Andrew Jackson Davis

         Andrew Jackson Davis foi um dos homens mais notáveis de que temos uma informação exata. Nascido em 1826 nas margens do Hudson, sua mãe era uma criatura deseducada; e seu pai era um borracho, trabalhador em couros. O povo era rude e deseducado, mas o seu lado espiritual era muito vivo: parecia estar sem­pre pronto para alcançar algo de novo. Foi nesses distritos rurais de New York que, no espaço de poucos anos, se desenvolve­ram o Mormonismo e o Espiritismo.

       Era fraco de corpo e pobre de mente. Fora dos li­vros da escola primária apenas se lembrava de um livro que sempre lia até os dezesseis anos de idade. Entretanto naquela criatura mirrada dormiam tais fôrças espirituais que antes dos vinte anos tinha escrito um dos livros mais profundos e origi­nais de filosofia jamais produzidos. Poderia haver mais clara prova de que nada tinha vindo dêle mesmo e de que não passava de um conduto, através do qual fluía o conhecimento daquele vasto reservatório que dispõe de tão incompreensíveis dispositivos?

             Nos seus últimos anos da infância começaram a se desen­volver os poderes psíquicos de Davis.  Por ocasião da morte de sua mãe, teve uma notável visão de uma casa muito amável, numa região brilhante, que imaginou ser o lugar para onde sua mãe tinha ido. Entretanto sua completa capacidade foi despertada por uma circunstância: veio a sua al­deia um saltimbanco que exibia as maravilhas do mesmerismo; fêz uma experiência com Davis, e também com muitos outros jovens rústicos, que quiseram provar aquela sensação. Logo foi constatado que Davis possuía notável poder de clarividência.

            Descrevia como o corpo humano se tornava transparente aos seus olhos espirituais, que pareciam funcionar do centro de sua testa. Cada órgão aparecia claramente e com uma radiação especial e peculiar, que se obscurecia em caso de doença. Tão bem verifi­cados têm sido tais poderes, que não é raro verem-se médicos tomar clarividentes ao seu serviço, como auxiliares para o diag­nóstico.

            Na tarde de 6 de março de 1844, Davis foi subitamente tomado por uma fôrça que o fêz voar da pequena cidade de Poughkeepsie, onde vivia, e fazer uma pequena viagem no estado de semitranse. Quando voltou à consciência, encontrava-se en­tre montanhas agrestes e aí, diz êle, encontrou dois anciãos, com os quais entrou em íntima e elevada comunhão, uma sôbre medi­cina e outra sôbre moral. Diz de que posteriormente identificou seus dois mentores como sendo Galeno e Swedenborg, o que é interessante, por ser o primeiro contacto com os mortos por ele próprio reco­nhecido.

            O Doutor George Bush, professor de Hebraico na Universi­dade de New York, uma das testemunhas quando eram rece­bidas as orações em transe, assim escreve:

“Afirmo solenemente que ouvi Davis citar corretamente a língua hebraica em suas palestras, e demonstrar um conhecimento de geologia muito admirável numa pessoa da sua idade, ainda quando tivesse devotado anos a esse estudo. Discutiu, com grande habilidade, as mais profundas questões de arqueo­logia histórica e bíblica, de mitologia, da origem e das afini­dades das línguas, da marcha da civilização entre as várias na­ções da Terra, de modo que fariam honra a qualquer estudante daquela idade, mesmo que, para as alcançar, tivesse consultado todas as bibliotecas da Cristandade. Realmente, se ele tivesse adquirido todas as informações que externa em suas conferên­cias, não em dois anos, desde que deixou o banco de sapateiro, mas em toda a sua vida, com a maior assiduidade no estudo, nenhum prodígio intelectual de que o mundo tem notícia, por um instante seria comparável com este, muito embora nenhum volume, nenhuma página tenha sido publicada.”

            Seu desenvolvimento psíquico continuava e antes dos vinte e um anos tinha chegado a ponto de não mais necessitar de alguém para cair em transe; realizava-o sozinho.

          Foi então que se assentou ao lado de uma senhora ago­nizante e observou todos os detalhes da partida da alma, cuja magnífica descrição nos dá no primeiro volume de “A Grande Harmonia”:

        -“Eu a vi passar para a sala contígua, através da porta e da casa, erguer-se no espaço... Depois que saiu da casa encontrou dois Espíritos amigos, da região espiritual que, depois de um terno reconhecimento e de um entendimento entre os três, da mais graciosa das maneiras, começou a subir obliquamente pelo en­voltório etéreo de nosso globo. Marchavam juntos tão natural­mente, tão fraternalmente que me custava imaginar que se equilibrassem no ar: pareciam subir pela encosta de uma montanha gloriosa e familiar. Continuei a olhá-los, até que a distância os fechou aos meus olhos”.

         Muitas pessoas que caem em estado cataléptico, ou que esti­veram tão doentes que chegaram ao estado de coma, trouxeram impressões muito concordes com a descrição de Davis.

        Antes de 1856 profetizou de­talhadamente o aparecimento do automóvel e da máquina de escrever.

        O aparecimento do Espiritismo foi predito nos seus “Prin­cípios da Natureza”, publicados em 1847, onde diz:

        “É verdade que os Espíritos se comunicam entre si, quando um está no corpo e outro em esferas mais altas — e, também, quando uma pessoa em seu corpo é inconsciente do influxo e, assim, não se pode convencer do fato. Não levará muito tem­po para que essa verdade se apresente como viva demonstração. E o mundo saudará com alegria o surgimento dessa era, ao mesmo tempo que o íntimo dos homens será aberto e estabele­cida a comunicação espírita, tal qual a desfrutam os habitantes de Marte, Júpiter e Saturno”.

         Para nós o que é importante é o papel representado por Davis no começo da revelação espírita. Ele começou a preparar o terreno, antes que se iniciasse a revelação. Estava claramente fadado a associar-se intimamente com ela, de vez que co­nhecia a demonstração de Hydesville, desde o dia em que ocorreu. De suas notas tomamos a passagem seguinte, que traz a data significativa de 31 de março de 1848:

        “Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz, suave e forte, dizer: “Irmão, um bom trabalho foi começado — olha! surgiu uma demonstração viva”. Fiquei pensando o que queria dizer semelhante mensagem. Era o come­ço do enorme movimento do qual participaria como profeta.

 

 Bibliografia:

- A História do Espiritismo. O Profeta da Nova Revelação.Arthur Conan Doyle.