O Educando na Adolescência

        Se devemos levar em conta a influência do meio e do próprio espírito encarnado, na análise da infância, essas variantes são ainda mais fortes quando falamos da adolescência. Primeiramente, porque é na adolescência que começa a se manifestar mais fortemente a personalidade do espírito, e ao alcançar essa idade ele já recebeu a maior e a mais determinante influência da educação presente. Assim , a adolescência pode ser um período muito diferenciado para cada individuo. Dependendo ao mesmo tempo de sua bagagem de outras vidas e do tipo de infância de que está saindo.

        Especialistas no assunto colocam hoje em dia a puberdade (11 a 12 anos) como pequena fase de transição entre a infância e a adolescência (13 a 18 anos).

        Procuremos o que há de universal e o que há de individual, o que há de social e o que há de natural nesse período da vida humana – puberdade e adolescência – buscando definir como a criatura poderá vivenciá-lo de forma equilibrada e útil ao cumprimento de suas tarefas na existência presente.

 

A PERSONALIDADE EMERGENTE

        O fato essencial da adolescência é o gradual despertar psíquico do Espírito encarnado, condicionado pelo desenvolvimento biológico. Corporalmente, o adolescente está se tornando adulto, e espiritualmente está começando a mostrar seu eu profundo. A alma encarnada está em vias de tomar posse definitiva de seu aparelhamento biológico, de sua razão plena, de sua existência presente. Está saindo da tutela alheia para assumir a responsabilidade da própria vida.

        Alguns psicólogos modernos costumam cometer dois erros graves ao analisar esta fase de transição: o primeiro é centralizar toda a maturação do adolescente no plano sexual. O segundo é considerar este período como necessariamente de crise aguda.

        Dentro de uma visão mais integral do homem, deixamos de considerar que na libido está o ponto de irradiação de toda vida física e psíquica humana. E numa proposta educacional equilibrada, a crise da adolescência (como as crises de outras idades) não é uma fatalidade biológica. Ao invés, a presença de uma crise muito aguda indica que o desenvolvimento não está sendo salutar – seja por incompetência da Educação, seja por rebeldia excessiva do Espírito encarnado.

        Conflitos, problemas, questões a trabalhar e a resolver são anturais de todo processo de aprendizagem e desenvolvimento – mas desde que haja maturidade e segurança, principalmente por parte dos educadores, tudo pode ser superado sem traumas e desvios.

        O aspecto principal da adolescência – que é a personalidade emergente do Espírito encarnado – deixa de ser uma grande surpresa e fonte de muitos conflitos se, na fase infantil, já houve uma observação atenta das tendências daquele individuo e se ele próprio já foi estimulado à auto-análise. Se a Educação até aquele ponto, não tiver sido demasiadamente opressora da personalidade encarnada, não haverá uma explosão violenta de tendências desconhecidas.

        Não se pode negar que essa é uma fase mais difícil que a infância, pela aparição de conflitos internos do Espírito encarnado. Juntamente com a personalidade emergente do passado, surgem às vezes vagas lembranças, anseios indefiniveis, que nada mais são do que um eco das existências passadas. Dúvidas existenciais, impulsos diversos e repentinos, melancolia ou revolta podem ser reflexos de outras vidas, que vêm à tona, com o avanço da idade e por isso devem ser trabalhados com cuidado e amor. Analisemos algumas características predominantes desta fase:

Desejo de liberdade

        Já que o espírito está retomando sua personalidade e reassumindo sua vida, é natural que anseie pela libertação da tutela que lhe era plenamente aceitável na infância. Quando nasce esse anseio natural e positivo, é preciso que a educação já tenha conseguido plantar a delicada flor da responsabilidade. Então, a busca de liberdade se pautará naturalmente pelos parâmetros da consciência moral.

