Evangelização em favelas e periferia

            A criança de favela e periferia (bairros distanciados das zonas urbanas) chamada privado cultural" pela moderna  psicologia, tem interessado um grande número de pesquisadores, sendo assunto dos mais discutidos e pesquisados por  psicólogos, linguistas, sociólogos, médicos e educadores nos  últimos anos.

            No campo psicológico e social, inúmeras pesquisas estão  sendo feitas, visando não apenas a determinação das características próprias e do perfil desse tipo de criança, como  também o estudo de métodos que venham auxiliar socialmente esse meio, que constitui parte de inúmeros segmentos das sociedades em todo o mundo.

            O rótulo "privação cultural", designa o indivíduo proveniente de lares desprivilegiados e ambiente de pobreza, cujos pais levam uma vida social e economicamente marginalizada, desprovida de oportunidades de modificação para melhor, vivendo na expectativa de fracassos.

            Não devemos considerar, no entanto, que a privação cultural seja essencialmente uma característica de ambientes economicamente  pobres, mas o resultado de todo e qualquer ambiente, que não oferece à criança durante o seu desenvolvimento, estimulações adequadas e suficientes. Como em geral estas condições ambientais são encontradas em zonas de baixo salário, a maioria dos estudos sobre privação cultural se concentram em populações pobres.

            Autores como Hertz, Bird, Thomas " Mendez, afirmam  que as crianças de pais operários diferem em importantes aspectos das crianças de classe sócio-econômica média.

            Realmente, em geral as crianças de classe social baixa, apresentam um maior índice de má nutrição, prematuridade e déficits cerebrais do que as crianças economicamente privilegiadas. Entretanto, não podemos negligenciar as variações individuais dentro de tais grupos. À medida que conhecemos a criança, individualmente,  passamos a conhecer  as características do grupo e as variações individuais dentro do grupo.

            Segundo Cohen (1968) os estudos em geral que tratam  da natureza da carência e diferença culturais, podem ser  compreendidos em termos de certas características de aprendizagem. Ex.: as crianças possuem em nivel inferior discriminação auditiva e visual, conceito de tempo e de número. Dificuldades de avaliar informações, vocabulário restrito e retardamento na leitura. São pobres na sistematização e ordenação de experiências. Apresentam dificuldades  em observar detralhes de objetos, em perceber semelhanças,  diferenças e outras relações. Têm dificuldades em abstrair,  generalizar e classificar, elementos esses essenciais no desenvolvimento de conceito.

            Testes padronizados, revelaram que crianças com experiências pobres em linguagem, apresentam resultados mais baixos, do que as que tiveram experiências mais adequadas. Fazendo um levantamento nessa área, Grotberg (1965) verificou que, em geral, as crianças carentes culturais apresentam quociente de inteligência mais baixo que as de outras camadas sociais.

            As crianças carenciadas apresentam ainda dificuldades em fixar sua atenção, isto é, dificuldade em atentar para o  estímulo adequado, dentre muitos outros que estão presentes no ambiente; todas estas características resultam principalmente de uma estimulação inadequada e insuficiente dos  ambientes onde vivem tais crianças.

            É muito importante que os déficits na experiência sejam compensados; deve-se tomar cuidado na escolha das técnicas a serem empregadas. Os princípios de aprendizagem para essas crianças são os mesmos para as demais, no entanto, elas precisam de experiências sensoriais significativas. Ex.:

            a. Experiências que tragam benefícios e funcionalidade imediata.

            b. Utilizar exemplos concretos, de preferência o visual.

            c. Partir de exemplos simples e relacionados com a  própria vida, para o difícil e sutil.

            d. Envolver o aluno em ações marcantes. É preferível fazer, do que especular

            e. Promover desenvolvimento em sequência.

            f. Reforçar sempre as experiências positivas passadas.

            g. Repetir as experiências e aplica-las de maneira variada.

            A programação prevista envolve atividades que visam suprir deficiências do ambiente familiar, fornecendo estimulações adequadas para desenvolver capacidades e aptidões, tais como: iniciativa, responsabilidade, criatividade, indep endência, sensibilidade, organização, sociabilidade, equilíbrio, comunicação e pensamento lógico.

            1 - A Escola de Moral Crista e o privado cultural.

            A criança deste setor frequenta as aulas, na maioria das  vezes, movida pelo interesse na alimentação a ser recebida.

            É naturalmente desconfiada, consequência da situação de insegurança e escassez do próprio lar.

            Aos primeiros contatos, vamos encontrá-la quase sem  noção de higiene, porém com o decorrer do aprendizado de  princípios de higiene física, apresenta-se mais limpa  e cuidada.

