidores estavam de guarda. (...)Durante a longa conversa, o sultão teve, várias vezes, vontade de beijar as mãos de Francisco de Assis, pela sua humildade e seu interesse pela paz da coletividade. (Obs.: frase adaptada). (...) Depois que Francisco partiu, o Sultão ficou muito tempo em meditação, examinando o que ouvira daquele homem de Deus. Notou que não doía mais o velho ferimento que tinha debaixo do braço esquerdo e que muito o fazia sofrer. Era uma chaga purulenta, resistente a remédios e tratamentos pela ciência da época. Passou os dedos no lugar da enfermidade e, não sentindo dor alguma, afastou as roupas e constatou que ela se fechara por encanto. E logo deduziu:

            "Foi aquele homem! Ele é um enviado de Alá!"

            (...)Francisco de Assis tinha grande interesse em ficar no Oriente, principalmente onde nascera o Mestre Incomparável, mas quando somos instrumentos da Verdade, nunca fazemos o que queremos e, sim, a vontade de Deus.

            (...) O Poverello volta a Assis, onde fora implantado o coração da comunidade Franciscana, tendo Porciúncula como a igreja-mãe e o Rancho de Luz, como universidade de aprendizado mais profundo sobre o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

            A notícia da chegada de Francisco espalhou-se como um raio, e todos foram visitá-lo com alegria.

            (...)Francisco sentia saudades de alguém que ainda não vira depois de sua chegada. Clara sentia, igualmente, um aperto no coração, com a falta de seu pai espiritual.(...)Quando o viu, os sentimentos não suportaram; faltou-lhe a voz, os olhos se fecharam, e a emoção fê-la sentar-se. (...)Naquele dia, conversaram por horas a fio, trocando ideias e estabelecendo planos para o bom andamento dos trabalhos desenvolvidos por ambos.

            (...)Quando chegaram à Casa dos Portugueses as relíquias dos frades torturados em Marrocos, pela palavra do Evangelho que estavam pregando e vivendo, houve um abalo de sentimentos, do qual nasceu um franciscano de nome Fernando de Bulhões, que já vestia a túnica branca da Ordem dos Agostinianos.

            (...)Após ser tomado por força desconhecida, Fernando trocou as vestes brancas pelo burel dos franciscanos, como também de nome, passando a chamar-se Antônio de Lisboa, e partiu para a África, a arrebanhar almas para Cristo, consoante Suas instruções. (Obs.: frase adaptada). Todavia, seu estado de saúde fê-lo voltar e o destino desviou sua rota, levando-o para a Sicília. (...)Frei Antônio de Lisboa, que depois passou a chamar-se Antônio de Pádua, chegou a Assis. Encontrou-se com Pai Francisco e com toda a comunidade franciscana, onde a alegria era o alimento dos frades, e o Amor, a própria vida.

            (...)Francisco de Assis subiu ao Monte Alveme. Para ele, a morada excelente era mesmo a natureza, os seus dons se dilatavam de maneira divina, ouvindo e entendendo as vozes em muitas dimensões.Seus discípulos já eram muitos, e espalhavam-se por muitos países, pregando e vivendo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pai Francisco não precisava estar junto deles para falar-lhes.

            (...)No fim de sua vida missionária, Francisco estava muito doente, principalmente dos olhos. A enfermidade, cada vez mais, apagava sua visão; era indispensável um tratamento urgente, de que ele se esquecera.Entretanto, um dos seus companheiros fê-lo lembrar, buscando um terapeuta renomado, e esse diagnosticou doença progressiva, que exigia imediata cauterização. Francisco não se opôs, porquanto pediria ao fogo que tivesse piedade dele. E foi o que fez; no momento da operação, Francisco pediu licença a todos que ali se agrupavam, orando por ele, desceu os joelhos ao chão e pediu com simplicidade:

            - "Irmão fogo!... Peço-te em nome de Deus e de Jesus Cristo, para que não me queimes com toda a tua pujança, que reduz todos os corpos! Peço-te caridade para comigo, neste instante em que preciso de teu auxílio, da tua ajuda...

            (...)Francisco, com toda a confiança e ternura, abriu os olhos e o médico, já com o ferro incandescente na mão, cauterizou-lhe o olho. E mesmo com os olhos entregues ao fogo, notou pequenas criaturas desprendendo-se da brasa viva, como que abrandando-lhe a temperatura. (Francisco de Assis.Cap. 24. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            O Monte Alverne, situado nos Apeninos, banhado pelos rios Arno e Tibre, era envolvido em fluidos superiores e, ali, Francisco refazia suas forças de vez em quando...(...)Esse monte que se encontra na Toscana, parece ter sido preparado pela natureza, qual acontecera à Ilha de Patmos, para receber João Evangelista. Igualmente, a região fora escolhida para calvário das maiores emoções de sua vida missionária, região esta que Pai Francisco elegera para o exílio por amor a Jesus, já que não fora expatriado pela vontade dos homens. (...)Ali se escondia o Poverello em uma caverna, como se estivesse em uma mansão. Quando era acompanhado, os Frades Menores ficavam à distância, não que ele exigisse, mas por respeito ao mestre que entra em êxtase ou conversava frente a frente com o mundo espiritual, em diálogos demorados. (...)Certa feita, cheio de cuidados, Filipe, um dos componentes da Ordem foi às bordas da caverna, onde estava Pai Francisco que, já por quinze dias, sem comer e sem beber, não dava sinal de vida. Os outros dois discípulos ficaram orando com receio de o companheiro interromper o estado de graça do cantor Assis.