        Às vezes, pais e educadores não querem aceitar o crescimento físico e mental dos filhos e alunos e sufocam todo impulso de liberdade, gerando conflitos. Outros acreditam que atender a essa necessidade dos adolescentes significa abandoná- los à própria sina, abdicando de orientá- los. A função educativa não deverá ter absolutamente cessado nesse período, mas deve deixar que aumente gradativamente a quota de responsabilidade do individuo na direção de seu próprio destino.

        Ora, o problema é que o impulso de liberdade por parte dos adolescentes é muitas vezes desviado dos seus objetivos elevados, para a construção de uma personalidade adulta equilibrada. Liberdade para muitos é poder ir à vontade a festas, buscar todos os prazeres e a satisfação de todos os caprichos, realizar todas as “experiênc ias” sexuais possíveis. Então, o legitimo impulso de liberade dos adolescentes se destrambelha por falta de valores morais, que lhe orientem o rumo.

        Na verdade, o individuo só se faz livre na medida em que avança calma e conscientemente na realização de si, no desabrochar de suas potencialidades, e não desperdiçando tempo e talento sem fazer nada de útil e bom para si ou para os outros. Mas isso não se obtém através de imposições e sim de estímulos e exemplos.

        O desejo de liberdade do educando bem orientado não produz o rompimento dos laços afetivos com os educadores. Se o diálogo for aberto, livre e franco, sem melindres, podem, até ocorrer tempestades de conflitos passageiros , afinal tanto a ânsia de saída da casca do ovo, quanto o instinto de proteção materno ou paterno às vezes são fortíssimos. Mas tudo passa, se o amor é sólido e o dialogo autêntico.

Despertar da sexualidade

        Esse aspecto da adolescência é largamente enfatizado atualmente, ao qual, aliás, se quer reduzir essa fase. É obvio que o desenvolvimento físico vai condicionar e permitir a manifestação mais clara da sexualidade ( que mesmo durante a infância, jamais está completamente apagada). Mas, dá-se algo muito diferente do que os materialistas admitem. Para eles, os conflitos aparecem porque o adolescente está descobrindo o que é a sexualidade e fazendo experiências com ela, porque quer se auto-afirmar nesse setor e se sente inferiorizado...

        Ninguém nesse mundo esta iniciando uma vida sexual, mas esta retomando o uso do sexo em outro corpo e em outras condições. Essa retomada biológica é influenciada pelos estímulos presentes, mas também e sobretudo pelas heranças do passado. O problema é que a maioria dos seres humanos, no atual estágio evolutivo, ainda traz desequilíbrios graves, impulsos mal resolvidos, insatisfações profundas nessa área, Assim, o despertar da sexualidade num novo corpo raramente é tranqüilo e isento de conflitos.

        Por isso mesmo, os estímulos externos nesse sentido devem ser muito positivos desde a infância, a orientação o exemplo dos adultos devem ser elevados, a formação moral e religiosa deve ser segura, tudo para que o adolescente tenha condições de enfrentar seus desequilíbrios, anseios e problemas com coragem, serenidade e firme propósito de evolução e não com falsas teorias que recomendam o entregar- se cegamente a todos os instintos.

Carência afetiva

         Nem todos os conflitos que o adolescente enfrenta são devidos meramente ao desejo sexual. A necessidade afetiva, a sede de carinho e companhia são muito mais fortes do que o mero impulso da carne. Aliás, é na busca desses ingredientes, que muitos se entregam precocemente a uma vida sexual ativa.

        O sentimento de solidão, que todo ser humano vivencia durante a existência terrena, parece mais forte nesse período de dúvidas, anseios e conflitos, em que o espírito está se encaixando numa nova realidade existencial. Sem saber, pode experimentar saudades de almas queridas que ficaram no Além, ou com as quais vai se encontrar mais adiante na vida terrena. A dificuldade de se ajustar aos tempos atuais (afinal todos viemos de tempos antigos e há muitos espíritos sensíveis que não conseguem se adequar tão facilmente a esse século de frieza tecnológica) pode também gerar essa necessidade premente e desesperadora de afeto.

