Dr. Bezerra de Menezes

            BEZERRA DE MENEZES nasceu no dia 29 de agosto de 1831, na freguesia do Riacho do Sangue, Estado do Ceará, recebendo a pia batismal do catolicismo, dias depois, o nome de Adolfo. Aos 6 anos sabia ler, aos 7 iniciava o curso primário, na Vila do Frade, aos 11 principiava o curso de Humanidades, em Imperatriz. Seu aproveitamento era notável, bastando lembrar que aos 13 anos, foi professor de latim na própria escola em que fazia seus preparatórios. Orientava-o, nos estudos, o tio e grande amigo Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra. Decorridos os cinco anos de ginásio, embarcou, em 5 de fevereiro de 1851, com destino à Corte, para se matricular na Escola de Medicina. Chegou ao Rio de Janeiro sozinho, com 20 anos, no bolso 38$000 e no espírito uma esperança imensa.

            Pobre, precisando lecionar para sustentar-se, passando às vezes grandes privações, a fé em Deus e a prece diuturna o amparavam nos momentos mais difíceis. Estudava pelas bibliotecas e comprava livros de segunda mão. Mantinha, entretanto, linha de conduta impecável não só como cidadão, mas sobretudo como estudante. (Bezerra de Menezes. Canuto Abreu).

            Em novembro de 1852, ingressou como praticante interno no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Doutorou-se em 1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, defendendo a tese "Diagnóstico do Cancro". (Vida e Obra Dr. Bezerra de Menezes.Antonio Nóbrega Filho. Humberto Mauro Mendonça Machado.)

            Para consegui-lo, deu de si constantes exemplos de renuncia aos prazeres, ilusórios do mundo, potencializou seu poder de vontade, viveu o clima dos grandes, sacrifícios e suportou horas amargas com serenidade, resignação e fé em Deus. De uma feita, quase fora despejado de seu humilde quarto. Devia o seu senhorio impiedoso vários meses de aluguel. Orou a Deus e manifestou desejo de lecionar temendo o futuro. O alto lhe ouviu a rogativa, o desejo e o desespero. Um aluno lhe aparece. Deseja-lhe aulas intensivas de matemática e paga-lhe dois meses adiantadamente. Bezerra reluta em receber a importância adiantada. Por fim, lembrando-se da sua situação, resolve aceita-la. Corre a biblioteca e, durante dias seguidos, recorda da matemática alguns teoremas esquecidos. Espera o aluno e este, jamais lhe aparece. Era, na verdade, um aluno do "outro mundo"... Tal fato, no entanto, fê-lo confiar mais e mais na providencia divina, no infinito amor de DEUS e deveria ser mais tarde, como o foi o médico dos pobres, mais de almas que de corpos. (Lindos casos de Bezerra de Menezes. Um aluno do ‘’outro mundo’’. Ramiro Gama)

            Abriu com um colega consultório no centro do comércio, onde esteve espantando moscas longos meses. Mas, em sua casa, a clínica ia crescendo, pois era de gente que não paga. "Foram caindo na rede alguns peixinhos, mas, coitadinhos, tão magros, que não davam para a consoada dos rapazes." O Dr. Manoel Feliciano Pereira de Carvalho estava chefiando o corpo de saúde do Exército e o convidou para médico militar com o posto de cirurgião tenente, dedicou-se então à cirurgia, em que chegou a ser notável. No ano seguinte, 1857, foi recebido como sócio efetivo da Academia Nacional de Medicina, à qual apresentou uma Memória, considerada excelente. Eleito redator dos seus Anais, durante quatro anos conservou com brilho ohonroso posto. Não abandonou, entretanto, a sua clientela pobre. Ela foi ao contrário crescendo ao ponto de não lhe dar tempo para comer: se nãolhe pagava, dava-lhe "o mais glorioso dos títulos: o médico dos pobres". (Dr. Bezerra de Menezes. Canuto Abreu).

            No consultório da Farmácia Cordeiro, de propriedade do seu grande amigo José Guilherme Cordeiro, Bezerra realizou um trabalho do Senhor, que até hoje ecoa na Espiritualidade.

