Teatro Espírita*

A VISÃO GERAL

O teatro, como arte agregadora, tem o grande poder de acionar no homem a noção mais pura do belo. Nele encontramos uma rica confluência de artes:

As artes plásticas relacionam-se com o sentido da visão e, através de cenários elaborados, transmitem ao homem toda a “Magia Teatral”; isto é, o sentido da vida que o teatro é capaz de captar e desenvolver diante de nossos olhos.

A iluminação funciona como uma espécie de "pincel mágico". Com suas cores, confere a uma simples imagem cênica força e expressão.

A sonoplastia permite que a música amplie os sentimentos e as emoções, envolvendo o público com suas vibrações sutis e poderosas.

Também encontramos no teatro a dança, a expressão corporal e a literatura. Trata-se, portanto, de uma potente aglomeração de forças capazes de tocar o coração do homem em sua essência mais pura: o espírito eterno.

Porém, como potência agregadora que é, o teatro pode despertar, quando mal conduzido, instintos inferiores que ainda habitam o espírito, atuando em sua sensibilidade de forma desastrosa.

O Espiritismo, que é o Consolador prometido por Jesus, dá ao teatro e `as artes em geral recursos jamais imaginados. Como disse Allan Kardec em Obras Póstumas, o conhecimento da realidade espiritual oferece um leque imenso de possibilidades criadoras aos artistas que buscam banhar-se nesse mar de recursos.

No entanto, nunca devemos nos esquecer de que usar a arte como veículo de divulgação doutrinária significa abordá-la em sua verdadeira finalidade, tão bem sintetizada por André Luiz em sua obra Conduta Espírita: “A arte deve ser o belo criando o bom”. No que se refere ao teatro, razão deste nosso trabalho, devemos sempre atentar para dois pontos fundamentais :

1º) Fidelidade Doutrinária : Para que sejam realmente um potente veículo de divulgação doutrinária, os textos, bem como todas as possibilidades cênicas, devem estar fiel e puramente embasados nos princípios doutrinários; calcados na codificação kardequiana e em obras complementares de fonte segura.

2ª) Conhecimento Teatral : É importante que aquele que se dedique a levar a mensagem espírita através do teatro procure se aprofundar nos assuntos referentes a esta maravilhosa arte, que só consegue realmente realizar os seus objetivos quando feita com qualidade. E a qualidade, em qualquer setor da vida humana, só se alcança com conhecimento, amor e dedicação. Pois como disse o Espírito de Verdade : “Espíritas, amai-vos, eis o primeiro mandamento, e instruí-vos, eis o segundo.”

 

EXERCÍCIOS TEATRAIS – DRAMATICIDADE COM ESPIRITUALIDADE

Sabemos que para se “fazer” um bom ator é fundamental a prática de exercícios teatrais, também conhecidos como oficinas ou laboratórios. Neles, os membros de um grupo podem trabalhar os seus potenciais criadores. Mas os exercícios que oferecemos aos grupos espíritas não exploram potencialidades dramáticas puras; antes enfatizam, simultaneamente, a ética e a moral cristã. Seremos mais claros: o potencial dramático faz parte das possibilidades criadoras que todos nós, espíritos eternos, possuímos. Como o objetivo fundamental da doutrina espírita é a evolução de todos, os exercícios devem  não só aquelas possibilidades mas também outras potencialidades do espírito: o amor, a vontade, a consciência, o livre-arbítrio e a disciplina, entre outras.

Nunca usamos exercícios que incentivam sentimentos inferiores, como a sensualidade, porque podem provocar nos membros do grupo posturas transgressoras dos princípios morais contidos no Evangelho. Todavia, é bom esclarecermos, referimo-nos a exercícios motivadores de contatos físicos desnecessários, provocadores de um certo primitivismo que ainda nos habita.