            (...) O Monte Alveme foi, por assim dizer, o Calvário do Poverello de Assis. Foi lá que ele teve sua maior emoção espiritual na vida, onde recebeu a graça que tanto desejara: as chagas do Mestre. (...)O Poverello já pedira a Jesus que antes de voltar à pátria espiritual desejaria sentir as Suas chagas no próprio corpo, o que para ele seria uma bênção, a coroação dos seus trabalhos nos caminhos do mundo.

            E naquela madrugada preludiando novo dia, o homem de Assis buscou as estrelas por quem era apaixonado, correu os olhos pelo céu, sentindo no coração as linhas paralelas e todos os meridianos universais; esqueceu-se do mundo e voou para o infinito nas asas da oração. (...) Frei Leão pôde constatar que Francisco suava a ponto de molhar a roupa, e no meio do suor em profusão, notava-se algumas gotas de sangue, que a força mental fazia desprender de algumas células mais sensíveis.

            (...)Quando o Poverello foi atingido pela luz, seu corpo se elevou no ar, desobedecendo assim à lei da gravidade que rege os corpos físicos na Terra e nos espaços cósmicos. Francisco estava, naquele momento, sob a regência de outras leis, e suas chagas começaram a sangrar. Frei Leão foi a testemunha da coroação do seu pai espiritual.

            (...)Multidões de pessoas iam a Assis, procurando-o onde estivesse, para ver de perto as chagas do Cristo, que Francisco ostentava nas mãos, nos pés e no peito. Ele sofria dores nos ferimentos, como se também tivessem sido provocados pelos cravos e pela lança. Todavia, nunca reclamava, não saía do clima da alegria nem blasfemava. Recebia tudo aquilo como um cântico de Esperança, que transformava a dor em Paz.

            (...) Com o passar dos dias, Francisco sentiu vontade de ir para Riéti, e os seus companheiros de jornada evangélica o satisfizeram, levando-o com todo cuidado que deve ser dispensado a uma alma que somente canta o Amor.

            (...)Parava aqui e ali, para abençoar a multidão e em seus lábios riscava-se permanentemente um sorriso, denunciando a alegria dos sentimentos junto ao povo daquela cidade que pastoreava. Somente naquela passagem curou inúmeras pessoas enfermas, inclusive um cego de nascença, que saiu pulando de alegria, qual o cego de Jericó, quando tocado pelas mãos de Jesus.

            (...)De Riéti, Francisco seguiu para Cortona, onde sua saúde piorou. Já não podia andar mais e as pernas não obedeciam à sua vigorosa vontade. Hospedado em casa de um confrade, curou a sua filha paralítica. Na mesma residência era visitado por três cães, que vinham todos os dias lamber as suas chagas, e ele sentia com isso grande alívio, agradecendo a visita dos animais. Os pássaros não o esqueciam e, nas árvores e nos telhados das casas próximas, cantavam anunciando novo dia, e por vezes entravam pela janela, indo pousar em seu peito, alegrando-o com seus estridentes cantos. (Francisco de Assis.Cap. 25. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Francisco de Assis era portador de várias enfermidades, que seriam identificadas, se submetido a investigações científicas. Porém, no plano do Espírito, ele era estimulado em todas as suas faculdades espirituais.(...)Sofria, continuadamente, intensa dor de cabeça, por limitação nas condições do físico, para acomodação de Espírito daquele quilate. Todavia, tudo fora previsto antes do seu nascimento. Essa inquietação biológica, fá-lo-ia buscar coisas mais grandiosas: amar mais, purificando cada vez mais o perispírito, chegando ao ponto de encontrar a felicidade na dor.(Francisco de Assis.Cap. 26. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

            (...)Quando notou que seu estado piorava cada vez mais, e sentindo que se aproximava o momento de sua despedida para o mundo espiritual, Francisco manifestou vontade de ir embora para Assis, sua terra natal. (...)O seu corpo abrira-se todo em chagas e tinha de ser levado com muito cuidado. Para tanto, fizeram uma maca de madeira, forrada de capim, de modo que ele pudesse viajar com mais conforto. (...)A caminhada foi longa. Pai Francisco estava cego e tinha velhas enfermidades de fígado e estômago. Os pulmões não eram os mesmos, e sofria dores por todo o corpo. A dor de cabeça não o deixava um só minuto, não se alimentava mais, os órgãos digestivos se atrofiavam e o esôfago estava comprimido; os pés e as pernas incharam e a voz começara a sumir. No entanto, era de se admirar o seu vigor mental. De nada se esquecia, e respondia a tudo que se lhe perguntasse com precisão e acerto.             (...)A sua chegada em Assis comoveu a todos, que acorreram para recebê-lo, como o santo da Terra que era.