        Se os adultos à sua volta se mostram compreensivos e lhe dão carinho e atenção, podem  ajudar a sanar o problema e evitar que o adolescente vá buscar em desvarios sexuais ou nas drogas a compensação para o seu sentimento de carência e solidão.

Rebeldia e reivindicações

         A rebeldia do adolescente e o ímpeto de reivindicar seus direitos estão freqüentemente ligados ao desejo de liberdade. Pode-se tratar de alguma reivindicação justa, apesar de exagerada pela sensibilidade ferida. A ausência afetiva do pai, da mãe ou de ambos, os privilégios injustos de outro irmão ou o excesso de repressão e protecionismo, podem estar na base de uma explosão de revolta.

Quase sempre trata-se de algo sem fundamento lógico. Imerso num turbilhão de conflitos, de emoções desencontradas, de carências e anseios indefinidos, o adolescente manifesta uma rebeldia instintiva, que significa um desajuste momentâneo, uma revolta contra tudo e contra todos.

        O adulto experiente, sereno e seguro, deve analisar se há alguma base que justifique a critica e o desafio de filhos ou alunos, se ele pode corrigir algo em sua própria atitude, ou se tudo não passa de uma tempestade para alivio de tensões. De qualquer forma, deve manter a paciência e não se desgovernar emocionalmente, para servir de ponto de equilíbrio ao adolescente.

Autenticidade

         A sinceridade infantil ainda não morreu na adolescência, mas adquire o ímpeto e a ênfase próprios dessa fase. O Adolescente é franco, autêntico e às vezes gosta mesmo de chocar os mais velhos. Sensível à hipocrisia de muitos adultos, revida em tom de franqueza rude. Se encontrar como resposta a franqueza serena , equilibrada e não-melindrada, ajustar-se-á por si mesmo.

Hipersensibilidade

        O adolescente tem uma sensibilidade exagerada, que se manifesta em meio a lágrimas, mágoas, emburramentos e um sentimento de estar sendo constantemente injustiçado. Isso tudo é fruto desse estado desencontrado de emoções em que se vê.

        É preciso que os adultos respeitem essa hipersensibilidade, sem alimentá-la , para que ela não cresça além dos limites da saúde mental, não crie raízes permanentes na personalidade atual e não degenere em autopiedade, sentimento extremamente prejudic ial ao espírito, pois é uma forma exarcebada de egoísmo. Nesse sentido, é necessário evitar gozações e repreensões rudes, que fortifiquem a autopiedade. A atenção e o diálogo são sempre os melhores remédios.

Atração pelo grupo

        Para preencher a carência afetiva, para realizar seu ímpeto de liberdade (que significa também libertar-se da tutela familiar), para se integrar na realidade presente, o adolescente vai buscar apoio no grupo. De todas as fases da vida humana, esta é a que o individuo mais procura partilhar, mais deseja companhia e reconhecimento dos seus pares. Adolescentes em grupo – eis uma constante universal.

        Isso não significa necessariamente que eles estejam encontrando no grupo a satisfação que procuram. Amizades escolhidas e equilibradas, num relacionamento de troca e de confidências, de companheirismo e de partilha, são úteis e necessárias ao desenvolvimento e à sanidade psíquica de cada um. Mas o convívio desenfreado com muita gente – o bando – nem sempre é uma forma saudável de socialização. Se não recebeu uma educação que lhe tenha permitido desenvolver sua personalidade, o adolescente pode perder a própria identidade, assumindo a identidade coletiva do grupo. É o que acontece nos casos extremos das gangues de toda a espécie, que pululam pelo mundo.

        A vida social do adolescente deve ser orientada pelos educadores, para que o grupo não se torne um apoio ao desequilíbrio. Onde todos buscam a liberdade sem responsabilidade, as experiências desgovernadas e a futilidade por meta principal, geralmente brotam processos obsessivos e maiores insatisfações. Essa orientação deve ser feita, porém, com o devido respeito aos sentimentos e às escolhas do indivíduo, para que ele não se sinta lesado em sua vida íntima.