O ator, muitas vezes, precisa interpretar personagens cujo perfil psicológico é repleto de sentimentos contrários ao amor. Isso nos leva a abordar esses sentimentos nos laboratórios que realizamos. Como lidar com eles? É simples: abordá-los não significa incentivá-los. O fato de a violência ser usada como recurso em uma cena não quer dizer que a agressão se faça necessária nos exercícios. Sempre encerramos os nossos laboratórios com dinâmicas que valorizam o amor e a fraternidade; enfim, as virtudes em geral. O amor é a destinação de todos nós, por isso sempre procuramos deixar nos membros do grupo teatral a influência benéfica desse sentimento maior.

Nosso esclarecimento é motivado pelo argumento de muitos pseudo-artistas que, apoiados no frágil princípio de que a arte dever ser livre, tentam apartá-la da verdadeira moral.

Aprendemos com os ensinos do meigo Jesus que a verdadeira liberdade está em vivermos harmonizados com as leis de Deus. Assim, torna-se inconcebível imaginarmos uma verdadeira liberdade alicerçada na imoralidade.

A nossa proposta é a de fazer com que o membro do grupo teatral espírita atente para o fato de que, antes de ser um artista, ele é um espírito, devendo acima de tudo procurar vivenciar o Evangelho de Jesus em todas as atividades de sua vida.

 

DIREÇÃO TEATRAL

O diretor teatral espírita deve sempre estudar as obras kardequianas e estar vinculado a atividades doutrinárias na casa espírita, para que possa ser fiel aos princípios doutrinários em suas aplicações teatrais. Deve também se aprofundar no conhecimento das teorias e técnicas teatrais, a fim de que possa dominar a arte a qual se dedica.

Deve ser aplicado e amigo daqueles que, espontaneamente, aceitam a sua direção. Enfim, deve ter no Evangelho o roteiro seguro para a realização dos seus trabalhos.

No que diz respeito à orientação cênica, o diretor deve atentar para três fatores básicos :

1º) Possibilidade Dramáticas: Observar no trabalho do ator todas as possibilidades dramáticas possíveis, transmitindo-lhe noções em geral que norteiem a cena e os caminhos dramáticos que a façam ganhar vida e grandeza.

2º) Possibilidade Cênicas : Observar na cena tudo aquilo que pode ser acrescentado, a fim de que obtenha mais realidade e dinamismo: arrumação da fotografia cênica, luz, sonoplastia, vestuário, adereços, etc. Nunca deve se esquecer de que nada deve ser colocado em cena sem objetivo. Tudo o que nela se usa deve estar a ela relacionado.

3º) Possibilidade Técnicas : Corrigir no ator tudo aquilo que esteja dificultando o seu bom desempenho cênico, bem como incentivar nele o uso de recursos que o ajudem em seu trabalho: a máscara facial, a voz, a expressão corporal, a marcação, o uso adequado da língua portuguesa. Enfim, tudo deve ser observado pelo diretor, que deve sempre visar à melhoria das cenas.

 

O ATOR

O ator é, sem dúvida, o elemento fundamental do teatro. Através de seu trabalho as platéias sentem-se envolvidas pelas mais incríveis emoções.

Todo o espetáculo teatral gira em torno do ator, que é a “imagem e semelhança” do público. Isso quer dizer que é através dele que o público vê sua própria história e se identifica, porque o teatro é capaz de retratar a própria história da humanidade.

O ator espírita deve estar consciente da sua nobre tarefa de seguir Jesus e divulgar seus ensinamentos. Ao contrário do ator comum, ele não deve buscar a evidência pessoal e sim anular-se para que a mensagem cristã-espírita apareça soberana, tocando os corações para a reforma do bem, através do seu trabalho de amor.

O ator espírita deve ser um membro atuante na casa espírita, participando de suas atividades doutrinárias e assistenciais, pois o teatro é apenas mais um meio de divulgação da doutrina. O ator deve se lembrar de que, antes de ser um ator, é um espírito-espírita, e que deve trabalhar em todas as atividades possíveis para a divulgação do espiritismo.

Somente estudando e participando das atividades doutrinárias poderá adquirir o alicerce necessário no desempenho de sua tarefa no teatro-espírita.

Além de estudar o espiritismo, deve estudar também as teorias teatrais, para que possa realmente fazer da arte “O belo criando o bom”.

