Há uma vida futura?

            Um jovem homem era aprendiz numa grande fábrica; por sua conduta, inteligência e caráter, granjeou a estima e a amizade do patrão que, em conseqüência, o torna sócio de sua casa. Vários fatos, dos quais então não se dava conta, provam nele a percepção e a intuição das coisas durante o sono; essa faculdade até lhe serviu para prevenir um acidente que poderia ter conseqüências desastrosas para a fábrica.

            A filha do patrão, encantadora menina de oito anos, lhe testemunhava afeição e se divertia com ele; mas, cada vez que ela se aproximava, ele sentia um frio glacial e uma repulsa instintiva; seu contato lhe fazia mal. Pouco a pouco, no entanto, tal sentimento se abrandou, depois se apagou. Mais tarde a desposou (casou-se). Ela era boa, afetuosa, previdente e a união era muito feliz.

            Uma noite ele teve um sonho horrível. Via-se na sua precedente (anterior) encarnação; sua mulher se havia conduzido de maneira indigna e tinha sido a causa de sua morte, mas, coisa estranha! ele não podia dissociar a idéia dessa mulher da sua atual esposa; parecia-lhe que era a mesma pessoa. Perturbado por essa visão ao despertar, ficou triste; pressionado pela mulher para lhe dizer a causa, decidiu-se a contar o seu pesadelo. “É singular, disse ela, tive um sonho semelhante, e eu é que era a culpada.” As circunstâncias fazem que ambos reconheçam não estarem unidos pela primeira vez; o marido explica a repulsa que tinha pela esposa, quando esta era menina; a mulher redobra de cuidados para apagar o passado; mas já está perdoada, porque a reparação se deu e o enlace continua a ser próspero.

            Daí a conclusão: que esses dois seres se encontravam novamente unidos, um para reparar, o outro para perdoar; que se tivessem tido a lembrança do passado, teriam fugido um do outro e perdido o benefício, um o da reparação, o outro o do perdão.

 

( Revista Espírita. Abril de 1869. Allan Kardec).