            Foi ali, entre as quatro paredes daquela sala humilde e povoada por Espíritos superiores, que o auxiliavam no seu caridoso afã de curar corpos e almas, que o Kardec Brasileiro realizou a sua missão apostólica.

            O consultório, depois do meio dia, enchia-se de gentes pobre e rica, tipos humildes de proletários e figuras da alta sociedade.

            O humilde e caridoso médico, com seus olhos verdes, trazendo aos lábios seu efetivo sorriso bondoso, fixava aquela massa heterogênea de consulentes e, perscrutando-lhes o mais íntimo do ser, receitava a cada um com os remédios adequados.

            Costumava dizer aos seus íntimos que, ali, aprendia todos os dias uma verdadeira página de geologia humana.

            Toda a crosta social estava ali representada e podia ser estudada, tal como o geólogo estuda as estratificações de um terreno multissecular.

            O seareiro espírita olhava toda aquela gente com as lentes do amor.

            Sentia de cada um seus casos mais íntimos; lia-lhes os pensamentos e sentimentos; traduzia-lhes a angústia, os problemas econômicos e morais.

            E receitava pelo coração e pela mente. Pelo coração, conselhos, vestidos de emoção e ternura, acordando nos consulentes o cristão que dormia; pela mente, homeopatia, água fluídica e passes. E finalizava pedindo que cada um tivesse às mãos, no lar, o grande livro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o lesse com alma, com sinceridade e confiança no seu autor, Nosso Senhor Jesus Cristo!

            E os resultados eram os mais promissores.

            Cada doente deixava seu consultório, satisfeito, melhorado, pois que havia deixado lá dentro o seu peso, a sua tristeza, algo que o oprimia.            (Lindos casos de Bezerra de Menezes. Geologia humana . Ramiro Gama).

            Deixou para seus colegas o retrato do verdadeiro médico, que deseja fazer da medicina um apostolado.

            - “Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito lhe bate à porta. O que não acode por estar com visita, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro; o que, sobretudo pede um carro a quem não tem com que pagar a receita, ou diz a quem lhe chora à porta que procure outro, - esse não é médico, é negociante da medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito a, única que jamais se perderá no vaivém da vida”. (Lindos casos de Bezerra de Menezes. O apostolado da medicina. Ramiro Gama).

            Em 6 de novembro de 1858, Bezerra contrai núpcias com D. Maria Cândida de Lacerda. (Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000).

            Casou-se por amor. A esposa querida passou então a oferecer o melhor de sua vida. Queria dar-lhe conforto, alegria, posição social, felicidade, enfim. Não lhe faltavam recursos intelectuais e morais para isso a par de grande capacidade de trabalho. Pensando nela, fazia literatura. Gostava de escrever. Conhecido o seu grande prestígio sobre a massa como 'médico dos pobres' e 'jornalista elegante', não tardou a ser namorado pela Política. (Bezerra de Menezes. Canuto Abreu).

            Eleito vereador municipal pelo Partido Liberal, em 1861, teve sua eleição impugnada pelo chefe conservador Haddock Lobo, sob a alegação de ser médico militar. Com o objetivo de servir o seu partido, que necessitava dele para ter maioria na Câmara, resolveu afastar-se do Exército. (Vida e Obra Dr. Bezerra de Menezes.Antonio Nóbrega Filho. Humberto Mauro Mendonça Machado.)

            Em 1863, ainda no exercício do primeiro mandato como vereador, perde, vitimada por súbita e galopante enfermidade, a querida esposa, que o deixa com dois filhos pequenos, um de três anos e outro de um ano. O golpe foi profundo, abalando-o de tal forma, física e moralmente, que o leva a um estado de prostração, aborrecido das glórias mundanas que por ela, a amada esposa, vinha conquistando.

            Mas, como tudo tem a sua razão de ser, e Bezerra de Menezes era um enviado do Senhor para semear a luz na escuridão moral das plagas terrenas, a viuvez o atrai mais fortemente para as cogitações de ordem espiritual. Um seu companheiro de consultório lhe oferece belo exemplar da Bíblia, e nas fontes das letras sagradas o entendimento e o sentimento do grande missionário se dessedentam, se asserenam.