            Do ponto de vista moral, significam essas crianças terreno  virgem e fértil, necessitado de preparo, inicial para receber as primeiras sementes. Sabe-se que a melhor época de  criar bons hábitos e princípios, é a infância. O bom plantio nessa fase tende a trazer consequências produtivas e seguras.

            Não são crianças ingênuas, devido à convivência e a observação dos exemplos infelizes, apresentados pelos adultos  de uma comunidade formada de cidadãos marginalizados,   naturalmente promíscuos. A situação dos casebres, localizada com muita aproximação, lhes permitem conhecer detalhes da vida particular da vizinhança, como o adultério, a vivência, o estupro, a promiscuidade sexual dentro da própria família, que os obrigam a conhecer a realidade da vida, muito antes da época aprazível. Normalmente, distorcem os fatos, imprimindo-lhes malícia, por falta da devida orientação  dos pais. Daí a necessidade de o evangelizador conhecer as peculiaridades de cada criança, a fim de equilibrar-lhe a forma de encarar essas decorrências do seu meio.

            Desconfiados, assustados, tendem a explosões de alegria, no decorrer das aulas, principalmente se simpatizam com o evangelizador, se este se esforça por conquistá-los. Conquistar  a confiança dos pequeninos, é meio caminho andado para evangelizá-los.

Participam vivamente do desenrolar da aprendizagem, interessam-se pelas estórias, sentindo-se realizados por poderem  contar experiências próprias, geralmente parecidas com  o tema sugerido.

            São crianças extremamente motivadas, prontas e aptas a receber conhecimentos. A carência de recreações dirigidas e construtivas as levam a possuir verdadeira sede de contato com preceptores que verdadeiramente  as conduzam, e a quem possam confiar seus problemas. Têm verdadeira carência de afeto e compreensão. Apresentam grande vontade  de aprender, sentem-se felizes quando cantam e mostram facilidade grande para integrar-se ao grupo e ao "espírito da escola".

            São crianças que vêm de outras religiões, dificilmente encontrando-se nesse setor, crianças de famílias espíritas. Diante disso deve ser o evangelizador bastante perspicaz, não entrando diretamente no campo da doutrina; deve primeiramente conquistar a simpatia das crianças, principalmente do ciclo intermediário, cujo programa é quase totalmente sobre a doutrina. Nunca usar termos impróprios ou  contar fatos acima de sua capacidade de compreender, a fim de não amedrontá-las ou permitir dúvidas e confusões.

            Não deve o evangelizador citar a palavra "espírito" nos  ciclos do Jardim e do Primário, devendo sim, referir-se ao  "anjo da guarda" ou amigo espiritual, não citando nomes  de entidades desencarnadas. A citação geraria natural incompreensão das crianças, que não sabendo explicar aos  pais o trabalho desenvolvido em classe, os levam a provocar seu afastamento da Escola de Moral Cristã.

            São fraternas entre si, procurando proporcionar aos  companheiros o mesmo que recebem. Sua noção de honestidade é pequena, motivada pela luta pela sobrevivência. Entram inúmeras vezes na mesma fila, a fim de obter o  mais que puderem. Sentem avidez em possuir, dada a escassez em que vivem.

            No campo sexual apresentam precocidade de ação, normalmente envolvendo companheiros do mesmo sexo e menores. A convivência com adultos amorais, as levam assistir  cenas dantescas para uma criança. Isso desperta-lhes o instinto latente, levando-as à prática precoce, trazendo traumatismo aos menores que são obrigados a acompanhar-lhes  os atos mórbidos. É necessário disciplinar-lhes os impulsos precoces do sexo, desviando-lhes a atenção para a  consecução de trabalhos que exijam a mente e atividade  que queimam energias, despertando-lhes também a sensibilidade para atos de valor moral.

            Nunca deve o evangelizador apresentar cartazes evidenciando alimentos atrativos, como bolos, sorvetes, frutas,  evitando com isso aguçar-lhes a vontade. Tal, constituiria falta de caridade do evangelizador, por tratar-se de crianças de meio pobre, impossibilitadas de adquirir esses tipos de guloseimas.

            Auxiliar as crianças com relação aos problemas encontrados no lar, é de suma importância. O alcoolismo, a violência,  a vagabundagem, a perturbação no lar, geralmente levam a  criança à tristeza e à angústia.

            É muito importante que o evangelizador trabalhe para  incentivar a criança a frequentar os Institutos de Educação,  no sentido de levá-las a progredir intelectualmente, possibilitando-lhes com isso, maior progresso no setor espiritual.

(Programa para a infância. Federação Espírita do Estado de São Paulo. Área da infância, juventude e mocidade, 1998).