 

A GÊNESE DO PERSONAGEM

Com o intuito de desempenhar bem o seu papel na cena, é fundamental que o ator conheça o “perfil psicológico” do seu personagem, o que nem sempre está completo e explícito no texto teatral. Por isso é importante que ele crie a “gênese” de seu personagem. Isso significa tentar resumir por escrito sua vida, desde o momento em que nasceu até o instante em que entra em cena. Esse resumo deve procurar sempre manter a coerência com o texto e com os outros personagens, todos vinculados, de alguma maneira, à trama que o texto oferece.

A “Gênese” dará ao ator condições de conhecer melhor o seu personagem, o que beneficiará a sua atuação. Deve ser escrita na primeira pessoa.

A “Gênese” deverá ser entregue ao diretor do espetáculo, ficando uma cópia com o próprio ator. Deverão também receber cópias os atores que têm personagens vinculados diretamente ao personagem de cada Gênese.

 

A DRAMATURGIA ESPÍRITA

Um texto, para ser considerado realmente espírita, deve respeitar os princípios contidos na base sólida que é Kardec. Não é pelo fato de abordar a reencarnação, por exemplo, que um texto é necessariamente espírita. O texto espírita é aquele que não fere, em nenhum momento, qualquer princípio doutrinário, estimulando e divulgando o espiritismo em sua essência.

No campo da dramaturgia, nunca devemos nos esquecer de que uma obra literária boa deve ser clara e conter uma trama que envolva e esclareça o público ao mesmo tempo. O texto deve ser funcional, isto é, de fácil encenação. Para que sejamos capazes de reconhecê-los e produzi-los devemos ler textos teatrais com freqüência e estudar as suas técnicas, para nos familiarizarmos com a linguagem teatral.

 

SONOPLASTIA

A sonoplastia é de suma importância na atividade teatral. O sonoplasta espírita, em primeiro lugar, deve seguir todas as recomendações gerais dadas acima ao espírito-espírita. Além disso, o estudo de técnicas, teorias teatrais e principalmente música é fundamental. Quanto às suas tarefas específicas, é necessário que o sonoplasta possua um repertório musical minimamente diversificado, para que possa fazer de sua atividade um instrumento de ampliação do sentimento da cena.

Lembrando-se sempre de que as músicas e sons utilizados devem estar intimamente ligados ao que acontece na cena, o sonoplasta deve acompanhar o texto passo a passo e estudá-lo também, a fim de desempenhar cada vez mais satisfatoriamente sua tarefa.

 

ILUMINAÇÃO

A iluminação é muito importante para o teatro. Através dela conseguimos ambientalizar a cena e ampliar as emoções nela exploradas.

O iluminador deve dominar técnicas teatrais de luz e, acima de tudo, ter conhecimentos práticos de eletricidade, para que possa desempenhar sua tarefa com qualidade e segurança.

Para o desempenho satisfatório de suas atividades, é fundamental também que o iluminador conheça bem o texto e as marcações cênicas determinadas pelo diretor do espetáculo.

Todas as equipes envolvidas numa peça teatral devem estar entrosadas, porque o sucesso do trabalho dependerá do funcionamento harmonioso das engrenagens da peça.

 

FIGURINOS E ACESSÓRIOS

Os figurinos e acessórios utilizados em cena devem ser sempre coerentes com a época em que acontece a ação ou com o simbolismo que o diretor queira dar a ela.

Na abordagem espírita devem ser explorados recursos diferenciados para a caracterização de espíritos desencarnados e encarnados. O vestuário deve tentar deixar claro também o grau de evolução dos desencarnados, para que não haja confusão por parte do público.

 

CENÁRIOS

O teatro espírita geralmente é realizado na casa espírita, onde os recursos cênicos nem sempre são favoráveis. Por isso, os cenários devem ser leves e de fácil manuseio. É também aconselhável, no caso de mudanças constantes de ambientes na peça, o uso de cenários "abstratos". Neles, um mesmo objeto é usado com várias finalidades. Ex : Uma cadeira pode numa cena servir como sofá; em outra, como cadeira de fato.

