Irmãs Fox

            Hydesville é um vilarejo típico do Estado de New York. Aquela povoação, situada a cerca de vinte milhas da nascente cidade de Rochester, consistia de um grupo de casas de madeira, de tipo muito humilde. Foi numa dessas casas, que se iniciou o desenvolvimento que, atualmente, na opi­nião de muitos, é a coisa mais importante que deu a América para o bem-estar do mundo.

            Era habitada por uma honesta família de fazendeiros, de nome Fox. Além de pai e mãe, de religião metodista, havia duas filhas morando na casa ao tempo em que as manifestações atingiram tal ponto de intensidade que atraíram a atenção geral. Eram as filhas Margaret, de catorze anos e Kate, de onze. Havia vários outros filhos e filhas, que não residiam aí, uma das quais, Leah, que ensinava música em Rochester.

            A casinha já gozava de má reputação. A família Fox,  alugou a casa a 11 de dezembro de 1847.  Só no ano seguinte foi que os ruídos notados pelos antigos inquilinos voltaram a ser ouvidos. Consistiam de rui­dos de arranhadura. Tais ruídos pareceriam sons pouco naturais para serem produzidos por visitantes de fora, se quisessem adver­tir-nos de sua presença à porta da vida humana e desejassem que essa porta lhes fosse aberta.

            As vezes eram simples batidas; outras vezes soavam como o arrastar de móveis. Foram feitas todas as investigações possíveis: o marido esperava de um lado da porta e a mulher do outro, mas os arranhões ainda continuavam.

            Eis o depoimento de Mrs. Fox:

       “Na noite da primeira perturbação, todos nos levantamos, acendemos uma vela e procuramos pela casa inteira, enquanto o barulho continuava e era ouvido quase que no mesmo lugar. Conquanto não muito alto, produzia um certo movimento nas camas e cadeiras a ponto de notarmos quando deitadas. Era um movimento em trêmulo, mais que um abalo súbito. Podíamos perceber o abalo quando de pé no solo. Nessa noite continuou até que dormimos. Eu não dormi até quase meia-noite. Os rumores eram ouvidos por quase toda a casa. Meu marido ficou à espera, fora da porta, enquanto eu me achava do lado de dentro, e as batidas vieram da porta que estava entre nós. Ouvimos passos na copa, e descendo a escada; não podíamos repousar, então conclui que a casa deveria estar assombrada por um Espírito infeliz e sem repouso. Muitas vêzes tinha ouvido falar dêsses casos, mas nunca tinha testemunhado qual­quer coisa no gênero, que não levasse para o mesmo terreno.

       Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos: íamos ter uma noite de repouso. Meu marido aqui estava em tôdas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisa. Naquela noite fomos cedo para a cama — apenas escurecera. Achava-me tão quebrada e falta de repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu o distinguia de quaisquer outros ruídos jamais ouvidos. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto, ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os de­dos.

       Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: “Senhor Pérocluido, faça o que eu faço”. Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando: “Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro” e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve mêdo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na sua simpli­cidade infantil: “Oh! mamãe! eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira”.

       Então pensei em fazer um teste de que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo uma pausa de um para o outro, a fim de os separar até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo à idade do menor, que havia morrido.

        Então perguntei: “É um ser humano que me responde tão corretamente?” Não houve resposta. Perguntei: “É um Es­pírito? Se fôr dê duas batidas.” Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: “Se foi um Espírito assassinado dê duas batidas”. Estas foram dadas instantânea-mente, produzindo um tremor na casa. Perguntei: “Foi assassinado nesta casa?” A resposta foi como a precedente. “A pessoa que o assassinou ainda vive?” Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fôra um homem que o assassinara nesta casa e os seus despojos enterra­dos na adega; que a sua família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então per­guntei: “Continuará a bater se chamar os vizinhos para que também escutem?” A resposta afirmativa foi alta.

        Meu marido foi chamar Mrs. Redfield, nossa vizinha mais próxima. É uma senhora muito delicada. As meninas estavam sentadas na cama, unidas uma à outra e tremendo de medo. Penso que estava tão calma como estou agora. Mrs. Red. field veio imediatamente seriam cerca de sete e meia pen­sando que faria rir às meninas. Mas quando as viu pálidas de terror e quase sem fala, admirou-se e pensou que havia algo mais sério do que esperava. Fiz algumas perguntas por ela e as respostas foram como antes. Deram-lhe a idade exata. Então ela chamou o marido e as mesmas perguntas foram feitas e res­pondidas.