 

DOENÇAS ATUAIS

        Se a adolescência pode ser um período problemático para grande parte dos espíritos encarnados, pelo fato de ainda carregarmos todos heranças perturbadoras do passado, que começam então a ganhar predominância, a sociedade moderna dificulta ainda mais uma vivência equilibrada dessa fase.

        Muitos pais e mestres se sentem desorientados, por não saberem lidar com determinados problemas do educando. Essa insegurança , que pode ser vencida pelo esforço, pelo estudo, pela oração, pelo amor , facilita as brechas por onde entram os apelos negativos da modernidade. Porém, mesmo aqueles educadores, plenamente conscientes de seu mandato, têm de lutar contra estímulos contrários e poderosos do grupo e dos meios de comunicação.

        Muitas vezes, é na adolescência que se dá o momento decisivo, em que o espírito incorpora a educação recebida –  se é que recebeu uma influencia construtiva – e aceita lutar para se elevar, ou começa a fraquejar ante estímulos negativos do meio, que vêm de encontro às suas tendências negativas do passado.

        É verdade que, como já vimos, a boa educação pode produzir seus efeitos em qualquer época da vida , até em próximas encarnações. Assim, é possível que um espírito se rebele logo cedo contra valores que lhe foram exemplificados em casa, mas na maturidade, ou na velhice até, eles voltam à tona e salvem pelo menos uma parte da existência da derrocada total. Mas também é fato que a adolescência é um dos momentos mais perigosos, para alguns passos no sentido do desequilíbrio.

        O melhor preventivo contra isso, a ser adotado pelos pais, é a presença constante na vida do adolescente: uma presença amorosa, uma autoridade moral, um exemplo autentico, uma referência segura. A ausência, a omissão, a indiferença são os maiores responsáveis pelas doenças espirituais, psíquicas e sociais, que podem contagiar a adolescência.

A apatia

        A indiferença e a apatia podem aparecer como manifestação de tédio da existência, da falta de um objetivo, da carência de amor e estímulo. O adolescente vai se arrastando no dia-a-dia, cumprindo mecanicamente o ritual do cotidiano, sem entusiasmo e sem encanto. Nem o estudo, nem saídas, festas e diversões lhe despertam interesse e elã. Não reage a nada. Esse estado é muito mais perigoso que a rebeldia, pois amortiza as forças da alma e lança o individuo numa espécie de modorra espiritual, mais difícil de ser desfeita do que o ímpeto da revolta.

        Essa apatia pode ser fruto tanto de uma educação repressiva, quanto do abandono. A personalidade oprimida pode revoltar-se ou acomodar-se. E o abandono afetivo pode gerar um desencanto profundo. Mas do ponto de vista espiritual, apatia significa sempre uma desilusão existencial que vem da falta de é, do materialismo. A visão de mundo materialista estiola a alma, resseca as esperanças e o ímpeto de viver. Tudo fica mesquinho e pequeno, se em decorrência dessa falta de um ideal mais elevado alguns se atiram sofregamente à busca de diversões e prazeres, para abafar a insatisfação intima, outros caem na modorra e desinteressam- se de tudo.

        Mas há um fator espiritual que pode alimentar a apatia: a presença de espíritos vampirizadores que sugam as energias do adolescente e estimulam o tédio e até o sono excessivo. Também o desperdício precoce e desequilibrado de energias sexuais, seja através da masturbação ou de relações sexuais com diversos parceiros simultâneos ou sucessivos, pode atrair a vampirização e a conseqüente apatia. Nesses casos, passes e orações farão grande bem.

        De resto, nada melhor para robustecer a alma, dando-lhe animo de viver e entusiasmo de agir, do que valores morais firmes, amor compartilhado e o pensamento elevado para o infinito.