            “ — Li toda a Bíblia, e quanto mais lia, mais vontade tinha de continuar, sentindodoce consolação com aquela leitura.

        Quando acabei, eu sentia necessidade de crer, não dessa crença imposta à fé, mas da crença firmada na razão e na consciência.

        Onde descobrir-lhe a fonte?

        Atirei-me à leitura dos livros sagrados, com ardor, com sede; mas sempreuma falha, ao que meu espírito reclamava.

        Começaram a aparecer as primeiras notas espíritas no Rio de Janeiro; maseu repelia semelhante doutrina sem conhecê-la nem de leve! Somente porque temiaque ela perturbasse a tal ou qual paz que me trouxera ao espírito a minha volta àreligião de meus maiores, embora com restrições.”

        Ainda não era a hora oportuna para o projetado encontro! Ainda lutas de outraconsistência lhe haveriam de temperar o espírito para os formidáveis embates quedeveria travar na arena específica de sua mais alta missão.

            Permanece no cenário político, reelege-se vereador em 1864 e, em 21 de janeiro de 1865, casa-se em segundas núpcias com D. Cândida Augusta de LacerdaMachado, irmã materna de sua primeira esposa, que lhe daria cinco filhos.

            Em 1867 é eleito deputado geral pelo Rio de Janeiro, mas em 1868, pela ascensão dos conservadores ao poder, a Câmara é dissolvida e Bezerra se retira,não se candidatando à legislatura de 1869-1872 para a Câmara Municipal. Até1873, quando se reelegeria para vereador, transcorre um período de fecundos empreendimentosmateriais em favor das coletividades: cria a Companhia de Estradade Ferro Macaé a Campos, empenha-se na construção da via férrea de Santo Antôniode Pádua que estenderia a Macaé-Campos até o Rio Doce, dirige a CompanhiaArquitetônica que, em 1872, abriu o “boulevard” 28 de Setembro no então novobairro de Vila Isabel, e em 1875 exerceria a presidência da Companhia Carris Urbanosde São Cristóvão.

        Por essa época, e até mesmo antes, Bezerra foi ardoroso abolicionista, apresentando,em livro, medidas que extinguissem a escravidão no Brasil, sem maioresdanos para a Nação. Também apresentaria, em 1877, soluções para o problemadas secas no nordeste brasileiro. (Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000).

        Certa vez, penetra no seu consultório da Farmácia Cordeiro uma pobre mulher com uma criança ao colo.

        Sentou-se e apresentou-lhe o filhinho para exame. O aspecto da pobre como o da criança traduzia miséria e fome.

        Bezerra atendeu á criança. Sentiu-lhe o físico em mísero estado. E receitou, aconselhando á mãe sofredora:

        - Minha filha, dê ao seu filho estes remédios de hora em hora. São remédios homeopáticos e, se desejar, pode comprá-los aqui mesmo...

        - Comprá-los, doutor, com quê, se não tenho comigo nenhum níquel! Se eu e meu filho estamos até agora em jejum...

        O bondoso medido olhou para a mãe sofredora. Seus olhos mansos e verdes, refletindo compaixão, encheram-se de pranto. Ambos choravam! O ambiente deveria ser tocante e vestido de luz e amor!

        Abraçando-a, disse-lhe Bezerra: Não se apoquente minha filha, vou ajudá-la. Confiemos no amor da virgem, que vela por todos nós. Procurou nos bolsos das calças e do paletó algum dinheiro e nada encontrou.

        Pôs-se a pensar, olhando para cima, como se fizesse uma Prece muda e sentida.

        De repente, fazendo-a sentar-se, sai e procura o amigo Cordeiro, também manso e bom.

        - Cordeiro, prometi-lhe não mexer no dinheiro das consultas, a fim de que você o encaminhe diretamente á minha esposa. Mas o caso de hoje é doloroso... Já rendeu alguma coisa?

        Nada, porque os doentes, até agora, são pobres e com sua ordem é para receber apenas dos que podem pagar...

        - E o resultado de ontem, já o entregou? – Não, está comigo.

