Pestalozzi e a pedagogia do amor

            Pestalozzi, o educador suíço, nascido em Zurique, herdeiro de Rousseau, atingiu aquilo que poderíamos chamar de Cristianismo  essencial, sem qualquer implicação ritualista ou  dogmática, mas com profundo compromisso existencial e ético —  que ele próprio realizou  em sua vida totalmente dedicada à humanidade. Para ele, “o Cristianismo é pura moralidade, por isso é coisa da individualidade de cada ser humano” 303 e ainda: “A missão final do Cristianismo, como está revelado na Santa Escritura e proclamado nas páginas da história, parece­me que está no objetivo de levar a cabo a educação da humanidade”. 304 Na linha libertária, que estamos seguindo, apresenta­-se a proposta cristã como facilitadora da realização plena do ser, de forma autoconstrutiva. Acabam-­se em Pestalozzi quaisquer resquícios de queda e, portanto, dentro da lógica apresentada até aqui, esvai­-se todo autoritarismo. Pestalozzi não idealiza um Estado fechado, onde se concretize o ideal de justiça, constrangendo o indivíduo a adaptar­-se a ele, mas entrevê um movimento evolutivo da história e da humanidade, que, não deterministicamente, mas a partir da liberdade humana, poderá levar a uma sociedade melhor.

         Estudemos, entretanto, como aparece essa noção evolutiva nas ideias pestalozzianas e como ela se liga com sua proposta pedagógica.

        O cerne da sua filosofia, como já demonstramos alhures 305 , está em sua obra­prima MINHAS  INDAGAÇÕES SOBRE  A MARCHA  DA NATUREZA NO DESENVOLVIMENTO  DA ESPÉCIE HUMANA. Nela, Pestalozzi desenvolve a teoria dos três estados —  natural, social e moral —  que podem ser  compreendidos simultaneamente como três etapas de desenvolvimento da espécie, do indivíduo e da criança, mas ao mesmo tempo como três instâncias psíquicas e existenciais, imanentes em todos os seres humanos. A relação entre um estado e outro se dá dialeticamente. Mas, andamos longe de uma dialética panteísta à moda de Hegel ou do materialismo histórico, à moda de Marx, porque se trata de um processo individuado, de um devir evolutivo de cada um, em que a fase a se atingir se traduz numa síntese das etapas ou instâncias anteriores.

         Para Pestalozzi, o estado natural seria a instância dos instintos básicos da criatura: “O homem nesse estado é filho puro do instinto, que o conduz simples e inocentemente para todos os gozos dos sentidos”. 306 Não há idealização deste estado, nem julgamento negativo, mas apenas constatação de uma natureza básica, presente no homem. Até aí, ele é rousseauniano. Já o estado social — conceito diferente do de Rousseau, que o vê como estado de queda — é, em Pestalozzi, aquele em que a organização externa da sociedade se opõe ao puro gozo dos instintos. Para viver em sociedade, o homem é obrigado a reprimir seus desejos fundamentais, criando-­se um conflito que pode levar à neurose individual ou  às guerras e revoluções no plano coletivo, pois que o foi reprimido pode vir à tona de forma violenta ou doentia 307 . “O estado social constitui­-se basicamente em limitações ao estado natural”. 308

        O homem não deixou de ser no estado social, o homem instintivo, desejoso de posse material e usufruto do prazer carnal. Então, procura compensar a perda de sua liberdade natural, com substitutivos sociais: “Simples satisfação é a cota do estado natural. Esperança é a cota do estado social. Não pode ser diferente: toda a estrutura da vida social repousa em representações que basicamente não existem —  ela é uma representação. Propriedade, lucro, profissão, autoridade, leis não meios artificiais para satisfazerem minha natureza animal pela escassez de liberdade animal...” 309

        Pestalozzi vê, pois, com desconfiança as instituições sociais convencionais, inclusive as leis, porque têm sido obra deste homem cindido em dois estados, natural e social. Reconhece assim um caráter repressor nas regras sociais, compensado por um caráter ilusório de suas vantagens. A educação, neste contexto, é vista como instrumento  de opressão do  ser  natural do homem, criando­lhe conflito e infelicidade, com o que ele irá procurar ilusões de poder, luxo, dinheiro e posição, para preencher a insatisfação íntima de que se vê possuído. A educação, dessa forma, só deseja enquadrá-­lo socialmente, oferecendo­-lhe migalhas de ilusão em troca. “Vivo como homem animal completamente insatisfeito no estado social, o gozo do direito é para meu ser animal apenas aparência. Para este, só o pleno poder do instinto e sua ilimitada liberdade é verdadeiro direito”. 310