A Massificação

         A sociedade de massas em que vivemos começa a moldar as cabeças desde a primeira infância. O apelo desenfreado ao consumismo, a divulgação maciça de teorias materialistas e niilistas, a valorização do prazer físico em detrimento de qualquer responsabilidade moral, a arte desfigurada pelo comercialismo e pelo kitsh... , tudo isso vai sendo impingido na mente de cada um, pela televisão, pelo cinema, pelos jornais e atualmente até por meio de alguns livros infanto-juvenis (cujos autores já perderam qualquer compromisso com a ética e com o bom gosto, assumindo o interesse comercial e o sensacionalismo como base de seu trabalho).

        Com isso, não estamos criticando os meios de comunicação em si, pois são instrumentos valiosíssimos de divulgação cultural, de informação e mesmo de educação, mas o uso que deles se vem fazendo é na maior parte do tempo negativo e prejudicial. Primeiro, porque o lucro toma a dianteira, deixando em segundo plano os valores éticos e estéticos. Segundo, porque o acesso à produção e transmissão da comunicação está nas mãos de pessoas que não têm elevação moral e senso estético para fazer veicular apenas coisas edificantes e boas.É natural que assim seja. Apesar disso, existem exceções , e não são tão poucas assim. É preciso procurá-las com atenção.

        O resultado geral desse estado de coisas é que, diante dos meios de comunicação, os indivíduos se tornam números de audiência e consumidores em potencial. Tanto num como no outro, procura-se conquistá- los a qualquer preço, moldando seu comportamento, seus gostos, criando- lhes, ou pelo menos despertando-lhes necessidades e sonhos, desejos e impulsos. Como o objetivo é vender (seja o que for : produtos, idéias, audiência...), não se questiona se os comportamentos, necessidades e gostos estimulados são positivos e úteis para o próprio individuo e para a sociedade. O efeito disso é tanto mais devastador quanto menos defesa tiver o indivíduo, na formação e na valorização da opinião própria. Isto é fatal durante a educação, se não houver um espaço psíquico em que a criança e o adolescente possam firmar-se na reflexão crítica , na  construção da própria personalidade, no desenvolvimento dos próprios gostos e tendências.

        Abandonado a si mesmo, sem o empenho de uma educação que se esforce para fazer desabrochar sua individualidade, o adolescente, com sua tendência de ser atraído pelo grupo, vai deixar fortalecer sua identidade na presente enc arnaç ão, para tornar- se um autômato massificado, vestindo- se, falando, pensando, agindo como todo mundo, por osmose...

        Este é um fato tão patente que se pode viajar pelo mundo todo e notar a similitute de atitudes dos adolescentes. Não nos referimos aqui às características universais dessa fase da vida humana, que podem ser comuns a qualquer cultura, mas às assimilaç ões postiç as, desenvolvidas artificialmente pela sociedade de massas, que tornou esse mundo uma aldeia global.

        É claro que para se ter personalidade e ser diferente dos outros, não é preciso adotar atitudes que choquem a maioria, apenas com o objetivo de ser original. Pode-se perfeitamente usar calça jeans e ter uma cabeça própria. O que é preciso é proporcionar a oportunidade de reflexão e crítica, em que o indivíduo construa seu raciocínio e sua visão de mundo, sob a inspiração de pessoas elevadas e idéias sensatas e não se deixe invadir pelas vagas e confusas e incoerentes visões, que lhe chegam de toda parte.

As Drogas

         Sem dúvida, o problema das drogas em nosso século se tornou uam calamidade pública, ceifando milhares de vidas e movimentando internac ionalmente um dinheiro incalc ulável. Porém, por mais que o governo e a policia em todos os paises combatam traficantes e máfias envolvidas (e quantas vezes governos e polícia são aliados e vendidos), nada será eficaz para lutar contra as drogas, senão a educação. Apenas quando os indivíduos estiverem moralmente imunizados é que os tóxicos deixarão de ser explorados para viciar, degradar e matar. Isso se prova pelo fato de que adolescentes e jovens viciados são problema em todos os países, pobres e ricos, em todas as classes sociais, em todas as culturas... o antídoto, assim, não pode ser apenas político ou econômico, social ou médico – deve ser moral.