        - Dê-me, então, este dinheiro e esperemos na proteção da Virgem, que há de nos mandar algum, mais tarde.

        Cordeiro lhe atendeu. Bezerra penetra o consultório. E, dirigindo-se á infeliz irmã em provas:

        - Tome minha filha, este envelope. Com o dinheiro que está aí, compre remédios, também leite e alimentos para seu filho. A pobre mãe, de olhos surpresos, lacrimosos, lábios trêmulos, tartamudeia e nada pode dizer para lhe agradecer chora... 

        E Bezerra, abraçando-a: - Nada de lagrimas, vamos, vá na santa Paz de Deus e que a Virgem a proteja e o seu filhinho. Ele há de ficar bom... Assim atendida, a sofredora mãe deixa o consultório. E, quando volta, da porta, para agradecer, ouve apenas a voz mansa e boa de Bezerra: Entre aquele que estiver em primeiro lugar. (Lindos Casos de Bezerra de Menezes. Bondade e Renúncia. Ramiro Gama).

        No lar e nos consultórios, primeiramente, num humilde sobrado da rua primeiro de Março e, depois, na Farmácia Cordeiro, no Riachuelo, seu Espírito estava atento e os Serviços do Senhor se multiplicavam.

        Os chamados eram muitos, todos vindos de criaturas pobres, na maioria de Mães em pranto, afadigadas com os encargos domésticos, vítimas da incompreensão de filhos e maridos rebeldes, todos mais doentes da alma, pedindo-lhe a medicina do Amor da sua palavra, da sua presença, o afago de sua mãos, os benefícios da sua prece, a compaixão de seu olhar, a caridade do seu grande coração!

        Numa tarde, depois de haver vivido um dia cheio de sua tarefa diferente, em que consolou e esclareceu, medicou e apazigou infinidades de Irmãos, chegou ao lar sentindo-se cansado e preocupado, tanto mais que sua filha, parece-nos, de nome Evangelina, apelidada docemente por Nhanham, achava-se febril, abatida, desassossegada.  

        Descansa, depois de haver tomado seu banho e jantado.

        Á sua porta chega uma senhora aflita e lhe pede, entre soluços, emnome de Jesus, para ir ver sua filhinha que se achava febril, abatida, desassossegada.

        Bezerra se comove com as lágrimas maternais.

        Pensa na sua filha também doente, a quem dera assistência e de cuja enfermidade não encontrava a causa.

        Sente-se também cansado e com as pernas inchadas. Mas a irmã, à sua frente, era uma estátua viva de dor e aflição e o chamava em nome de Jesus!   

        Não podia desatendê-la.

        E diz para queria esposa, que o observava atenta e também aflita, procurando adivinhar sua solução e pedindo-lhe, pelo olhar, que não fosse:

        - Minha filha ficará sob os cuidados de Jesus. E, em seu nome, vou cuidar de outra filha. Até já...

        E segue com a mãe aflitiva.

        Sobe e desce morros.

        Depois de caminhada exaustiva, chega.

        Realiza sua tarefa, medicando a doentinha, dando-lhe passes, receitando-lhe alguns medicamentos e colocando-lhe à mesa algum dinheiro.

        E sai, deixando a doente melhor e a Mãe consolada e agradecida, a dizer-lhe: Vá com Deus, Dr. Bezerra! Que Deus lhe pague o Bem que me fez! Que possa encontrar sua filha melhor!

        Chega ao lar tarde da noite.

        Encontrar tudo aquietado...

        E, receoso, pensando haver a filha pioradoe até desencarnado, entra às pressas...

        E encontra a esposa dormindo e sem febre...

        Ali mesmo, em silêncio, ajoelha a alma e agradece ao Divino Mestre por lhe haver sentido o testemunho e medicado a filha, aquela que, mais tarde, em plena primavera de seus 18 anos, seria chamada à Espiritualidade para ser, de mais Alto, seu Anjo e seu Estímulo. Lindos casos de Bezerra de Menezes. Sua querida filha, seu anjo e seu estímulo. Ramiro Gama).