 

MAQUIAGEM

A maquiagem no teatro serve para acentuar a expressão característica do personagem, bem como para alterar os traços do ator, a fim de que ele possa se harmonizar, por exemplo, com a idade cronológica do tipo que representa.

Conhecimentos elementares encontrados em livros e cursos especializados são importantes para quem queira se dedicar a esta tarefa.

 

TEATRO INFANTIL

O teatro infantil é muito importante para a doutrina espírita. Através dele, conseguimos levar o evangelho aos espíritos que se encontram estagiando na fase infantil. Fase essa em que os conceitos e princípios doutrinários são mais facilmente introjetados no inconsciente do espírito.

No teatro infantil alguns princípios devem ser observados: a criança é muito voltada para o campo visual, ou seja, é muito atenta a tudo o que atinge o sentido da visão. Por isso as encenações devem ser coloridas; os atores, por sua vez, valorizando gestos e movimentos, conseguirão prender mais a atenção do público infantil.

Os textos devem ser alegres e dinâmicos, com falas curtas e claras, pois quando usamos textos longos dispersamos as crianças e fugimos do nosso objetivo.

Devemos também usar bonecos e marionetes. Fazendo parte do universo infantil, conseguem prender bastante a atenção dos pequeninos.

A participação das crianças é fundamental; porém, não devemos nos esquecer de que elas não devem dominar a cena. Caso isso aconteça o resultado poderá ser negativo: uma bagunça generalizada.

 

O GRUPO DE TEATRO NA CASA ESPÍRITA

A casa espírita que queira formar um grupo teatral deverá lembrar-se sempre de que, sendo o teatro uma atividade da casa, terá de respeitar a disciplina comum a todas as reuniões que acontecem no centro espírita.

As reuniões devem ocorrer em dias e horários pré-fixados, pois toda frente de trabalho que se abre recebe o amparo espiritual necessário; para que esse amparo seja eficaz, é fundamental que se respeitem datas e horários.

Recomendamos sempre a leitura de uma “página” evangélica, bem como preces, inicial e final, para que se possam iniciar e encerrar os trabalhos em sintonia com o amor do Pai.

Como os ensaios e laboratórios trabalham emoções e sentimentos dando ênfase na impostação de voz, as reuniões do grupo de teatro não devem acontecer em horários de reuniões públicas, mediúnicas, ou qualquer outra que necessite de um ambiente silencioso. São preferíveis os dias em que o barulho dos ensaios não venham a atrapalhar as demais atividades do centro espírita.

Não se deve cancelar qualquer atividade da casa espírita (aulas de evangelização, por exemplo) sob pretexto de que é necessário ensaiar uma peça.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tentamos em poucas linhas demostrar a importância do teatro como veículo de divulgação doutrinária. Porém, como prova de fidelidade aos princípios da doutrina que abraçamos com tanto amor, procuramos também esclarecer sobre a importância do estudo e da dedicação, suas bandeiras, para que possamos fazer da arte o que realmente ela é: a mais bela manifestação do amor Divino !

Que Jesus nos ampare, e que possamos sempre nos dedicar `a propagação desta doutrina maravilhosa que é o espiritismo.

Jamais nos esqueçamos de seguir os passos seguros do Meigo Nazareno, pela trilha abençoada da codificação kardequiana.

Muita Paz !

Odilon Silva, em nome da equipe que orienta o Grupo Sentimento. (Psicografia de Sidney Pinto Guedes).

 

BIBLIOGRAFIA RECOMENTADA

Livros Espíritas

Livro dos Espíritos – Allan Kardec

Livro dos Médiuns – Allan Kardec

Céu e Inferno – Allan Kardec

Obras Póstumas – Allan Kardec

 

Livros de Teatro

Preparação do Ator – Constantine Stanislavisk

A Construção do Personagem - Constantine Stanislavisk

 A Criação do Papel - Constantine Stanislavisk Gênese – Allan Kardec

 

(" Teatro Espírita.  O belo criando o bom ". Grupo Espírita de Teatro Sentimento - 20º CRE da USEERJ. Data : 03/01/1999. Fonte: https://www.dij.ceeak.ch/teatro/apostilas_sobre_teatro/index.html)