Berlinda

...E na roda, em voz baixa, alguém dizia assim:

  — Vocês viram, de fato?

  Nunca vi companheiro tão mesquinho

  E nenhum tão ingrato!...

  Obsessão, ali, domina em cheio.

  Homem que não entende, nem perdoa,

  Sobretudo, é sovina inveterado.

  Uma pedra em pessoa...

  E, noutra roda, alguém asseverava:

  — Ela, coitada, em tudo é doida e cega,

  Intrigante, orgulhosa, sem juízo.

  Um poço de vaidade que trafega...

  Onde aparece é flor que não se cheira,

  Brasa que a gente vê mas não atiça.

  E, além dos desmantelos que provoca,

  É um retrato acabado da preguiça.


  Quantas vezes entramos no barulho

  De coração simplório e desatento,

  Tão-só comprando o peso do remorso

  E a sombra triste do arrependimento!...

  Ante as rodas que falam sem proveito,

  Guarda em silêncio e prece a própria voz...

  Hoje, os outros padecem na berlinda,

  Cuidado! que amanhã seremos nós.

(Seguindo juntos. Manoel Monteiro. Psicografado por Chico Xavier)