Carta de irmão

Querida irmã, as suas petições de consolo me atingem o cerne da alma.

A viuvez lhe alcançou o caminho, à maneira de lâmina que lhe cortasse o coração, quando o lar lhe parecia uma festa de esperança.

 Conheço essa dor, sob outro prisma. A morte me arrancou de casa, no justo momento em que me preparava, a fim de realmente viver.

 Registrei o sofrimento das criaturas que eu mais amava e ainda amo e das quais recebo o máximo de carinho.

 Não sabia se eu era um morto-vivo ou se estava na condição de um vivo-morto.

 Perder o corpo físico para este seu irmão seria bagatela. A dor dos entes queridos me torturava muito mais do que os problemas que a desencarnação repentina me impusera.

 Foi nessa ocasião, quando me sentia espoliado e desvalido, que os Benfeitores da Vida Maior me convidaram a servir, começando pela retaguarda a que se acolhem os nossos irmãos em penúria, ao mesmo tempo em que me acordavam para os recursos que eu trazia.

 Compreendi que as horas que passara desfrutando reconforto e prazer não seriam adequadas para aquele gênero de experiência.

 Sentia-me demasiado feliz para me lembrar das extensas filas dos sofredores que se encontram parafusados em catres de aflição ou espalhados nas ruas, virando latas de lixo, à procura de restos alheios que lhes formem a merenda diária.

 Foi nesse mergulho na corrente das lágrimas de tantos companheiros, largados à noite, que encontrei o reverso da medalha.

 Nunca soubera, até então, que o chamado sub-mundo esconde tantos suplícios.

 Descobri o vale dos desesperados com o assombro de quem se vê, de improviso, num mundo estranho que a morte se esquecia de visitar.

 Encontrei os hansenianos ignorados pelos próprios familiares, os doentes desalentados e sozinhos, os jovens imobilizados por moléstias obscuras, as crianças sem afeto e os velhinhos de ninguém.

Chegara para mim a virada renovadora.

 E, para compartilhar dessa jornada, é que convido a você, no intuito de levantar-lhe as energias.

 Querida irmã, não desanime. Observe a dor dos filhos queridos ao vê-la chorar, adquirindo pesada carga de medo e inquietação para o futuro.

 Reconforte-se na confiança em Deus, a benefício do próprio esposo que lhe antecedeu os passos na Grande Renovação.

 Venha e trabalhe conosco, porque, servindo aos outros, ainda que seja com migalhas de nosso amor, é que obteremos com segurança, através dos Mensageiros do Bem Infinito, a abençoada e espontânea proteção de Deus.

 (Presença de luz. Augusto Cezar. Psicografado por Chico Xavier)