        De uma feita, um pai de família pede-lhe, chorando, um óbolo, uma ajuda em dinheiro para enterrar o corpo de sua esposa, que desencarnara, deixando-lhe os filhos menores doentes e famintos. Bezerra procura algo nos bolsos e nada encontra. Comove-se! E sua comoção era uma prece! E, por intuição, desapegado das coisas materiais, tira do dedo o anel simbólico de Médico e o entrega ao irmão necessitado, dizendo-lhe, com carinho e humildade:         - Venda-o e, com o dinheiro apurado, enterre o corpo de sua mulher e, depois, compre o de que precisa. Que Maria santíssima o ajude e abençoe! (Lindos casos de Bezerra de Menezes. Dava o que possuía. Ramiro Gama).

        Não se preocupava com o dinheiro. Era-lhe apenas um meio e não um fim. Não dava também grande atenção às coisas materiais, como vemos. Era ver um faminto, um sofredor à sua frente e lhe dava tudo o que tinha nos bolsos. E, quando, porventura, nada possuía de dinheiro, dava algo de si, num Abraço, num olhar, numa prece!

        Exercia a Caridade desconhecida!   (Lindos casos de Bezerra de Menezes. Dava algo de si mesmo. Ramiro Gama).

        Em 1873, enquanto Bezerra de Menezes se reelege para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde permaneceria até 1881, é criado nesta mesma cidade, em 2 de agosto, o “Grupo Confúcio”, a base sobre a qual se assentaria a obra tangível de Ismael no Planeta, na expressão do Espírito Humberto de Campos em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Ali o angélico servo de Jesus define o caráter cristão dos trabalhos do Espiritismo no Brasil: “A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho em espírito e verdade. Os que quiserem bem cumprir o dever, a que se obrigaram antes de nascer, deverão, pois, reunir-se debaixo deste pálio trinário: Deus, Cristo e Caridade. Onde estiver esta bandeira, aí estarei eu, Ismael.” .

        No “Confúcio” servia, entre tantos outros trabalhadores de grande envergadura moral, a personalidade de Joaquim Carlos Travassos, responsável pela primeira tradução portuguesa de “O Livro dos Espíritos” e pela inspirada iniciativa de oferecê-la ao Dr. Bezerra de Menezes. (Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000).

        O episódio foi descrito do seguinte modo pelo futuro Médico dos Pobres: "Deu-mo na cidade e eu morava na Tijuca, uma hora de viagem de bonde. Embarquei com o livro e, como não tinha distração para a longa viagem, disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto... Depois, é ridículo confessar-me ignorante desta filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas. Pensando assim,abri o livro e prendi-me a ele, como acontecera com a Bíblia. Lia. Mas não encontrava nada que fosse novo para meu Espírito. Entretanto, tudo aquilo era novo para mim!... Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no "O Livro dos Espíritos". Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença". 

        No dia 16 de agosto de 1886, um auditório de cerca de duas mil pessoas da melhor sociedade enchia a sala de honra da Guarda Velha, na rua da Guarda Velha, atual Avenida 13 de Maio, no Rio de Janeiro, para ouvir em silêncio, emocionado, atônito, a palavra sábia do eminente político, do eminente médico, do eminente cidadão, do eminente católico, Dr. Bezerra de Menezes, que proclamava a sua decidida conversão ao Espiritismo.

            No ano de 1883, reinava um ambiente francamente dispersivo no seio do Espiritismo no Brasil, e os que dirigiam os núcleos espíritas do Rio de Janeiro sentiam a necessidade de uma união mais estreita e indestrutível.

        Os Centros Espíritas, onde se ministrava a Doutrina, trabalhavam de forma autônoma. Cada um deles exercia sua atividade em um determinado setor, despreocupado em conhecer as atividades dos demais.

        Esse estado de coisas levou-os à fundação da Federação Espírita Brasileira (FEB).