        O ser consciente do respeito que deve ao corpo e a si mesmo, que ama a vida e ao próximo, que tem ideais nobres e elevados, recusa a autodestruição e a fuga, o suicídio e a letargia. Mas para respeitar e amar a si mesmo, o adolescente deve ter sido respeitado e amado. A rejeição, a violência, o abandono podem induzir um ser humano a tal desgosto de si, que a saída para as drogas se lhe torna atrativa. Para ter amor à vida, apego a alguém e um objetivo, é preciso que lhe tenham proporcionado algum apoio, algum estímulo positivo.

        As histórias trágicas de vida podem assim levar às drogas. Mas, ás vezes, a tragédia não é visível. Alguém pode ter riqueza, instrução, poder e status social e se entregar ao vício. Não é por possuir esses apetrechos exteriores, que recebeu mais amor que outro, violentado e jogado no meio da rua. A solidão e o desespero existencial, o tédio e o desamor podem brotar tanto na favela quanto na mansão. Onde os seres humanos não se falam, não se respeitam, não se amam e vivem o inferno de estarem juntos fisicamente e separados pelo egoísmo – aí aparece a brecha para a destruição.

        Pode-se argumentar que há famílias bem estruturas, de onde saem filhos drogados. Primeiro, é preciso sempre observar se esta estrutura é real ou aparente e se o amor e o dialogo são de fato autênticos e profundos. Em caso positivo, apesar de se sentir amparado, o adolescente pode não ter desenvolvido uma personalidade suficientemente forte para enfrentar as influencias externas, ou não ter uma base moral e religiosa convicta, com que possa derrubar os sofismas que ouve de colegas e amigos. Mas se a família realmente o ama e se interessa por ele, constatado o problema, poderá arrancá-lo do vicio, com muito devotamento e empenho.

        Um fator pouco conhecido, até mesmo por espíritas, e que acompanha todos os casos de droga (de outros vícios não menos graves, como o alcoolismo ou os desequilíbrios sexuais) é a obsessão. Em todo resvalo no crime ou na viciação, há espíritos igualmente criminosos e viciados, estimulando o mal. No entanto, o primeiro passo na queda sempre pertence ao livre arbítrio do encarnado e o primeiro passo da recuperação também depende de seu esforço e vontade. Mas para ter a vontade de lutar e vencer, é preciso às vezes um estímulo externo, que o amor de alguém pode dar.

        O devotamento de uma pessoa que o ame, a ajuda espiritual, a vontade própria e o tratamento médico – esses fatores conjugados podem tirar qualquer um do caminho da droga. O tratamento desobsessivo é importante nesses casos, mas pode-se indagar: como então há pessoas que vencem as drogas, sem ajuda dessa espécie? Ora, na ausência de acompanhamento terreno nesse sentido, nada impede que os espíritos protetores façam a sua parte, ajudando o encarnado a se livrar de uma obsessão, se ele mesmo se ajuda, e encaminhando os obsessores para o bem. É fato que para largar as drogas, o indivíduo precisa ganhar um objetivo de vida, sentir-se útil, achar um sentido... isso significa, de qualquer modo, mudar a sintonia, elevar o padrão vibratório e isso é uma porta de saida da obsessão. Aliás, o processo de desobsessão, que deve cuidar do obsessor e do obsedado, implica na reforma moral deste. Então, tudo o que promova e facilite esta mudança, contribui para a recuperação.

        Essas três doenças – a apatia, a massificação e as drogas – podem aparecer sozinhas ou associadas e uma pode ser causa da outra. Elas podem começar na adolescência, mas atingem igualmente com toda a força a juventude.

(Dora Incontri. Cap XII - O Educando na Adolescência. In: A Educação segundo o Espiritismo. São Paulo: Edições FEESP, 1997. Fonte:http://www.cvdee.org.br/ev_estudo.asp?id=016#estudos)