A ovelha negra

         - Ai!!!
         Guto ficou tonto com a "bolada" que levou na cabeça. Lúcio, seu vizinho, ao longe, só ria...
         - Outra vez esse pestinha! - pensou Guto - menino impossível! Sempre briguento e mal-educado!
         Mal-educado... Devia ser isso! Para alguém ser malvado como o Lúcio, provavelmente sua família era uma bagunça e o menino não deve ter recebido uma boa educação.
         Mas, que surpresa Guto teve ao conhecer a família de Lúcio! Os pais, Clara e Anselmo, eram pessoas muito boas, sensíveis e gentis, sempre preocupados com a educação moral dos filhos. E os dois irmãos, Ana e Bruno, eram o reflexo dos pais, simpáticos e alegres.
         Guto achou Lúcio a verdadeira "ovelha-negra" da família! Não entendia como um filho poderia ser tão diferente dos outros, se recebiam a mesma educação e eram amados igualmente.
         O menino resolveu recorrer à jovem Cláudia, coordenadora das aulas de Evangelização Espírita Infanto-Juvenil:
         - Por mais estranho que pareça, Guto, isso é muito comum acontecer. - explicou Cláudia. Através da reencarnação conseguimos entender o porquê: em uma família reencarnam vários espíritos, alguns amigos e com afinidades, outros nem tanto, podendo ser até inimigos ou desafetos de vidas anteriores. Talvez seja o caso da família do seu vizinho.
         - Mas... se, com todo o amor que recebeu até agora, o Lúcio não mudou, será que ele não vai mudar?
         - Certamente que o amor dedicado ao Lúcio vai surtir efeito! Só que isso pode demorar algum tempo; às vezes anos, ou até em futuras reencarnações. É importante que os pais dediquem tudo o que podem para pacificar um espírito rebelde que vem como filho. O resto é confiar na justiça de Deus e orar para que o filho aprenda bem as lições. Em algum momento da sua longa jornada, a semente irá frutificar.
         E Guto entendeu. Refletiu sobre a bondade de Deus, pois dá oportunidades a todos os seus filhos de regenerarem-se. No caso de Clara e Anselmo, perante alguém que, talvez tenham prejudicado em um passado distante. Para Lúcio, a oportunidade de conviver em uma família harmoniosa e feliz para, nesse meio, aprender a amar e perdoar.

(Letícia Müller. Seara Espírita nº 55 - junho de 2003)