        Nessa época, já existiam muitas sociedades espíritas, porem as únicas que mantinham a hegemonia eram quatro: a Acadêmica; a Fraternidade; a União Espírita do Brasil e a Federação Espírita Brasileira. Entretanto, logo surgiram entre elas rivalidades e discórdias. Sob os auspícios de Bezerra de Menezes, e acatando importantes instruções, dadas por Allan Kardec, através do médium Frederico Júnior, foi fundado o famoso Centro Espírita. Porém, nem por isso deixava Bezerra de dar a sua cooperação a todas as outras instituições.

        O entusiasmo dos espíritas logo se arrefeceu, e o velho seareiro viu-se desamparado dos seus companheiros, chegando a ser o único freqüentador do Centro. A cisão era profunda entre os chamados "místicos" e "científicos", ou seja, espíritas que aceitavam o Espiritismo em seu aspecto religioso, e os que o aceitavam simplesmente pelo lado científico e filosófico.(Vida e Obra Dr. Bezerra de Menezes.Antonio Nóbrega Filho. Humberto Mauro Mendonça Machado.).

        Em 1887, dá início, nas páginas de O Paiz, um dos mais conceituados órgão da imprensa carioca, com o pseudônimo Max, a uma série de artigos doutrinários sob a epígrafe “Espiritismo — Estudos Filosóficos”, sem que fosse interrompida a sua colaboração em REFORMADOR. Seus escritos continuaram no Jornal do Brasil (1895) e na Gazeta de Notícias (1895-1897). Ao mesmo tempo produz livros que muito contribuiriam para o enriquecimento da literatura espírita. Dessas obras, duas, atravessando o século como fontes constantes de estudo, ainda hoje permanecem na linha editorial da FEB: “Uma Carta de Bezerra de Menezes” e “A Loucura sob Novo Prisma”. (Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000).

        Em 1893, a convulsão provocada no Brasil pela Revolta da Armada, ocasionou o fechamento de todas as sociedades espíritas ou não. No Natal do mesmo ano Bezerra encerrou a série de "Estudos Filosóficos" que vinha publicando no "O Paiz".

        Em 1894, o ambiente demonstrou tendências de melhora e o nome de Bezerra foi lembrado como o único capaz de unificar a família espírita. O infatigável batalhador, com 63 anos de idade, assumiu a presidência da Federação Espírita Brasileira .(Vida e Obra Dr. Bezerra de Menezes.  Antonio Nóbrega Filho. Humberto Mauro Mendonça Machado.)

        Em 1899, Bezerra se inclina a instituir na FEB mais uma reunião pública semanal,destinada ao estudo dos Evangelhos à luz do Espiritismo, mas é atingido,em dezembro daquele ano, por violenta congestão cerebral que o levaria à desencarnação.(Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000).

        E de 1895 a 1900, ano de seu desencarne, a FEB, sob as vistas guiadoras do Anjo Ismael, viveu a sua Missão evangélica.

        O caroável Dr. Bezerra de Menezes foi no seu seio, nos cinco anos que ainda lhe restavam de vida abençoada, o Apóstolo da Bondade por excelência, o verdadeiro Chefe da Família Espírita do Brasil. (Lindos casos de Bezerra de Menezes. Chefe da família espírita do Brasil. Ramiro Gama).

        Num diálogo com o médium Divaldo Pereira Franco, Dr. Bezerra relata como foi sua passagem para o plano espiritual:

        Um dia, perguntei ao Dr. Bezerra de Menezes, qual foi a sua maior felicidade quando chegou ao plano espiritual. 

        Ele respondeu-me: 

         -  A minha maior felicidade, meu filho, foi quando Celina, a mensageira de Maria Santíssima, se aproximou do leito em que eu ainda estava dormindo, e, tocando-me, falou, suavemente: 

        -  Bezerra, acorde, Bezerra! 

         Abri os olhos e vi-a, bela e radiosa.

        -  Minha filha, é você, Celina?! 

         -  Sim, sou eu, meu amigo. A Mãe de Jesus pediu-me que lhe dissesse que você já se encontra na Vida Maior, havendo atravessado a porta da imortalidade. Agora, Bezerra, desperte feliz.

        Chegaram os meus familiares, os companheiros queridos das hostes espíritas que me vinham saudar. 

        Mas, eu ouvia um murmúrio, que me parecia vir de fora. 