        Há, porém, para Pestalozzi, uma terceira instância no homem ou  uma terceira etapa a ser atingida, em que se resolvem todos os conflitos, e em que o homem pode se realizar de fato —  o estado moral — no qual o estado natural se transfigura, porque o homem canaliza e sublima os instintos e o estado social se santifica, pela ação moral espontânea e livre. Neste estado moral, o homem é obra de si mesmo. Transcende o determinismo biológico e as imposições sociais, para fazer a si mesmo e aí reside a sua liberdade. Mas só tem essa capacidade de superação de si, porque é alma imortal, essência divina. “Esta força existe porque eu sou e eu sou porque ela existe”. 311

        Dessa maneira, Pestalozzi ao mesmo tempo precisa e completa as ideias de Rousseu  e antecipa algumas ideias fundamentais da visão espírita, sem no entanto falar em reencarnação, intuindo o princípio  espiritual como germinação, como potencialidade de perfeição, que, no atrito com os instintos animais e com as imposições sociais, tem a possibilidade de se realizar, desde que o ser se assuma como construtor  de si mesmo. “Se eu  te declaro animal no envoltório do teu  nascimento, não coloco o objetivo da tua perfeição nos limites do invólucro da tua origem. Vejo o interior do teu ser como divino, assim como o ser interior da minha natureza (…). Se o homem planta uma árvore ou uma flor, ele a enterra no solo, põe esterco na raiz e a cobre de terra. Mas o que ele faz com tudo isso ao ser íntimo da flor? O material, através do  qual a semente se desenvolve, é em toda a natureza infinitamente de menor valor que a semente em si.” Ora, o  espírito é a semente, posta no esterco dos instintos e envolta pelas circunstâncias sociais, que deve germinar para completar­se, enriquecendo­se no contato da matéria e na interação social. Não houve queda, nem tragédia essencial. Há apenas um processo dialético  de desenvolvimento na história humana e na história de cada um. O mal é nesse contexto apenas o ser ainda não atualizado, sufocado entre as exigências do instinto e as ilusões sociais.

         Retoma Pestalozzi de maneira mais profunda a ideia de Sócrates, sendo o mal ignorância de si mesmo, alienação da verdadeira natureza moral — e, por isso, quem age mal não pode ser feliz, porque age contra sua própria vontade (como diria Rousseau), considerando­se essa vontade como a vontade profunda e autêntica do homem moral, que todos somos, e não como o desejo fugidio e insaciável do homem animal.

         O desafio da educação é despertar esse ser moral, para que ele empreenda sua autoconstrução. Pestalozzi, assim, compreendendo o ser humano como alma, vê a criança “como uma força real, viva e ativa por si mesma, que desde o primeiro instante de sua existência, age organicamente, dirigindo seu  próprio desenvolvimento e expansão…”.

         E por isso, não se trata de moldar, dirigir, impor­-se a esse desenvolvimento, mas “o objetivo proposto pelo método é de tocar, vivificar e fortificar o que há de verdadeiramente humano, espiritual e moral na criança”. 312

        Inverte­-se o papel da educação praticada no estado social, que é repressão e moldagem: “o método  é essencialmente positivo (…), ativar e fazer a criança conceber a si mesma não é limitar a partir do exterior, mas fazer crescer a partir do interior. O método não tende a um impedimento negativo do mal, mas a uma vivificação positiva do bem. Ele trabalha contra a fraqueza, pelo acréscimo da força realmente existente; contra o erro, pelo desenvolvimento dos germes inatos da verdade; contra a sensualidade, nutrindo e fortificando o espírito…” 313

        A questão é como engajar a vontade moral do ser — desde a fase infantil —  para que se realize como homem integral (segundo Pestalozzi, esse desenvolvimento  deve ser harmonioso, integrando mãos, coração e cabeça. “Há que se cultivar de tal modo as faculdades da pessoa que nenhuma delas predomine às custas da outra…”) 314

         Aparece então a maior contribuição de Pestalozzi à teoria pedagógica que estamos delineando. Afirma ele que o acesso a essa vontade profunda do ser, a possibilidade de tocar a divindade íntima do homem está no amor, que ele chama de “força elementar da moralidade”. 315 Uma vez ativado esse impulso fundamental, ele passa a reger um desenvolvimento harmonioso e espontâneo, em que não faltam o esforço do sujeito e o empenho do educador, mas que se dá a partir do interior da criança, de forma natural e não­coercitiva.         Não se trata de uma sentimentalidade tola, nem tampouco de uma romantização do processo pedagógico, mas de uma atitude concreta do educador, que respeita no educando um ser inteiro e toca, amando­-o, o fundo de sua alma, onde se enraízam os dons divinos da perfectibilidade humana. Aclara­se a tarefa da educação, como um processo de entrega, não­violento, delicado e cuidadoso: “Compenetrado do sentimento de sua própria fraqueza, o educador não se atreve a regrar violentamente o desenvolvimento de seu aluno, a conduzi­-lo arbitrariamente nesta ou  naquela direção, a lhe impor sua ideias, suas visões e suas opiniões. Ele alimenta e trata com um santo respeito a semente que o Pai Celestial plantou  na criança, tomando  cuidado para nada destruir, por medo de arrancar o bom grão, junto  com o joio. Neste espírito, com sentido cristão, fazendo abnegação de si mesmo, reverenciando a natureza humana sem nenhuma exceção, trabalhando como um instrumento de paz pelo Reino de Deus, ele se mostra revestido de uma espécie de sacerdócio, como um mediador entre a criança e a vida”. 316

        Nesse contexto, a educação não pode ser massificada, homogeneizada, padronizada, porque a relação educador/educando se funda na globalidade do ser. Esse ser humano tem uma essência divina que o liga a todos os outros, tornando a educação uma proposta universal e fundada em princípios gerais, como queria Comenius, mas também revela uma singularidade, que só pode ser tocada pelo sentimento.