        Então, Mrs. Redfield chamou Mr. Duesler e a esposa e vá­rias outras pessoas. Depois, Mr. Duesler chamou o casal Hyde e o casal Jewell. Mr. Duesler fêz muitas perguntas e obteve as respostas. Em seguida, indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido morto por algum dêles, mas não tive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas e obteve as respostas: Perguntou: “Foi assassinado?” Resposta afirmativa. “Seu as­sassino pode ser levado ao tribunal?” Nenhuma resposta. “Pode ser punido pela lei?” Nenhuma resposta. A seguir, disse: “Se seu assassino não pode ser punido pela lei dê sinais.” As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr. Dues­ler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto de leste, há cinco anos passados, e que o assassínio fôra cometido à meia-noite de uma terça-feira, por Mr. que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo ti­nha sido levado para a adega; que só na noite seguinte é que havia sido enterrado; tinha passado pela despensa, descido a escada, e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi cons­tatado que o móvel fôra o dinheiro.

        “Qual a quantia: cem dólares?” Nenhuma resposta. “Du­zentos? Trezentos?” etc. Quando mencionou quinhentos dóla­res as batidas confirmaram.

        Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão. Estes ouviram as mesmas perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr. Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se ouviram os sons; mas ao anoitecer recomeçaram.

        Diziam que mais de trezentas pessoas achavam-se presentes. No domingo pela manhã os ruídos foram ouvidos o dia inteiro por todos quan­tos se achavam em casa.

        Na noite de sábado, 1º de abril, começaram a cavar na adega; cavaram até dar nágua; então pararam. Os sons não foram ouvidos nem na tarde nem na noite de domingo. Stephen B. Smith e sua espôsa, minha filha Marie, bem como meu filho David S. Fox e sua esposa dormiram no quarto aquela noite.

        Nada mais ouvi desde então até ontem. Antes de meio-dia, ontem, várias perguntas foram respondidas da maneira usual. Hoje ouvi os sons várias vezes.

        Não acredito em casas assombradas nem em aparições sobre­naturais. Lamento que tenha havido tanta curiosidade neste caso. Isto nos causou muitos aborrecimentos. Foi uma infelicidade morarmos aqui neste momento. Mas estou ansiosa para que a verdade seja conhecida e uma verificação correta seja procedida. Ouvi as batidas novamente esta manhã, terça-feira, 4 de abril. As meninas também ouviram.

        Garanto que o depoimento acima me foi lido e que é a verdade; e que, se fosse necessário, prestaria juramento de que é verdadeiro.”

         Foi um vizinho, chamado Duesler, quem, pela primeira vez, usou o alfabeto para obter respostas por meio de arranhões nas le­tras. Assim foi obtido o nome do morto — Charles B. Rosma.

         No verão de 1848 Mr. David Fox, auxiliado por Mr. Henry Bush, Mr. Lyman Granger, de Rochester, e outros, retomou a esca­vação da adega. A uma profundidade de cinco pés encontraram uma tábua; cavando mais, acharam carvão e cal e, finalmente, cabelos e ossos humanos, que foram declarados por um médico que testemunhava como pertencentes a esqueleto humano. Só cinqüenta e seis anos mais tarde foi feita uma descoberta que provou, acima de qualquer dúvida, que alguém realmente havia sido enterrado na adega da casa dos Fox.

Esta constatação aparece no Boston Journal — uma folha não espírita — de 23 de novembro de 1904, e está assim redi­gida:

       “Rochester, N. Y., 22 de novembro de 1904: O esqueleto do homem que se supõe ter produzido as batidas, ouvidas ini­cialmente pelas irmãs Fox, em 1848, foi encontrado nas paredes da casa ocupada pelas irmãs e as exime de qualquer sombra de dúvida concernente à sua sinceridade na descoberta da comu­nicação dos Espíritos.

A família Fox estava seriamente abalada com os aconte­cimentos. E como parecia que a coisa estivesse ligada às duas meninas, estas foram afastadas de casa. Mas em casa de seu irmão, David Fox, para onde foi Margaret, e na de sua irmã Leah, cujo nome de casada era Mrs. Fish, em Roehester, onde Kate estava hospedada, os mesmos ruídos eram ouvidos. Foram feitos todos os esforços para que o público ignorasse essas manifestações; logo, porém, se tornaram conhecidos.

            Durante alguns anos as duas irmãs mais novas, Kate e Margaret, fizeram sessões em New York e em outros lugares, triunfando em cada ensaio a que eram submetidas. Durante esses atos de mediunidade pública, quando as mo­ças faziam furor, tanto entre as pessoas que não tinham a me­nor idéia do significado religioso dessa nova revelação, quanto entre aqueles cujo interesse estava na esperança de vantagens materiais, as irmãs estiveram expostas às enervantes influências das sessões promíscuas e de tal maneira que nenhum espírita avisado justificaria.

            Foi em 1852 que o Doutor Kane, encontrou Margaret Fox, então uma jovem muito bonita e atraente. Kane se convenceu de que a jovem estava envolvida em fraude e criou a teoria de que sua irmã mais velha, Leah, visando fins lucrativos, estava explorando a fraude. O médico tomou-se de estreita amizade por Margaret, colocou-a sob as vistas de sua própria tia, a fim de a educar, enquanto se ausentava para o Oceano Ártico, e finalmente casou-se com ela. O próprio Kane, escrevendo à mais moça, Kate, diz: “Tome o meu conselho e jamais fale de Espíritos, quer aos íntimos, quer aos estranhos. Você sabe que com toda a intimidade com Mag­gie, depois de um mês inteiro de tentativas, deles nada pude obter. Assim, eles constituem um grande mistério.” Morreu pouco depois, em 1857, e a viúva, então se assinando Mrs. Fox-Kane, abjurou os fenôme­nos por algum tempo e foi recebida na Igreja Católica Ro­mana.