            (...)O calendário marcava a data de três de outubro de 1226...

            Rumaram para o hospital dos hansenianos e quando Frei Masseu anunciou a chegada de Pai Francisco, foi uma grande alegria. (...)Naquele quadro de Amor, dois dos leprosos foram curados pelo toque do santo.

            (...)Partiram dali para o Rancho de Luz, coberta improvisada como uma igreja no seio da natureza, dentro da simplicidade e da pobreza que Francisco desejara.(...)Lembrou-se de Clara, visualizou sua figura, como se estivesse à beira do seu leito, falando-lhe do Amor, daquele Amor que ultrapassa as barreiras do egoísmo e do ciúme, daquele Amor que supera o da família e o da pátria, para somente concentrar-se no Amor universal, personificado pelo Cristo de Deus. Mandou chamá-la, porem ela não pôde comparecer... (...)O Sol começava a apagar-se no poente, quando a alma Francisco de Assis começou a apagar-se no poente da vida física, para esplender fulgurante na eternidade. Os frades, todos de joelhos, cantavam e choravam baixinho, e Francisco ascendeu às alturas. Frei Rogério viu com toda a nitidez Pai Francisco subindo aos Céus refulgindo-se em luzes, ao encontro do Cristo. (Francisco de Assis.Cap. 27. Espírito Miramez. João Nunes Maia)

 

Observação (1): Amigo e seguidor de Francisco de Assis na personalidade de Shaolin-irmão Luiz, Miramez, além de descrever lances desconhecidos da vida e da obra do Francisco de Assis, enfoca, com felicidade rara, dentro da filosofia reencarnacionista, a ação inestimável dos Espíritos enobrecidos pelas conquistas morais, na obra infinita do Criador, em colaboração direta com Jesus... (pág.2)

Observação (2): Jarla era uma velha grega, serva da casa de Pedro Bernardone (pág.93) .

Observação (3): Foli era o nome da mocinha escrava, que posteriormente tornou-se serva da casa de Pedro Bernardone e passou a morar lá (pág. 163 e 166).

Observação  (4): Conflitos entre Feudos e Comunas:

A Itália, como toda a Europa daquela época, vivia uma fase bastante conflitiva de sua história, marcada pela passagem do sistema feudal (baseado na estabilidade, na servidão e nas relações desiguais entre vassalos e suseranos) para o sistema burguês, com o surgimento das “comunas” livres (pequenas cidades), com seu comércio, artesanato e pequenas indústrias. Com o novo sistema, mudaram-se as relações. O poder dos senhores feudais passou a ser questionado e enfrentado pelos novos senhores, originários das comunas, a maioria deles constituída pelos comerciantes mais abastados, a exemplo de Pedro Bernardone. Eram frequentes nesta época guerras e batalhas entre os senhores feudais e as emergentes comunas. São conhecidas as lutas entre “maiores”, isto é, a nobreza e os “minores”, vale dizer, a classe emergente.

Além destas lutas, havia choques entre o Imperador, como a força civil do Sacro Império, e o Papa, como chefe espiritual, misturando nesta luta os interesses, de maneira que havia uma constante guerra, ora fria ora real. E a cidade de Assis, por sua posição geográfica no entroncamento Alemanha-Roma, e por sua importância comercial, trocava constantemente de “dono”: ora no alto de sua fortaleza, a Rocca Maggiore, tremulava a bandeira do Papa, ora a do Imperador.

Como todo jovem ambicioso de sua época, Francisco desejava conquistar (...) o título de nobreza. Para tal, fazia-se necessário tornar-se herói em uma dessas frequentes batalhas. No ano de 1201, incentivado por seu pai, que também ansiava pela fama e nobreza, Francisco partiu para mais uma guerra que os senhores feudais, baseados na vizinha cidade de Perúsia, haviam declarado contra a Comuna de Assis. ( Fonte:https://franciscanos.org.br/carisma/sao-francisco#1541514996380-410523b4-f9d2)

 

Bibliografia:

- Francisco de Assis. Espírito Miramez. João Nunes Maia.

- Site: https://franciscanos.org.br/carisma/sao-francisco#1541514996380-410523b4-f9d2. Data da consulta : 19-05-20.