A viagem

            Melissa chegou muito triste da escola aquele dia. Logo sua mãe chegou e perguntou o que havia acontecido.
         - Não tenho um tênis como o da Carol. Todas as garotas têm.
         - Não podemos lhe dar outro tênis agora. Acho que você não devia se aborrecer por isso. - disse Dona Joana.
         Pensou como poderia ajudar a filha... Então, teve uma idéia:
         - Vou lhe contar uma novidade: vamos fazer uma viagem. Não sabemos ainda que dia embarcaremos. Mas preciso de sua ajuda. Quero que você faça a sua mala. Ela deve estar logo pronta.
         A garota correu ao quarto, pegou a maior mala que havia e começou a colocar várias coisas dentro: suas melhores roupas, seus brinquedos preferidos. Contou sobre a viagem para Isabela, sua irmã, que logo começou a arrumar uma mala enorme também.
         Durante muito tempo pensaram nas coisas que levariam, pois nunca tinham arrumado suas próprias malas. Melissa era uma menina estudiosa, mas muito apegada às suas coisas, aos seus brinquedos, às suas roupas.
         No dia seguinte as duas garotas estavam com as malas prontas, quando Dona Joana chegou.
         - Para onde vamos? - indagou Isabela.
         - Isso depende - disse a mãe. Depende de nossas atitudes. A viagem que vamos fazer será única nesta encarnação e é muito importante. Vamos para um lugar que já conhecemos, mas não lembramos. Alguém sabe para onde vamos?
         As meninas não sabiam.
         - A senhora não disse o dia que partiremos - lembrou Melissa.
         - Ninguém sabe o dia, mas é preciso estar sempre preparado, de malas prontas. Posso abrir a bagagem de vocês, para ver o que há dentro?
         E logo começou a tirar tudo de dentro das malas, dizendo:
         - Essas roupas vocês não poderão levar, nem esses brinquedos, nem os sapatos, o dinheiro também não. Vocês acham que isso é realmente importante? Todas essas coisas materiais?
         - Mas mãe, disse Isabela, o que vamos vestir e comer?
         - Essa viagem é diferente. Um dia, garotas, todos nós vamos desencarnar e retornar ao Mundo Espiritual. Nessa viagem não levaremos nada que é material. Não levaremos roupas, sapatos, brinquedos, dinheiro, nossa casa, nem mesmo nosso corpo, que ficará por aqui mesmo, enterrado.- continuou a mãe.
         - Não gosto de falar de morte falou baixinho Isabela.
         - Mas, às vezes é preciso, para que possamos aprender a valorizar aquilo que realmente importa em nossa vida. De tudo o que você colocou em sua mala, Melissa, você apenas levará a afeição de sua família, mas sem a casa que aparece no fundo da foto. E você Isabela, levará o conhecimento adquirido nos livros que estavam em sua mala, mas não os livros
         - Só isso? - indagou a garota.
         - Não. Levamos tudo de bom que aprendemos e realizamos - continuou a mãe. Todo o amor que temos no coração e todas as boas ações que fazemos. Por isso Melissa, não é importante o tênis que você usa ou ter a roupa da última moda. Suas roupas devem estar limpas e seu corpo merece cuidados, como exercícios e alimentação saudável, para que ele tenha saúde e continue lhe servindo nesta encarnação.
         - Entendi, mãe, disse a menina. O que vale é o que somos, não o que temos. Podemos guardar as malas?
         - Sim. Mas fiquem com essas aqui. A mãe deu a cada garota uma bolsinha em forma de coração. Guardem em seu coração, todas as noites, escrito em um papel, as boas ações que realizaram durante o dia, para que na hora do desencarne vocês possam ter muitas coisas importantes para levar.
         As garotas ganharam um forte abraço da mãe, e ficaram sabendo que os laços de amor não se interrompem quando do desencarne. A partir daquele dia passaram a dar às coisas materiais o valor transitório que elas têm, sem apegar-se e sem revolta por não terem, muitas vezes, as coisas que gostariam. E o coração de cada uma das garotas, cada vez mais, passou a armazenar caridade, paz e amor, em gestos, palavras e ações.

(Cláudia Schmidt )