        Já Rousseau  havia buscado um equilíbrio entre razão e sentimento, exaltando a sensibilidade como  fator de progresso moral do homem, a ponto de notar que a própria consciência (a luz interior, que ele toma por guia de conduta) se manifesta em forma de sentimento (o remorso). Mas ninguém, como Pestalozzi, enfatizou tanto o amor como fundamento, meio e finalidade da educação. Não o faz em detrimento de uma racionalidade, que também adota, buscando a prática de um amor “vidente” ou  “esclarecido”, que não se perca nos impulsos de uma sentimentalidade desgovernada. (Que nada se faça, “mediante os frios cálculos da razão, nem tampouco levado apenas pelos impulsos do coração: procura ao invés que todas essas forças se conjuguem...”. 317

        Mas, para Pestalozzi, o amor  pedagógico é justamente o  que não apenas enxerga, mas sente o ser humano como detentor de potencialidades, como herdeiro da divindade e como dono de si mesmo, no processo de auto­educação, que o Cristianismo veio  deflagrar na humanidade e que o educador deve deflagrar no educando.

         Desta forma, Pestalozzi envereda por uma proposta educacional que conjuga universalismo (ele é considerado um dos pais da escola popular)  e individualização; autonomia e liberdade com forte presença e estímulo do educador; ênfase na proposta de formar o homem ético, sem desprezo pelo desenvolvimento cognitivo e, afinal, ideais de transformação sociopolítica, sem apelo a um sistema totalizante e autoritário. E é essa visão filosófica e pedagógica que Rivail herda diretamente de seu mestre.

 

303 PESTALOZZI, Johann Heinrich. Sämtliche Werke und Briefe.  Kritische Ausgabe.  Zurique,  Orell Füssli, 1927­1980, vol. 12, Meine Nachforschungen, p. 157. 

304 Idem, ibidem, vol. 26, Letters on early Education adressed to J. P. Greaves, p.140. 

305 INCONTRI, Dora. Pestalozzi, Educação e ética. Ed. cit. 

306 PESTALOZZI, Johann Heinrich. Op. cit., vol. 12, Meine Nachforschungen, p. 68. 

307 Analisei brevemente em meu trabalho sobre Pestalozzi, a semelhança de sua teoria com a de Freud,  com a diferença de que para Freud não há instância de superação para este conflito, ao passo que, para Pestalozzi tudo se apazigua na autonomia do ser moral. Ver INCONTRI, Dora. Op. cit., Cap. 3, p. 58­74. 

308 PESTALOZZI, Johann Heinrich. Op. cit., vol. 12, Meine Nachforschungen, p.76.

309 Idem, ibidem, p.77. 

310 Idem, ibidem, p. 95. 

311 Idem, ibidem, p. 105.

312 Idem, ibidem, vol. 28, Méthode théorique et pratique de Pestalozzi pour l’éducation et l’instruction

élémentaire, publié en français par lui­même, p. 296. 

313 Idem, ibidem, p. 297. A proposta de Pestalozzi deve ser resgatada diante dessa avalanche atual de um discurso pseudo­pedagógico que percorre a mídia  e anda de boca em boca no Brasil,  da chamada “imposição de limites”. Além de ser usada como panacéia  e receita pronta de educação, essa proposta revela extremo autoritarismo, pois considera a criança exatamente como um ser que deve se enquadrar em determinadas regras prontas de comportamento e não como uma consciência  autônoma,  que deve se desenvolver como tal. 

314 PESTALOZZI, Johann Heinrich.  Op.  cit.,  vol. 26. Letters  on early Education adressed to J.  P.  Greaves, p. 57. 

315 PESTALOZZI, Johann Heinrich. Gesammelte Werke in zehn Bänden. Zurique, Rascher Verlag, 1945,  vol. 10, Geist und Herz der Methode, p. 343.

316 Idem, ibidem, Lenzburger Rede, p. 31. 

317 PESTALOZZI, Johann Heinrich. Sämtliche Werke und Briefe. Kritische Ausgabe. Ed.  cit.,  vol. 26. Letters on early Education adressed to J. P. Greaves, p. 57.

( Pedagogia Espírita.  Um projeto brasileiro e suas raízes histórico - filosóficas. Dora Alice Colombo (Dora Incontri). Tese de doutorado . FEUSP . São Paulo, 2001)