        Então, Celina, me disse: 

        -  Venha ver, Bezerra. 

         Ajudando-me a erguer-me do leito, amparou-me até uma sacada, e eu vi, meu filho, uma multidão que me acenava, com ternura e lágrimas nos olhos. 

         - Quem são, Celina? - perguntei-lhe ? -  não conheço a ninguém. Quem são? 

        São aqueles a quem você consolou, sem nunca perguntar-lhes o nome. São aqueles Espíritos atormentados, que chegaram às sessões mediúnicas e a sua palavra caiu sobre eles como um bálsamo numa ferida em chaga viva; são os esquecidos da Terra, os destroçados do mundo,  a quem você estimulou e guiou.  São eles, que o vêm saudar no pórtico da eternidade... 

        E o Dr. Bezerra concluiu: 
           - A felicidade sem limites existe, meu filho, como decorrência do bem que  fazemos, das lágrimas que enxugamos, das palavras que semeamos no caminho,  para atapetar a senda que um dia percorreremos.  (O semeador de Estrelas. Suely Caldas Schubert).

        No livro ‘‘Lindos Casos de Bezerra de Menezes’’ relata que após 50 anos de seu desencarne,o Dr. Bezerra pede para permanecer na Terra para continuar ajudando as pessoas: ‘’Os Espíritas do Além se reúnem para homenagear os cinqüenta anos do desencarne do Dr. Bezerra de Menezes!

        O Chico Xavier, embora nada nos dissesse, por modéstia, soubemos, foi um dos convidados.

        E assistiu, emocionado, á homenagem gratulatória de uma grande assembléia de desencarnados ao caridoso Apostolo, fazendo coro com outra assembléia de encarnados que, na Terra, realizava idêntica homenagem.

        Bezerra de Menezes achava-se naquele ambiente de luz e emoção, sinceridade e gratidão, acanhado e vivendo uma grande comoção, tanto mais quando seus Irmãos recordavam-lhe seus 69 anos vividos na Terra e lhe realçavam os exemplos dignificantes que dera como Espírita, como Médico dos Pobres, como Irmão de todos os sofredores, como Discípulo humilde e sincero de Jesus.

        De repente, sob a surpresa dos que compunham a grande assembléia, do mais Alto, uma Estrela luminescente dá presença. É Celina, a enviada da Virgem Santíssima, que chega e lê a mensagem da Rainha dos Anjos promovendo Bezerra de Menezes, seu querido Servidor, a uma Tarefa Maior e numa Esfera mais Alta. O Evangelizador Espírita chora emocionadíssimo. Depois, ajoelha-se e, agradecendo, entre lagrimas, á Mãe das Mães a graça recebida, suplica-lhe, por intermédio de Sua Enviada Sublime, para ficar no seu humilde Posto, junto á Terra, a fim de continuar atendendo aos pedidos de seus irmãos terrestres, que tantas provas lhe dão, continuadamente, de estima e gratidão.

        O Espírito luminoso de Celina nada pode resolver e sobe ás Esferas Elevadas donde veio e se dirige aos pés da Mãe Celestial e submete á sua Apreciação o pedido de seu servo agradecido.Daí a instante volta e traz a resposta de Nossa Senhora: - Que sim, que Bezerra ficasse no seu posto o tempo que quisesse e sempre sob suas Bênçãos!  E a Terra e do Além partem vozes em Prece!

        E das Esferas longínquas vêm as Bênçãos de Luz do Coração da Flor de Jericó, vestindo tudo e todos de Emoção e Ternura, de Alegria e Luz! (Lindos casos de Bezerra de Menezes.Uma festa na Espiritualidade. Ramiro Gama).

 

Bibliografia:

- Bezerra de Menezes. Canuto Abreu.

-  Lindos casos de Bezerra de Menezes.Ramiro Gama.

- Vida e Obra Dr. Bezerra de Menezes. Antonio Nóbrega Filho. Humberto Mauro Mendonça Machado.

- O semeador de Estrelas. Suely Caldas Schubert.

- Artigo: Bezerra de Menezes. Centenário da Desencarnação. Revista Reformador – 04/2000.