     A 14 de dezembro de 1872 Miss Fox casou-se com Mr. H. D. Jencken, um advogado londrino, e secretário geral honorário da Associação para a Reforma e Codificação do Direito Interna­cional. Foi ele um dos primeiros espíritas da Inglaterra. Uma testemunha de vista informa que Mrs. Kate Fox-Jencken, como passou ela a ser conhecida, e seu marido na era dos seten­ta encontravam-se em bons meios sociais de Londres. Seus tra­balhos eram muitíssimo procurados pelos investigadores.

     Margaret (Mrs. Fox-Kane) tinha se juntado à irmã Kate na Inglaterra em 1876 e permaneceram juntas por alguns anos, até que ocorreu o lamentável incidente que deve ser analisado agora. Parece que houve uma discussão amarga entre a irmã mais velha, Leah (então Mrs. Underhill) e as duas mais mo­ças. Alguns espíritas também interferi­ram e deixaram as duas irmãs meio furiosas, pois tinha sido sugerido que os dois filhos de Kate fossem separados dela.

     Procurando uma arma — uma arma qualquer — com a qual pudessem ferir aqueles a quem tanto odiavam, parece que lhes ocorreu — ou, de acordo com seu depoimento posterior, que lhes foi sugerido sob promessa de vantagens pecuniárias — que se elas injuriassem todo o culto, confessando que frau­davam, iriam ferir a Leah e a todos os confrades no que ti­nham de mais sensível.

     Ao paroxismo da excitação alcoólica e da raiva juntou-se o fanatismo religioso, pois Margaret tinha sido instruída por alguns dos principais Espíritos da Igreja de Roma, e convencida — como também ocorreu conforme durante al­gum tempo — que suas próprias forças eram maléficas.

               Antes de deixar Londres escre­veu ao New York Herald denunciando o culto, mas sustentando numa frase que as batidas “eram a única parte dos fenômenos digna de registro”. Chegando a New York onde, conforme sua sub­seqüente informação, deveria receber certa quantia pela sensa­cional declaração prometida ao jornal, teve uma verdadeira explosão de ódio contra sua irmã mais velha.

        A 17 de novembro, Kate escre­veu  a uma senhora de Londres, Mrs. Cottell, que residia na velha casa de Carlyle, esta admirável carta de New York e publicada no Light, em 1888, página 619:

        “Eu lhe deveria ter escrito antes, mas minha surpresa foi tão grande, ao chegar e saber das declarações de Maggie sobre o Espiritismo, que não tive ânimo de escrever a ninguém - “O empresário da exibição arranjou a Academia de Música, o maior auditório da cidade de New York; ficou superlotado.

        “Fizeram uma renda de mil e quinhentos dólares. Muitas vezes desejei ter ficado com você e se tivesse meios agora voltaria para me livrar de tudo isso.

        “Agora penso que podia fazer dinheiro, provando que as batidas não são produzidas pelos dedos dos pés. Tanta gente me procura por causa da declaração de Maggie que me recuso a recebê-los.

        “Insistem em desmascarar a coisa, se puderem; mas certa­mente não o conseguirão.

        “Maggie está realizando sessões públicas nas grandes cida­des americanas, mas só a vi uma vez desde que cheguei.”

        Esta carta de Kate denuncia a tentação do dinheiro repre­sentando um grande papel na história. Entretanto parece que cedo Maggie verificou que rendia pouco e que não havia vantagem em dizer mentiras pelas quais não era paga e que apenas provavam que o movimento espírita se achava tão firmemente estabelecido que não chegava a ser abalado pôr sua traição. Por esta ou por outras razões — esperamos que com algum remordimento de consciência pela parte que havia tomado, agora admitia ela que estivera dizendo falsidades pelos mais baixos motivos. A entrevista foi publicada na imprensa de New York a 20 de novembro de 1889, cerca de um ano depois do escân­dalo.

        “Praza a Deus”, — disse ela com voz trêmula de intensa excitação — “que eu possa desfazer a injustiça que fiz à causa do Espiritismo quando, sob intensa influência psicológica de pessoas inimigas dele, fiz declarações que não se baseiam nos fatos. Esta retratação e negação não parte apenas do meu próprio senso daquilo que é direito, como também do silencioso impulso dos Espíritos que usam o meu organismo, a despeito da hostilidade da horda traidora que prometeu riqueza e felicidade em troca de um ataque ao Espiritismo, e cujas esperançosas promessas foram tão falazes...

 

Bibliografia:

- A História do Espiritismo. O Episódio de Hydesville. Arthur Conan Doyle.