A panela

            Artur era um garotinho esperto e inteligente para seus oito anos. Como residisse um pouco afastado da cidade, o amiguinho que permanecia mais tempo com ele era o André, neto de d. Joana, a ajudante de cozinha da mamãe de Artur.

         D. Joana, uma mulata de cabelos já embranquecendo, não dispensava um avental sempre muito clarinho e vivia com um belo sorriso nos lábios. Há muito tempo trabalhava com os Almeida, e como criava o neto, levava-o para o emprego, achando, ela e os pais de Artur, que era muito bom que as crianças se fizessem companhia, pois eram da mesma idade.

         Mas, em todas as brincadeiras, a parte do André era sempre a mais pesada, a mais passiva, a secundária. Artur invariavelmente era o “comandante”, o chefe, e André o “empregado”.

         - Ei, André, me empurre aqui na gangorra! - dizia Artur. Mas, depois, não empurrava o amiguinho ...

         - Ei, André, vamos brincar de carrinho; eu serei o dono do Posto de gasolina e você será meu empregado. Nas brincadeiras com bola, somente o André a buscava quando acontecia de a mesma rolar para longe.

         A maneira como Artur tratava André fazia lembrar de adultos preconceituosos, ou seja, pessoas que se julgam melhores que outras só porque têm mais dinheiro, ou porque estudaram muito, ou porque têm pele clara, por exemplo.

         Mas será que Artur tinha consciência do quanto estava errado agindo daquela maneira?

         Que vocês acham? Um dia, estavam as crianças brincando, quando ouviram o chamado de d. Joana:

         - Ei, meninos, venham me ajudar com esta panela de doce de leite; preciso colocá-la em cima da mesa para encher os vidros.

         Já pensando na “provinha” de doce que ganhariam (e como era delicioso o doce de leite de Joana!...), os garotos dispararam, afoitos, para atenderem ao pedido da boa senhora. No que, porém, seguraram nas alças da panela, começaram a gritar:

         -Ai, ai... Ui, ui... A panela ainda está quente!... Ajudando as crianças a aliviarem o desconforto causado pelo calor da panela, que não estava tão quente assim, a velha Joana falou:

         - Mas que coisa interessante!... A cor da pele de vocês é tão diferente, e a dor que sentem é a mesma, pois não? Os meninos concordaram que sim.

        E nunca mais Artur se esqueceu daquele episódio. Afinal, foi ali que ele começou a perceber que uma pele clara, dinheiro, boa posição social, juventude, não justificam superioridade de ninguém.

(Adaptado da obra “E, para o resto da vida...”, de Wallace L. Rodrigues - Retirado do blog de Simone Anastácio)