O anjo consertador

 Quando o crente enfermo conseguiu encontrar, após longas súplicas, o Anjo Consertador, prosternou-se, reverente, e falou, banhado em lágrimas:

— Benfeitor Celeste, socorre-me, por piedade! Trago o estigma do fracasso. Sou profundamente infeliz!… Contra mim permanecem associadas todas as forças do mal. Nas menores particularidades do caminho sou perseguido sem remissão… Meus negócios falham, meus interesses sofrem prejuízos infindáveis, minha saúde perece… Vivo coberto de preocupações e sofrimentos. Embalde, busco o auxílio da prece, porque, depois de frequentar templos diversos e tentar devoções diferentes, me vejo tão aflito quanto antes. Restaura-me o destino! És o benemérito consertador das vidas frustradas. Atende-me! sinto-me desfalecer…

 Deteve-se o emissário angélico e auscultou delicadamente o desventurado. Mirou-o, compadecido, e considerou:

— Realmente, o seu desequilíbrio comove.

 Fixou nele o olhar muito límpido e iniciou carinhoso interrogatório:

— Meu amigo, você tem fé?

— Sim — respondeu o sofredor —, minha confiança em Jesus é ilimitada.

 — E deseja restabelecer sua paz, aplainar seu caminho?

— Suspiro por semelhantes realizações.

 O instrutor fez pequena pausa e acrescentou:

— Você sabe que o homem é uma peça viva, dono de uma consciência própria, senhor de uma razão pessoal e herdeiro de Deus…

— Sim, reconheço.

 — Pois bem — ajuntou o ministro da espiritualidade —, o serviço restaurador que me compete há que basear-se na aceitação do homem. Não podemos assaltar o coração, quando a criatura se refugia na cidadela da vaidade e do orgulho. Assim, se você nos aguarda a intercessão, responda lealmente às minhas perguntas.

 O enfermo, envolvido na luz irradiante do embaixador celestial, reconheceu que seria inútil mentir.

— Você vive em família e exerce uma profissão regular?

— Sim…

 — Compreende seus deveres de amor, gentileza e assistência para com os domésticos e suas obrigações de respeito, solicitude e atenção para com os superiores e subalternos? Vivendo em comunidade, na luta diária, sabe livrar seu fígado e seu coração das nefastas projeções vibratórias do ódio e da revolta? Exercita, regularmente, suas noções de fraternidade? Combate a intemperança mental pela contenção dos impulsos inferiores? Procura dar a cada pessoa que o cerca o que lhe pertence? Serve sem reclamações e evita o clima escuro da maledicência? Põe o espírito de serviço acima de suas preocupações individuais? Preserva, em suma, a própria paz?

— Oh! tudo isto é demasiadamente difícil…

 — Concordo — observou o anjo —, a elevação demanda esforço, mas o meu irmão não aspira à claridade do Alto?

— Ora — aventou o doente, um tanto desencantado —, como agir, dentro de tais normas, em ambiente refratário aos nossos ideais? Não tolero exigências, nem aceito cooperação incompleta. E se me vejo rodeado de pessoas sem mérito, segundo meu modo de ver, como tributar-lhes consideração respeitosa? não compreendo a justiça, inoperante. Além disto, no círculo doméstico, sou infenso aos desaforos de quantos me acompanham na vida. Dou-me, com muito mais harmonia, com estranhos. Meus parentes fazem questão de hostilidade permanente e não cedo um centímetro em meus pontos de vista. Se preferem a guerra aberta, que fazer senão aceitá-la?

 O mensageiro esboçou um sorriso discreto e continuou:

— Se sua posição no lar e no trabalho é tão perigosa, vejamos seu campo social. Busca entrosar-se com os seus semelhantes? Dedica-se a algum serviço de benemerência? Recebe os sofredores com bondade e esquece facilmente o ataque dos maus? Consegue imunizar seu cérebro e seus nervos contra a influência das forças tenebrosas? Vive com moderação para afastar a indesejável visita da inveja, exemplificando a correção para que as tentáculos da calúnia não lhe atinjam a mente? Age, em tudo, com prudência, justiça e solidariedade fraternal, a fim de que o despeito e a inconformação não lhe ameacem a sementeira do bem? Consagra simpatia aos infortunados, ajuda os que erram e procura descobrir o verdadeiro necessitado, contrariando, por vezes, suas próprias inclinações? Sabe ser o médico de si mesmo, auxiliando os conflitos do caminho, para que as emissões benéficas do agradecimento o amparem e curem? Respeita os outros, de modo a ser respeitado pelo maior número de pessoas?

 O implorante passou do desapontamento à revolta e objetou:

— Afinal, estou muito distante de tal perfeição. Impossível ser anjo, entre espíritos satânicos. Se eu me mostrar simpático com os infortunados, talvez me devorem… Em geral, os sofredores são mais preguiçosos que propriamente infelizes. Não sei aturar gente má e acredito que a justiça não existe senão para essa espécie de criaturas. Se me não defender contra os vizinhos, acabarão por esmagar-me.

 Fitou no interlocutor divino os olhos enfadados e rematou:

— Justamente por viver enfermo e desalentado é que venho rogar-lhe auxílio…

— Mas, explique-se. Que pretende, então?

 — Não és, anjo sublime, o administrador da restauração? Quero o reajustamento da vida, um milagre do socorro celestial.

— Oh! sim — suspirou o emissário —, você também está esperando uma violência de Deus…

 E, desvencilhando-se do sofredor, despediu-se, calmo. Devia atender a outros setores de assistência. Massas angustiadas aguardavam-no mais além…

— Oh! abandonas-me, desamparas-me? — gritou o pedinte singular, sob forte irritação — o próprio Céu me detestará?

 O mensageiro angélico, entretanto, esclareceu, sereno:

— Você ainda não foi desconsertado a ponto de merecer conserto. Antes de nossa intervenção em sua estrada, o sofrimento terá grandes quefazeres ao pé de seu roteiro…

 E, acenando para ele com a destra fraterna, concluiu:

— Noutro século, encontrar-nos-emos outra vez…

(Luz acima. Irmão X. Psicografado por Chico Xavier)